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O dia em que a palavra não veio – por Marcelo Arigony

“Escrever de verdade exige mais que informação. Exige presença emocional”

Há dias em que a palavra simplesmente não aparece.

Você senta diante da tela, abre o documento e fica olhando para o cursor piscando como quem espera uma resposta que não vem.

E isso é quase um paradoxo para quem vive cercado de histórias.

Assim como acontece na polícia, a advocacia é uma dessas profissões multidisciplinares que atravessam praticamente todos os fatos da vida. Num mesmo dia, a gente conversa sobre separações, patrimônio, violência, morte, empresas, vícios, heranças, acidentes, filhos, golpes digitais, medo, vingança, afeto e ruína humana.

Poucas atividades permitem enxergar tão de perto uma multiplicidade tão grande da existência.

O telefone toca cedo. O fórum chama. A delegacia chama. E cada pessoa chega carregando um pedaço diferente do mundo.

Talvez exatamente por isso, às vezes, nenhuma dessas histórias consiga virar texto.

Não por falta de assunto. Mas por excesso de vida.

Existe um cansaço silencioso em quem passa o dia tentando organizar o caos dos outros enquanto tenta manter alguma ordem dentro de si mesmo. A mente fica cheia.

Hoje foi um desses dias.

Havia temas suficientes para dez artigos. Mas nenhum deles encontrou lugar dentro da palavra.

Porque escrever de verdade exige mais do que informação. Exige presença emocional. E há momentos em que a vida consome tanto da gente que sobra pouco até para sentir com clareza aquilo que estamos vivendo.

E talvez tenha sido exatamente isso:

o dia em que a palavra não veio ao advogado.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.

https://marcelo.arigonyadvocacia.com

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4 Comentários

  1. Resumo da opera II. Diziam antigamente que o melhor negocio do mundo, algo considerado ‘xenofobo’ por alguns hoje em dia, seria comprar argentinos pelo que valem e vender pelo que acham que valem. Imagino alguém do corpo juridico castelhano o ‘negoção’ que é.

  2. ‘Existe um cansaço silencioso em quem passa o dia tentando organizar o caos dos outros enquanto tenta manter alguma ordem dentro de si mesmo. A mente fica cheia.’ Imagine o pessoal da medicina que tem que avisar a familia, ou o proprio paciente, que o tempo é curto, que não há nada mais a ser feito ou que acabou.

  3. ‘Num mesmo dia, a gente conversa sobre separações, patrimônio, violência, morte, empresas, vícios, heranças, acidentes, filhos, golpes digitais, medo, vingança, afeto e ruína humana.’ Ou seja, o esgoto da sociedade. Ninguém aparece lá para contar como foi a formatura da prole, o nascimento dos netos ou como foi bom o churrasco no final de semana.

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