Vida: ciência, filosofia e cotidiano – por Luiz Carlos Nascimento da Rosa
Professores que, você vai perceber, influenciaram, e muito, a vida do autor

Numa tarde morna de outono, no início da década de oitenta do século XX, entre paredes inorgânicas de uma sala de aula, meu ímpar professor de Bioquímica fez uma provocação/problematização em sala: vocês imaginam que podemos carregar partículas de Alexandre o Grande dentro de nossos corpos?
Meu grande Professor sabia que tinha jogado um “balde d’água fria” sobre a cabeça, tenra e ingênua, de uma porção de voluntariosos estudantes de Química Licenciatura.
Levei muitos anos para entender que meu querido professor dominava conteúdo, forma e seu magnânimo método de sala de sula. De forma pensada o professor ficou observando o borbulhar estupefato de nossos esbugalhados olhos e nosso estado de não ter jeito diante de complexa questão?
Após um pensado átimo de tempo o grande professor foi ao quadro elucidar, para nós estudantes, o tal enigma bioquímico e psíquico.
Em alto e em bom som, meu professor tinha voz de locutor de rádio FM, ele refez a pergunta: vocês lembram de Lavoisier quando disse que na vida na se cria, nada se perde e tudo se transforma? Perplexidade total. Que tem haver as partículas de Alexandre o Grande e nós e a Lei de Lavoisier?
O Mestre foi para o quadro explicar essa Grande questão existencial.
Lembro, perfeitamente, que o professor nunca teve a menor pretensão de romper com qualquer dogma religioso. Ele foi ao quadro para nos explicar, bioquimicamente, o fenômeno da vida. Depois de muitos anos de estudos e reflexões, quero afirmar de forma muito peremptória, que foi o melhor momento e a melhor aula que vi um excelente cientista colocar nós seres humanos como parte do chamado objeto das ciências naturais.
Eu não tenho a menor ideia se meu amado Professor sabia da discussão entre Heráclito de Éfeso e Permenides. Ele conhecia o seu conteúdo e a forma de fazermos progredir na História do conhecimento.
O nosso professor resolveu muitos de nossos problemas existenciais. Com Mito religioso ou não, o meu professor aparou muitas arestas e nos disse que sempre é possível fazer a nossa travessia na vida.
Como é certo que absorvemos partículas do passado em nossos corpos pelo processo criativo da Bioquímica, não tenho nem uma crise existencial de eletrons ou substâncias de Mussolini, Hitler ou Salim no meu corpo. O meu corpo é parte do processo físico-químico e de um processo metabólico que determina a vida. Esses déspotas não dizem respeito à minha vida psíquica.
Adepto da Tese de Heráclito de Éfeso, joguei-me no Movimento Estudantil, e queria formar o mundo dos iguais. Apaixonado pela minha formação autodidata fui largando de mão minhas obrigações como aluno de Química Licenciatura e fui participar de inúmeras reuniões e Congressos. Uma Professora de Bioquímica perguntou, numa sala de aula para meus colegas: vocês sabem onde anda o Luiz Carlos?
Eu era um bom aluno e minha professora ficou preocupada. Meus colegas relataram a verdadeira dor da professora pelo meu sumiço e falaram que era para eu procurá-la. Assim, preocupado, fui. A querida e amada professora perguntou-me: menino tu é filho de rico que podes abandonar tua universidade?
Fiquei aturdido. Claro que não professora. Meus pais viviam de salário mínimo. Minha linda professora decretou: então tu estás traindo a confiança de teus pais e tu quer ser igual aos militantes que ficam anos na Universidade e não dão exemplos para ninguém? Novo balde de água fria na minha cabeça. A minha maravilhosa professora passou-me todo material dela e me deu uma semana para estudar.
Como ela sabia que trabalhava na Química Analítica me convidou para trabalhar no seu laboratório. Tirei um nove na prova, fui trabalhar com a professora Marta e nunca mais faltei uma aula. A Bioquímica é a vida do ser humano e ela, eu provei na prática, e seus professores salvam.
De forma tranquila e conhecedor do caminho, hoje, posso a usar grande Metáfora de Dante Alliguiere, se não tivesse ouvido minha professora e fizesse olhos pequenos para meu professor: hoje estaria num inferno dantesco.
Nessa tarde morna, de outono, o professor afirmou que, independentemente de sermos humanos, animais ou plantas vamos sofrer decomposição e virarmos outra coisa em forma de outras substâncias ou que seja outra forma Química. Como somos dependentes da natureza para dar continuidade de nossa vida quem pode saber onde os fragmentos de uma vida irão parar? Águas, pássaros e outras trocas poderemos absorver algo muito distante no passado.
Se a fluidez do rio foi a grande metáfora, de Heráclito de Éfeso, para explicar a fluidez da vida e da História humana, isso são decisões individuais em acatar ou não. A Bioquímica e meu professor falam a sua parte sem decretar como verdade absoluta. Eu convivi muitos anos, na UFSM, como colega do meu amado Professor e nunca tive a mínima pretensão de pedir explicações metafísicas para sua Aula Magna.
O Professor Riguel deu sua aula e pronto. Hoje sei que ele, como um grande Mestre, dominava o Conteúdo e Forma; essência e fenômeno.
(*) Luiz Carlos Nascimento da Rosa é professor aposentado do departamento de Centro de Educação da UFSM.





A filha dele fez doutorado sanduiche UFRGS e Canada. Pós-doutorado na Alemanha. Quimica.
Bioquimica? Não seria Romeo Ernesto Riegel? Aposentou-se e foi lecionar na Unisinos. Tem livros publicados. Veterinario.