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O vai-e-vem de Fux e a democracia de Przeworski – por Giorgio Forgiarini

“Não entendo o motivo de tamanha estupefação com o voto e Luiz Fux”

De verdade. Não entendo o motivo de tamanha estupefação com o voto de Luiz Fux. Já escrevi e fiz publicar aqui neste site artigo intitulado “In Fux we don’t trust”, em que mencionei justamente algumas peculiaridades de sua atuação como magistrado.

Fux tem fama de punitivista. Dos ministros do Supremo, é o que tem o menor percentual de habeas corpus concedido e o que costuma aplicar as penas mais severas em julgamentos criminais. Nos casos do 08 de janeiro, vinha acompanhando todos os demais ministros no julgamento na condenação e na aplicação das penas.

Das 67 decisões que deu, em 65 concordou com a competência do STF para os julgamentos e com a condenação dos réus por golpe de Estado e abolição violenta do Estado de Direito. Até chegar o caso de Débora Santos, a moça do batom na estátua. Ali Fux deu seu giro de 180°. Desde então, para ele, o STF é incompetente para julgar a trama golpista, aliás, segundo Fux, que trama golpista? Para ele, desde então, não há trama alguma, não há golpe de Estado, não há abolição violenta do Estado de Direito, o que há é “liberdade de expressão” ou, quem sabe, “alguns desvios de finalidade aqui ou acolá”.

Desde então, diversos foram os sinais de que a virada de perspectiva se consolidaria. Elio Gaspari, possivelmente na condição de garoto de recados, já vinha aventando a possibilidade de Fux pedir vistas do processo, o que adiaria o julgamento do processo e o levaria a período eleitoral. Algo perigosíssimo, sem dúvida.

O pedido de vistas não veio, mas a divergência sim. A divergência, por si só, não é problemática. A existência de órgãos colegiados só tem sentido quando possível a discordância entre seus membros, obedecida a maioria sempre. No caso, no entanto, causa incômodo, mas não estupefação, o fato de que Fux foi extremamente incoerente com seu histórico e desleal com seus colegas.

Incoerente porque, como já mencionei, Fux desdisse tudo o que havia dito num passado muito recente, sem que tenha havido qualquer ato, fato, evento ou circunstância relevante capaz de levar a essa modificação de perspectiva, pelo menos não que ele tivesse citado em seu voto. Desleal, porque ele agora se esmera para destruir algo que ele ajudou a construir. Fux endossou a tese da existência de golpe de Estado, a competência do STF para julgá-lo e agora, fingindo que de nada tinha a ver com o merengue, passou a dizer o contrário.

Mais do que isso. Fux, em inúmeros momentos de seu voto, fez ilações importantes contra as instituições brasileiras, reputando-as como autoritárias e corruptas, instituições essas em que ele está inserido e seus colegas que, repito, junto com ele, formularam aqueles entendimentos todos, também estão. Essa deslealdade tende a ser ainda mais cara quando nos lembramos de que alguns dos Ministros do STF estão sob ameaça de coação por Estado estrangeiro.

Por fim, surpreende, mas não ao ponto da estupefação, que Luiz Fux tenha sido tão abstrato e gongórico em seu voto, principalmente quanto ao mérito dos crimes imputados a Jair e seus amigos. Citou Adam Przeworski, cientista político que já conceituou a atuação de Bolsonaro como “divisora e perigosa”. Citou Luigi Ferrajoli, jurista que já fez elogios públicos à atuação do STF no caso e citou até um julgamento do STF de um caso de… rinha de galo.

Surpreende porque Luiz Fux é, sim, genial em seus votos e aqui, infelizmente, não pudemos ver sua genialidade. Porém, não estupefaz. Já tínhamos motivos suficientes para suspeitar que isso aconteceria.

