Espelho ou palco: para quem você escreve, afinal? – por Marcelo Arigony
“E se o problema não for escrever para si - mas (...) para não ser confrontado?”

E se o problema não for escrever para si – mas escrever para não ser confrontado?
Há textos que nascem sem pedir licença ao leitor. Funcionam como espelho: o autor se expõe, testa ideias, se desacomoda. Pode soar arrogante à primeira vista. Mas, em muitos casos, é o contrário – é disposição para encarar o que não está pronto, o que ainda incomoda.
Curiosamente, evitar o confronto pode estar no outro extremo. Quando cada palavra é escolhida para agradar, quando o texto é moldado para aceitação imediata, algo se perde. A escrita vira cálculo de reação. E cálculo, aqui, não é técnica – é blindagem.
Claro: escrever para o outro exige método. Linguagem clara, estrutura, ritmo, estratégia. Isso não é fraude. É responsabilidade comunicativa. O desvio começa quando a forma engole o conteúdo, quando a busca por adesão substitui a coragem de sustentar uma ideia.
No fundo, não é uma discussão sobre estilo. É sobre postura.
Na advocacia, essa linha é ainda mais sensível. Há quem trabalhe para o cliente – com leitura real do caso, escolhas estratégicas e compromisso com o resultado possível. Há quem trabalhe para a plateia – transformando o processo em vitrine, priorizando narrativa sobre efetividade. E há um terceiro perfil, menos visível e mais problemático: o profissional que trabalha para si.
Aqui, o risco deixa de ser estético e passa a ser técnico. A atuação gira em torno de convicções pessoais, não de dados do processo. Teses são escolhidas porque agradam ao próprio advogado, não porque sustentam a defesa. O contraditório deixa de ser instrumento e vira incômodo. Não há escuta real, não há ajuste fino, não há estratégia – há insistência.
O resultado costuma ser previsível: decisões mal calibradas, oportunidades perdidas e um cliente que paga o preço de uma defesa autocentrada.
Nenhuma atuação é neutra. Mas algumas são incompatíveis com o próprio sentido da profissão.
Escrever – e advogar – começa no íntimo, sim. Mas não pode terminar ali. Precisa atravessar o outro, suportar o teste da realidade, aceitar o risco do confronto.
Porque, no fim, a pergunta volta – mais incômoda do que no início:
você escreve para se ver… ou para não ser visto de verdade?
(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.





Resumo da opera. Qualquer um pode escrever para quem quiser. O minimo que se exige é o minimo de capricho (algo em desuso). O que se ve é tudo muito superficial na base do ‘para quem é esta bom’. Querem ser como equinos no 20 de setembro, desfilando, defecando e sendo aplaudido. Uns Coalhadas do Chico Anisio.
‘[…] você escreve para se ver… ou para não ser visto de verdade?’ Só comento. A decadencia cultural da cidade é obvia, o nivel não se sustentou. Antigamente era outro planeta, obvio. Mas a comparação é inevitavel.
‘Na advocacia, essa linha é ainda mais sensível.’ Na advocacia sempre existe ‘confronto’. Porque do outro lado existe outro(a) profissional do direito. MP, defensoria, advocacia, etc. Muito rapapé e babação de ovo (falsa na maioria das vezes), mas o ‘confronto’ existe. Alas, na politica de vez em quando aparece um ‘Vossa Excelencia é um fdp!”.
‘Claro: escrever para o outro exige método.’ Pessoal do juridico acha que o que utiliza no fórum serve para qualquer lugar. Teoria da recepção. IA. ‘é uma abordagem teórica que desloca o foco da análise literária e artística do autor ou da obra para o leitor/espectador’. Em SM, cheia de gente apaixonada pelo proprio umbigo, é complicado. ‘Voce escreve no idioma dos outros’. Se forçar um pouco mais se chega na fusão de horizontes do Gadamer. Hermeneutica juridica.
Certos ‘debates’ viram entrevistas com rodizio de entrevistados. ‘Qual sua opinião sobre tal assunto?’. Rola de tudo, mesmo com um(a) ‘jornalista’ na condução dos ‘trabalhos’. Algo que deveria servir para informar/educar vira ruido.
Padrão aldeatico. Algo que migrou do meio jornalistico onde os egos são grandes e o tutano é pequeno. Alguem faz uma afirmação. Para ‘não ofender’ acontece um malabarismo semantico para divergir. Finalidade é evitar conflito e não ‘ofender’. Não importa a asneira, não importa a informação errada. Não importa mentir, não importa inventar fatos e ‘vender’ como opinião. Não importa omitir. Não importa estar falando sobre assunto que desconhece.
‘E se o problema não for escrever para si – mas escrever para não ser confrontado?’ Confrontado em que sentido?