O Dia Internacional da Mulher – por José Renato Ferraz da Silveira e Pietra Lemberck
Data não pode se reduzir ‘a homenagens superficiais ou campanhas comerciais’

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é uma data histórica de luta por direitos, igualdade e reconhecimento. Mais do que uma celebração, trata-se de um marco político e social que remete às mobilizações de mulheres operárias no início do século XX, que enfrentaram jornadas exaustivas, salários desiguais e ausência de direitos trabalhistas.
Oficializada pela ONU em 1975, a data consolidou-se como um momento global de reflexão sobre as conquistas femininas – mas, sobretudo, sobre os desafios que ainda persistem.
A ironia, contudo, reside na distância abissal entre o papel e a vida real. Enquanto os palanques diplomáticos e os fóruns globais transbordam de discursos inflamados sobre equidade e direitos fundamentais, a rotina de milhões de mulheres continua pautada pela mera sobrevivência. O mundo aprendeu a institucionalizar a data no calendário, mas falha, de forma miserável e sistemática, em institucionalizar o respeito.
No Brasil, o 8 de março também é um dia de denúncia e consciência. Os números recentes de feminicídio e violência de gênero seguem alarmantes e lembram que a igualdade ainda está longe de ser plenamente alcançada. A data, portanto, não pode ser reduzida a homenagens superficiais ou campanhas comerciais.
O machismo estrutural permanece como um dos principais obstáculos à construção de uma sociedade mais justa. Pesquisas indicam que 94% das mulheres brasileiras reconhecem o país como machista, evidenciando a profundidade desse problema social.
Os indicadores reforçam essa realidade: a violência de gênero continua elevada, com uma mulher assassinada aproximadamente a cada 15 horas no país, além de 71.892 casos de estupro registrados em 2024. No campo econômico, a desigualdade salarial persiste – mulheres recebem, em média, cerca de 77,7% da renda masculina. Na política, a sub-representação também é evidente: apenas cerca de 18% dos eleitos em 2022 foram mulheres.
Atrás dessa frieza estatística, repousa uma tragédia silenciosa e inaceitável. Cada um desses números representa uma trajetória podada pela misoginia e um Estado que, ao não proteger, torna-se cúmplice da barbárie. O Brasil tropeça em sua própria hipocrisia: projeta uma imagem de nação que almeja o protagonismo no cenário internacional, mas abriga estruturas arcaicas de dominação dentro de casa. Como reivindicar voz ativa nas grandes decisões globais quando não se consegue garantir o direito mais comezinho de suas cidadãs – o de existirem sem medo?
Diante desse cenário, o Dia Internacional da Mulher reafirma seu sentido original: não apenas celebrar conquistas, mas lembrar que a luta por igualdade, respeito e dignidade continua sendo uma tarefa urgente da sociedade brasileira.
E que as flores e os parabéns de praxe não sirvam de cortina de fumaça para o que realmente importa. A emancipação feminina não é um favor concedido por uma sociedade complacente, mas um imperativo democrático inegociável. Enquanto o simples ato de ser mulher continuar exigindo um exercício diário de coragem, o 8 de março não será uma festa. Será, antes de tudo, um manifesto por aquilo que nos é constantemente negado e que, inapelavelmente, teremos de conquistar.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP)
Pietra Lemberck é estudante de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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