Algoritmos no poder: a inteligência artificial no serviço público e na política – por Luís Henrique Kittel
Um desafio: “como conciliar inovação tecnológica e legitimidade democrática?”

Quando a imprensa surgiu, temeu-se que a palavra impressa desorganizasse o mundo. Quando o rádio ganhou força, previu-se a manipulação das massas. Quando a televisão entrou nos lares, falou-se no poder quase absoluto das imagens. Agora, diante da inteligência artificial, não estamos apenas perante um novo meio de comunicação, mas diante de uma nova forma de decidir, influenciar e governar.
A inteligência artificial não bate mais às portas do serviço público, ela já ocupa lugar à mesa. Organiza filas na saúde, cruza dados fiscais, antecipa riscos urbanos e começa a participar, ainda que indiretamente, do debate político. A questão central já não é se deve ser utilizada, mas sob quais princípios, limites e responsabilidades deve operar dentro do Estado.
Na administração pública, a IA promete eficiência, racionalidade e economia de recursos. Diferentemente de uma empresa privada, porém, o poder público não lida apenas com métricas de desempenho. Lida com direitos fundamentais, desigualdades históricas e decisões que carregam peso moral e profundo impacto social.
É justamente aí que reside o grande desafio contemporâneo: como conciliar inovação tecnológica e legitimidade democrática? Como garantir que algoritmos ampliem direitos, em vez de distorcer prioridades? Como assegurar que a busca por eficiência não comprometa a dimensão humana das decisões governamentais?
Ao lado dos avanços, surgem dilemas que não podem ser ignorados. A IA é uma ferramenta poderosa, mas não é, nem pode ser, substituta da decisão política ou do juízo ético que deve orientar o serviço público.
No campo eleitoral, o debate ganhou contornos concretos nesta semana. O Tribunal Superior Eleitoral aprovou, por unanimidade, nova resolução que atualiza as regras de propaganda para 2026, com foco no uso de inteligência artificial. A norma proíbe a publicação, republicação ou impulsionamento de conteúdos produzidos ou alterados por IA nas 72 horas que antecedem o pleito e nas 24 horas posteriores ao seu encerramento.
A democracia brasileira começa, assim, a traçar suas próprias balizas diante de uma tecnologia que, se mal utilizada, pode comprometer a essência do processo eleitoral. A decisão do TSE evidencia uma tensão central: liberdade de expressão versus integridade democrática. A IA amplia a comunicação política, mas também expande de forma exponencial o potencial de manipulação informacional. Se a desinformação já representava um desafio, com a geração sintética de áudio e vídeo o risco torna-se qualitativamente mais grave. A velocidade de propagação, muitas vezes, supera a capacidade de resposta institucional.
Há ainda a tensão entre regulação e inovação. Sistemas automatizados agilizam procedimentos e reduzem custos, mas o Estado não lida apenas com números, mas com pessoas, direitos e vulnerabilidades. Quando um algoritmo define quem terá acesso a determinado benefício, é legítimo perguntar: com base em quais critérios? Quais dados foram utilizados? Que vieses podem estar embutidos? A tecnologia pode racionalizar a gestão, mas não deve desumanizá-la.
Por fim, permanece a questão mais profunda: é possível automatizar a política? Algoritmos operam a partir de padrões do passado; decisões políticas envolvem valores, escolhas morais e definição de prioridades coletivas. A inteligência artificial pode iluminar caminhos, mas não substitui o debate público nem a legitimidade conferida pelo voto.
Os avanços são reais e promissores. A recente regulação demonstra maturidade institucional ao reconhecer riscos e estabelecer limites. Ainda assim, é indispensável manter vigilância crítica. O desafio do nosso tempo não é escolher entre tecnologia e humanidade, mas assegurar que a inovação esteja a serviço de um projeto de Estado mais eficiente, mais transparente e, sobretudo, mais justo.
(*) Luís Henrique Kittel, 40 anos, é jornalista formado pela então Unifra, atual UFN. É prefeito de Agudo (o único do PL na região), e é o atual presidente da Associação dos Municípios da Região Central (AM Centro) e já foi vice-presidente do Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia. Ele escreve no site às quintas-feiras.





Resumo da opera. Inteligencia artifical tem tudo para substituir os politicos por um motivo bem simples: é ‘inteligente’!
‘[…] a inovação esteja a serviço de um projeto de Estado mais eficiente, mais transparente e, sobretudo, mais justo.’ Conversa mole.
‘[…] decisões políticas envolvem valores, escolhas morais e definição de prioridades coletivas. A inteligência artificial pode iluminar caminhos, mas não substitui o debate público […]’. Cite as ultimas tres vezes onde a população foi consultada para ‘definir prioridades coletivas’.
‘A tecnologia pode racionalizar a gestão, mas não deve desumanizá-la.’ Sim, tem que ter uma folga para ‘atalhos’ e ‘jeitinhos’.
‘A norma proíbe a publicação, republicação ou impulsionamento de conteúdos produzidos ou alterados por IA […]’. Brasil é conhecido pelo respeito as normas.
‘[…] juízo ético que deve orientar o serviço público.’ Coisa que no Brasil abunda.
‘Como assegurar que a busca por eficiência não comprometa a dimensão humana das decisões governamentais?’ ‘Dimensão humana’ é uma tremenda de uma cascata. Por que não se preocupam com eficiencia? Porque não são eles que tem trabalhar para gerar riqueza. E se for para o ralo não os atinge.
‘Como garantir que algoritmos ampliem direitos […]’. Não foram feitos para isto, são da iniciativa privada. Alas, politicos gostam de ‘ampliar direitos’, dar canetaços no ar condicionado. Dá voto. Só que chega uma hora que não existem recursos suficientes. Alguém tem que trabalhar.
‘Organiza filas na saúde, cruza dados fiscais,[…]’. Já existia antes. Não tem necessidade de usar um canhão para matar uma barata. Agora tudo virou IA.
‘[…] mas diante de uma nova forma de decidir, influenciar e governar.’ Por isto é necessário consultar além do Google. O buscador já censurava resultados. A IA continua na mesma toada.