“O Agente Secreto”: para que nunca se esqueça – Roselâine Casanova Corrêa
Pois então, “há uma tensão implícita em toda a narrativa. Por razões óbvias!”

Desde seu lançamento no Festival de Cannes (Maio/2025), o thriller político brasileiro “O Agente Secreto” vem amealhando prêmios. Em Cannes, conquistou o de Melhor Diretor e Melhor Ator. No Globo de Ouro o longa levou duas estatuetas (11/1) e na premiação da ICS (8/2), conquistou seis prêmios, dentre outros, desde então. Em princípio, o mais robusto concorrente a Wagner Moura no Oscar/2026 era Timothée Chalamet (“Marty Supreme”). Contudo, após várias premiações e controvérsias, as peças do tabuleiro se alteraram, de modo que Leonardo DiCaprio (“Uma Batalha Após a Outra”) e Michael B. Jordan (“Pecadores”) passaram a ser os mais potentes concorrentes do ator brasileiro, no próximo domingo (15/3).
Kleber Mendonça Filho concebeu “O Agente Secreto” durante três anos, que resultou em um filme de 2h40minutos, com uma narrativa que concorre ao Oscar em 4 categorias: “Melhor Filme”, “Melhor Filme Internacional”, “Melhor Ator”, “Melhor Direção de Elenco”. Em todas as categorias possui concorrentes de peso, sobretudo em Melhor Filme Internacional, em especial com o espetacular filme norueguês “Valor Sentimental”.
No elenco, uma combinação de atores com pessoas comuns, que residem em Pernambuco, como a artesã Tânia Maria (Dona Sebastiana), junto a Wagner Moura (Armando/Marcelo), o alemão Udo Kier (Hans), Maria Fernanda Cândido (Elza), Gabriel Leone (Bobbi), Roney Villela (Augusto), João Vitor Silva (Haroldo) e Thomas Aquino (Waldemar). O longa está disponível na Netflix desde o último sábado (7/3).
A ambientação é primorosa, em uma Recife dos anos de 1970, com seus letreiros faiscantes, pontes dos tempos da invasão holandesa (XVII) e carros como o Opala, o Fusca, a Kombi, a Brasília, o Corcel… e o camburão, claro! Pense na elaboração precisa do figurino, na trilha sonora (Waldick Soriano, Angela Maria, Donna Summer). No Festival de Cannes, o elenco estava acompanhado pelo frevo da Orquestra Popular do Recife.

Mendonça Filho conduziu a narrativa aos poucos, com a primeira cena em um posto de gasolina em meio ao nada. Mas já há um cadáver ali. Encaminha o espectador pelas ruas do Recife, vai ao cinema, mostra o cotidiano da polícia. Mas a trama não é linear. São três tempos: o de Armando, um jovem professor universitário; o de Marcelo, o clandestino; o de Fernando, o filho sem memória. De fato, a narrativa está mais centrada em 1977, portanto, sob a presidência do General Ernesto Geisel (1974-1979). Com efeito, sob o regime civil-militar (1964-1984). Há uma tensão implícita em toda a narrativa. Por razões óbvias!
O diretor trabalhou com êxito os silêncios, o não dito, o velado, o obscuro. Bem na medida para a época retratada, em que os olhares falavam por si, diante da censura, do cerceamento das liberdades e da tortura iminente. No cotidiano da vida no Recife, transitam pessoas que não podem ser notadas/reconhecidas. O delegado na trama é uma medida desse silêncio: ele deixa o protagonista na dúvida se foi ou não descoberto, justo pelo não dito, pela omissão de informações. Aliás, o personagem lembra muito o Delegado Fleury, do DOPS de SP.
No Globo de Ouro/2026, Wagner Moura foi preciso: “o Agente Secreto” é um filme sobre memória, sobre a falta de memória, e uma geração traumatizada”. De fato, o ator se referia aos anos que correspondem ao período mais terrível da História do Brasil Republicano, em que mencionar “a falta de memória” é tocar em pontos sensíveis do Brasil, inclusive na atualidade. Exemplo disso está no personagem Fernando, o filho que repudia a memória.
“Para que nunca se esqueça!” jamais foi tão atual.

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.





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