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Trump arrasta a economia mundial para o “atoleiro da guerra do Irã” – por Carlos Wagner

“Trump é muito bom no uso das palavras, mas não é páreo para Netanyahu”

As ameaças do presidente americano Donald Trump até aqui não assustaram os aiatolás iranianos (Foto Reprodução/EBC)

Subiu no telhado, como diz o povo para explicar de forma sutil que algo deu errado, o acordo entre Estados Unidos e Irã para um cessar-fogo de duas semanas na guerra iniciada em 28 de fevereiro, quando os americanos e seu aliado Israel lançaram ataques contra alvos no território iraniano. O acordo previa a reabertura, na manhã de quarta-feira (8), do Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã nos primeiros dias da guerra.

Ormuz, um estrangulamento de mar que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, é uma rota marítima estratégica para a economia mundial porque por ali passa diariamente 20% do petróleo consumido no planeta. Imediatamente após o anúncio da reabertura, a cotação do barril caiu de 120 para menos de 100 dólares e houve reações favoráveis nos mercados financeiros.

Mas a alegria durou pouco. Israel seguiu bombardeando posições no Líbano, onde vivem integrantes do Hezbollah, movimento radical islâmico financiado pelo Irã. Em represália, os iranianos fecharam Ormuz novamente, alegando que o fim dos bombardeios ao território libanês faz parte do acordo de cessar-fogo. Apenas quatro petroleiros haviam cruzado o estreito. Em tempos de paz, o tráfego costuma chegar a 120 navios por dia. Americanos e israelenses responderam que o Líbano estava fora do acordo.

No fim de semana, negociadores americanos e iranianos se reúnem no Paquistão para decidir o destino do cessar-fogo, que foi viabilizado pelas autoridades paquistanesas. Enquanto isso, mesmo com a queda da cotação do petróleo, os preços dos combustíveis não param de subir nas bombas de abastecimento ao redor do mundo.

A exemplo de conflitos anteriores no Oriente Médio, o atual também desperta grande interesse da comunidade internacional porque a região concentra alguns dos maiores produtores mundiais de petróleo. Cada um desses conflitos mexeu com os preços dos combustíveis, algumas vezes com força suficiente para desorganizar toda a economia mundial.

Qual é a diferença desta guerra para as outras que aconteceram por lá? Vamos começar puxando o fio dessa meada. Ele aparece no raiar do dia 7 de outubro de 2023. Naquele sábado, vindos da Faixa de Gaza, território da Palestina de 365 quilômetros quadrados onde vivem 2,4 milhões de pessoas, 3 mil combatentes do Hamas, um movimento radical islâmico financiado pelo Irã, invadiram Israel, mataram 1,2 mil pessoas e fizeram 250 reféns.

A maioria dos países concordou com o direito de Israel de reagir ao ataque. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, 76 anos, comparou o episódio ao 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Na ocasião, 19 terroristas suicidas ligados à Al-Qaeda, de Osama bin Landen (1957 – 2011), sequestraram quatro aviões comerciais e os jogaram contra prédios, entre eles as Torres Gêmeas, em Nova York, matando 3 mil pessoas.

A respeito dessa comparação, o então presidente americano Joe Biden (democrata), 83 anos, advertiu Netanyahu para ter cuidado com os “excessos” na retaliação ao Hamas. Biden referia-se aos erros cometidos pelos Estados Unidos na perseguição aos culpados pelo 11 de setembro, envolvendo-se em guerras que se tornaram atoleiros sem fim, como no Iraque e no Afeganistão. Pelo visto, Netanyahu ignorou a advertência.

O atual presidente americano, Donald Trump (republicano), 79 anos, tomou posse em 20 de janeiro de 2025 e, a exemplo do que tinha feito no seu primeiro mandato (2017 – 2021), tratou de correr atrás de um palco para brilhar nas manchetes internacionais. E Netanyahu tinha o palco procurado por Trump, A caçada ao Hamas na Faixa de Gaza custou, nos primeiros dois anos de guerra, 67 mil palestinos mortos, a maioria civis. Do lado israelense, foram 1.665 mortos, além da questão dos reféns, que corroíam a já carcomida imagem pública de Netanyahu.

Em um primeiro instante, Trump vendeu a ideia de transformar Gaza em uma espécie de Riviera francesa, um spa de luxo para turistas. O destino dos palestinos seria migrar para países vizinhos. A ideia foi abandonada. Em outubro passado, ele anunciou o fim da guerra de dois anos entre Israel e Hamas com um acordo de cessar-fogo que incluía a troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos.

Além do desarmamento do Hamas e a reconstrução de Gaza. Meses depois, militantes do Hamas e soldados israelenses continuam trocando tiros e a população civil se transformou um “problema humanitário”. Em 2026, no final de fevereiro, Netanyahu convidou Trump “para brilhar novamente nas manchetes”. Desta vez, atacando o Irã.

A respeito do assunto publiquei, em 22 de março, o post Até onde Trump pretende ir com a guerra no Irã? Vou repetir parte do texto. “Um fato surpreendente aconteceu na terça-feira (17/03). A demissão de Joseph Kent, 45 anos, que ocupava o cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo do governo Trump.

Saiu atirando: ‘Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente a nossa nação, e é evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”. Acrescentou que no início do mandato de Trump altos funcionários do governo israelense e a mídia americana lançaram uma campanha para desmoralizar a principal bandeira do presidente, o ‘América em primeiro lugar’, e preparar o campo para a invasão do Irã”.

Para finalizar a nossa conversa. Israel tinha o direito de revidar os ataques do Hamas. A pergunta que ficou e ainda não foi respondida é: por que Israel, tendo um dos serviços de inteligência mais bem equipados, organizados e competentes do mundo, permitiu que os ataques acontecessem? Uma das respostas é que eles foram organizados pela inteligência do Irã. Mesmo assim, a lógica é que fossem detectados pelos israelenses.

Na terça-feira (7), eu era um dos estavam na frente da televisão catando notícias sobre o cumprimento da promessa de Trump. “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, havia anunciado horas antes o presidente americano. Minutos antes do fim do prazo dado ao Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, ele desistiu do ataque porque houve o acordo de cessar-fogo. Trump é muito bom no uso das palavras, mas não é páreo para o primeiro-ministro de Israel, um político hábil nos assuntos internacionais. E não parece ter a habilidade dos aiatolás iranianos para usar as situações a seu favor.

PARA LER NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 75 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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