Na Segurança do Trabalho, faz muito sentido torcer pelo goleiro – por Rosito Zepenfeld Borges

Quando eu jogava futebol (obviamente de forma muito amadora), no século passado, havia uma posição que sempre me chamava atenção: a de goleiro. Como eu era o mais alto entre os meus colegas e não dispunha de muita habilidade com a bola nos pés, acabar debaixo das traves era praticamente inevitável. Talvez por isso eu tenha aprendido cedo que ser goleiro é ocupar uma das posições mais ingratas do esporte. Durante quase toda a partida, suas boas intervenções passam despercebidas. Mas basta um único erro para que toda a responsabilidade pela derrota recaia sobre ele. Agora, na fase eliminatória da Copa do Mundo, essa realidade fica ainda mais evidente. Em um jogo de mata-mata, um único lance pode apagar noventa minutos de atuações seguras e transformar o goleiro no principal personagem da partida.
Algo muito semelhante acontece com os profissionais de Segurança do Trabalho. Quando a empresa completa meses ou anos sem acidentes, poucos se perguntam quais ações, treinamentos, inspeções, análises de risco e orientações contribuíram para esse resultado. A prevenção acontece de forma silenciosa, quase invisível. Entretanto, quando ocorre um acidente, uma das primeiras perguntas costuma ser: “Onde estava a Segurança do Trabalho?”. De repente, toda a atenção se volta para um trabalho que, até então, passava despercebido.
Essa forma de enxergar a segurança foi muito bem discutida pelo pesquisador Erik Hollnagel ao apresentar os conceitos de Safety-I e Safety-II. Na visão tradicional, conhecida como Safety-I, a segurança é medida principalmente pela ausência de acidentes. Assim, os esforços concentram-se em investigar o que deu errado e identificar culpados ou falhas depois que um evento acontece. É como avaliar o goleiro apenas pela bola que entrou, ignorando todas as defesas que impediram que o placar fosse ainda pior.
Hollnagel propõe uma mudança de perspectiva. O Safety-II convida as organizações a compreender por que as coisas dão certo na maior parte do tempo. Em vez de olhar exclusivamente para os acidentes, passa a valorizar as milhares de atividades realizadas diariamente com sucesso, graças à competência das pessoas, aos processos bem estruturados, às barreiras de segurança e à capacidade de adaptação diante das dificuldades. Sob essa ótica, o goleiro deixa de ser lembrado apenas pela defesa que não fez e passa a ser reconhecido pelas dezenas de decisões corretas que permitiram que sua equipe permanecesse competitiva durante toda a partida.
Essa reflexão é especialmente importante porque o sucesso da prevenção dificilmente vira manchete. Não existem aplausos para o acidente que não aconteceu, para o incêndio que foi evitado, para a máquina que permaneceu segura ou para a decisão que impediu uma tragédia. Assim como o melhor jogo de um goleiro pode terminar sem uma única defesa espetacular, o melhor trabalho de um profissional de Segurança do Trabalho pode ser justamente aquele que ninguém percebeu, porque tudo funcionou como deveria.
Talvez a maior lição que a Copa do Mundo possa nos oferecer seja justamente esta: precisamos aprender a valorizar não apenas quem reage aos problemas, mas principalmente quem trabalha todos os dias para que eles nunca aconteçam. No futebol, isso significa reconhecer o goleiro muito antes da falha decisiva. Nas organizações, significa compreender que a verdadeira excelência em segurança não se mede apenas pela ausência de acidentes, mas pela presença constante de condições que permitem que as pessoas voltem para casa em segurança todos os dias. E, quando um goleiro faz uma defesa decisiva, ele deixa de ser lembrado pelo erro que poderia cometer para se tornar herói. Afinal, quem viveu a Copa de 1994 certamente ainda consegue ouvir Galvão Bueno gritando: “Vai que é sua, Taffarel!” Talvez esteja aí a grande lição: aprender a reconhecer quem evita o problema antes que ele aconteça, e não apenas apontar culpados quando ele já aconteceu.
(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.





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