Por fim, e pra não me alongar. Adam Przeworski, tinha um conceito interessante sobre democracia.“É um sistema no qual ocupantes do governo perdem eleições e vão embora quando perdem”. Qualquer coisa fora disso, senhores, é golpe. Luiz Fux deveria saber disso.

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

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19 Comentários

  1. Resumo da opera V. Problema do pais continuam. Gastança desenfreada. Uma hora a conta chega, não tem magica. Semana que vem o bafafá já é outro. E de-lhe cortina de fumaça. Politica estéril, resolve nada. Uma hora a conta chega.

  2. Resumo da opera IV. Outro incomodo com Fux. Uma asneira, iriam dizer que ‘foi condenado por unanimidade’ e o ‘tribunal institucionalmente está com a questão fechada’. Marketagem. Não mudaria nada. Credibilidade já não era la estas coisas, com a liquidação da Lava a Jato só piorou. Causidicos podem falar o mimimi que quiserem, dar carteiraço, tirar as calcinhas e pisar em cima, não importa.

  3. Resumo da opera III. Incomodo com Fux, que deve ter sido muito pressionado, é porque o voto atacou as vinculações entre os fatos. Pouca ou nenhuma prova. Fica parecendo que o que foi julgado é uma teoria da conspiração. Até Xandão tropeçou nas palavras largou no pequeno pedaço que assisti um ‘se este plano tivesse dado certo’ ou algo do genero. Atos preparatorios não eram punidos antigamente. Por que Cid e Bragga Netto foram condenados por Fux? Porque andou circulando grana e andaram fazendo campana de autoridades. Mas não havia provas de que o Cavalão sabia destes fatos.

  4. Resumo da opera II. Se o julgamente fosse no plenario iria demorar mais. Mas o placar teria grande probabilidade de ser 8 a 3.

  5. Resumo da opera. Chinelagem polarizadora. Quem esta de um lado fala mal de Fux. Quem esta do outro fala bem. De acordo com a opinião de cada um é escolhido o local do escaninho. Não passa de ruido, o julgamento mudou absolutamente nada.

  6. ‘.“É um sistema no qual ocupantes do governo perdem eleições e vão embora quando perdem”. Cavalão embarcou dia 30 de dezembro de 2022 para a Ianquelandia.

  7. ‘Surpreende porque Luiz Fux é, sim, genial em seus votos e aqui, infelizmente, não pudemos ver sua genialidade.’ Problema possivelmente de quem vê.

  8. Como assim ‘citou’ fulano e beltrano? Até onde sei cita quem quiser, o voto é dele. Os outros que passem maionese e engulam. Ser ‘divisor e perigoso’ não é crime, além disto é juizo de valor e não juridico. Ferrajoli é cria de Bobbio, muito esquerda. Teorias dele foram muito lembradas na Lava a Jato e os mesmos que lá falavam em ‘garantismo’ agora querem ‘garantias de que vão se ferrar’. Nenhum espanto, falar qualquer coisa casuisticamente. Como Ferrajoli, e Efeagá, ‘esqueçam o que escrevi’. Alas, nas entrelinhas do julgamento está a ‘teoria do dominio do fato’. Cid é um ‘coitado’. Lembrando que Gregorio Fortunato entrou peão no Catete e quando foi preso era fazendeiro.

  9. Maioria não presta atenção. Empresa BYD ‘emprestou’ carros de luxo para uso de ministros do STJ. Legal? Sim, porem a empresa tem processos correndo no tribunal. Legalmente o TST andou renovando a frota, comprou carros a 350 mil (arredondando). Afinal, otoridades ‘não podem andar de fuca’. Não adianta só lagosta e vinhos finos. Alas, legalmente ministro do STJ devolveu carros e joias de desembargadores do Maranhão envolvidos na Operação 18 minutos.

