“Vida Privada” e a negação da fragilidade humana – por Roselâine Casanova Corrêa
“... Temas caros à existência humana, como a dúvida, o luto e a memória”

A multifacetada atriz Jodie Foster – também diretora e produtora – brilha como sempre, no longa francês “Vida Privada” (Vie Privée/2025), como a psiquiatra estadunidense Lilian Steiner (judia), que vive e trabalha em Paris. Seu ex-marido, interpretado pelo não menos vibrante Daniel Auteuil (o médico Gabriel Haddad), lhe confere segurança e apoio em todas as suas crises.
Complementam a trama o filho de ambos, Julien Haddad (Vincent Lacoste), a paciente Paula (Virginie Efira) e seu viúvo, Simon (Mathieu Amalric). O longa é dirigido pela engajada cineasta e roteirista francesa Rebecca Zlotowski; mescla drama e suspense e está disponível no Prime.
O longa aborda temas caros à existência humana, como a dúvida, o luto e a memória. Em uma ambientação de interiores primorosa, figurino elegante, sob uma luz levemente acobreada. O efeito funciona de maneira tão intensa, que se embarca nas suposições da protagonista.
O crítico Pete Hammond não deixa dúvidas quanto à interpretação de Foster. Segundo ele, a atriz “impressiona com um francês perfeito, tão natural que quase poderia ser confundida com Isabelle Huppert. […]. Ela não erra o tom nem nas passagens mais densas, nem nas mais leves, sobretudo em cena com Auteuil”. De fato, Foster é fluente em Língua Francesa.
Ao receber a notícia do suicídio de sua paciente Paula (Efira), Lilian comparece ao seu funeral e é hostilizada pelo viúvo, Simon (Amalric). Então, dá início a atitudes pouco convencionais à área da psiquiatria. Se por um lado, tenta a todo o custo entender intelectualmente o ocorrido, negando as questões emocionais que permeiam as decisões humanas, por outro lado, recorre a métodos como a regressão e a hipnose. E cisma que a morte da paciente não foi suicídio, desconfiando do marido, a ponto de segui-lo. Ou seja, um culpa o outro.

O que Lilian demora a entender é que, sim, ela pode se emocionar, pode chorar inclusive. Enfim, pode demonstrar todas as emoções inerentes aos seus iguais. Mas ela nega suas próprias lágrimas, a ponto de consultar seu ex-marido – um oftalmologista – por entender que aquelas lágrimas são de cunho físico e não emocional. Ou seja, uma negação absoluta da própria vulnerabilidade.
Sua dificuldade em relacionar-se com o filho e o neto é outro indício de que talvez ela esteja mais necessitada de um terapeuta do que aqueles que ela trata. Em um consultório sofisticado e com janelas enormes, que sugerem maior calmaria lá fora que dentro da sala. É outono e as calçadas estão lindamente cobertas por folhas das mais diversas cores.
Em síntese, o longa propõe ser sobre o suicídio de Paula. Contudo, é muito mais sobre a vida privada da profissional que a trata. Em toda a narrativa, a protagonista sobe e desce escadarias circulares, sugerindo que está dando voltas ao redor de si, com seu casaco em um marrom pesado, que contrasta com o azul intenso do cachecol.
Aos poucos, a fachada de vida minuciosamente organizada se desfaz!

(*)Roselâine Casanova Corrêaé Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Roselâine escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.





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