Os votos – por Orlando Fonseca

Diante da polêmica gerada pelo comentário (infeliz) de um influencer ligado ao pensamento conservador, é preciso considerar diversas coisas. Embora me pareça algo absurdo ter de discorrer sobre isso em pleno século XXI, julgo importante repassar certos conceitos. O primeiro ponto a considerar é a distinção conceitual de que o voto é cidadão, portanto, não existe voto masculino ou feminino. Não há voto branco, preto, pardo ou o que valha. Diante da urna, diante da responsabilidade de escolher um representante o voto implica cidadania. As distinções, no caso, na boa ou má intenção de esclarecer pesquisas eleitorais ou campanhas, acabam por confundir. Mais ainda quando supremacistas brancos, extrema-direita e o novo liberalismo querem fazer crer que o voto universal é que está arruinando as democracias, e propõem, inclusive, um tal de “voto familiar”.
A democracia é um conceito que evolui desde a antiguidade grega, alguns séculos antes de Cristo. Já na democracia moderna, um dos valores basilares é o de um cidadão – um voto. O exercício de um “governo representativo” passa, desde então, a ser visto como o ideal numa “república”. No século XVIII, na passagem dos governos monarquistas para republicanos, na formação dos Estados-Nações, Alexis de Tocqueville, ao analisar o regime democrático dos EUA, emergindo de sua luta pela independência, consagra a república como “forma autêntica da democracia dos modernos contraposta à democracia dos antigos”. O ideal democrático: voto universal, exercido por todos os cidadãos.
Não era assim na antiguidade grega, pois nem todo mundo era considerado cidadão. Vivia-se ainda no regime escravista, e apenas homens adultos, livres e nascidos na cidade-estado poderiam votar; mulheres, estrangeiros e escravizados eram totalmente excluídos da vida política. Não era assim ao longo dos anos pós-Revolução Francesa, cultural e industrial – pois ainda persistia a herança paternalista. A mulher era considerada sem condições de exercer livremente o seu direito, sem a tutela do pai ou do marido. No Brasil imperial e já no início da República, votavam apenas homens livres, maiores de 25 anos (ou de 21, se casados), com renda comprovada; as mulheres só conseguiram votar a partir de 1932, e de modo pleno, independente da tutela masculina, em 1945.
A conquista do voto universal, portanto, foi depois de muita luta. No caso do voto das mulheres, a chamada “Campanha das sufragistas”, mesmo nos países mais desenvolvidos, atravessou o final do século XIX, numa renhida disputa por lugar na sociedade. Isso para reiterar que a manifestação de Paulo Figueiredo, o tal influencer, ligado ao “ideário” bolsonarista, semana passada, é extemporânea e arcaica. Em um trecho do vídeo, diz que “mulher vota estatisticamente muito mal” e afirma que mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido, após declarar que mulheres solteiras tendem ao mau comportamento eleitoral. No entanto, o discurso de Figueiredo (foragido e instalado em meio à direita conservadora americana) não é apenas uma expressão individual machista. Encaixa-se no contexto político do atual governo Trump, no qual os correligionários e pastores fundamentalistas defendem a supressão da 19ª emenda da Constituição Americana, a qual garantiu o voto às mulheres. A justificativa é resgatada do discurso de um senador, feito em 1887, afirmando que mulheres não deveriam participar do processo político, porque elas “são essencialmente emocionais”. No Brasil, o partido Missão, do MBL, defende uma tal de “democracia familiar” e fim do voto universal em cartilha ideológica. O que no fundo dá uma camuflagem ao conservadorismo da proposta, que inclui ainda uma “renda mínima” aos mais pobres, com a condição de renunciarem ao voto.
Em meio à briga pública entre Flávio (candidato à presidência) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a qual se disse desrespeitada pelo enteado, pela afirmação de que ela não “entendia nada de política”, essa postagem do aliado, Paulo Figueiredo, (com um trecho impublicável em um portal sério) põe mais lenha em uma fogueira de vaidades e retrocessos políticos. A minha estupefação é com o fato de que há mulheres que apoiam tal aberração. Umas por não darem o devido peso ao declarado, outras por ideologia, estendendo o sentido bíblico da “sujeição da mulher” ao ato cidadão do voto. Não são os votos matrimoniais que garantem a essência da cidadania. Uma platitude, que precisa ser reiterada (para meu desgosto), em pleno século XXI, repito.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





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