  10. ‘Fux, em inúmeros momentos de seu voto, fez ilações importantes contra as instituições brasileiras, reputando-as como autoritárias e corruptas, instituições essas em que ele está inserido e seus colegas […]’. Ilações? Não existe novidade no assunto. Eliana Calmon em 2011, então corregedora nacional de justiça, afirmou que ‘bandidos de toga’ estavam infiltrados no judiciario. Afirmou posteriormente que a Lava a Jato deveria chegar no judiciario. Sequencia de fatos ainda esta na memoria, ‘o amigo do amigo de meu pai’ que rendeu reportagem até no New York Times.

  11. ‘Fux endossou a tese da existência de golpe de Estado, a competência do STF para julgá-lo e agora, […]’. Onde? Complicado, Fux, se não me engano, é o unico magistrado de carreira do tribunal. Foi promotor, juiz de direito, desembargador no RJ, ministro do STJ e depois ministro do STF. Tende a respeitar a LOMAN ao contrario de muitos outros.

  12. ‘Fux foi extremamente incoerente com seu histórico e desleal com seus colegas.’ Alas, havia uma combinação de votos?

  13. Vermelhos entrando em contradição é de lei. ‘No caso,[…] causa incômodo, mas não estupefação, o fato de que Fux foi extremamente incoerente com seu histórico e desleal com seus colegas’. ‘[…] só tem sentido quando possível a discordância entre seus membros,[…]’. Alas, num colegiado não há que ter ‘lealdade’ de voto com colegas. Não é um ‘senadinho’ sem votos. Cada um vota como bem lhe entende.

  14. ‘Elio Gaspari […] já vinha aventando a possibilidade […]’. Padrão dos jornalistas, um chute baseado em boatos vira ‘noticia’. Coisa fina, não dá trabalho, chama atenção e preenche espaço.

  15. ‘Desde então, para ele, o STF é incompetente para julgar a trama golpista, aliás, segundo Fux, que trama golpista?’ Vamos combinar que o tribunal já foi e voltou inúmeras vezes no assunto do ‘foro privilegiado’. Alas, passa um carro em alta velocidade na Helvio Basso as 10 horas da manha. As 10:30 passa outro mais rapido ainda. Alem da multa dos dois carros um juiz condena ambos os motoristas pelo crime de racha (‘Participar, na direção de veículo automotor, em via pública, de corrida, disputa ou competição automobilística […]’) sem existir vinculo entre os dois nos autos.

  16. ‘Já escrevi e fiz publicar aqui neste site artigo intitulado “In Fux we don’t trust”, em que mencionei justamente algumas peculiaridades de sua atuação como magistrado.’ Vermelhos fizeram muito barulho quando da nomeação do ‘herói’ deles, Xandão. Foi de ‘autor de manual’ para baixo. Nenhum espanto, falam qualquer coisa sobre qualquer assunto casuisticamente. E nem podem dizer que não, está gravado.

  17. ‘Fux tem fama de punitivista. Dos ministros do Supremo, é o que tem o menor percentual de habeas corpus concedido e o que costuma aplicar as penas mais severas em julgamentos criminais.’ Jornal ‘O Globo’. 6 de novembro de 2024. ‘Ministros do STF aumentam rigor e concedem 4 de cada 100 habeas corpus julgados’. Alas, se um bom advogado for questionado vai dizer que a estatistica é capenga, cada caso é um caso. A distribuição não leva em conta a gravidade dos fatos. Alas, existem empresas que publicam perfis de ministros e desembargadores, um dossie sobre as criaturas. E se é publicado é consumido. Os famigerados ‘anuarios da justiça’.

  18. O voto ainda estava sendo lido e a imprensa ‘cumpanhera’ já começou a desancar Fux. Rede BullShit largou pérolas, ‘é um ministro vaidoso’, como se os outros fossem poços de humildade. Publicaram fotos dele com o Cavalão mesmo existindo fotos semelhantes de Xandão e Bolsonaro.

  19. Realmente o que menos importa são os acontecimentos nesta ‘historia’. Mais importante é ver qual a reação dos que se manifestam.

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