Histórias escritas com giz…. “sem perder a ternura” – por Roselâine Casanova Corrêa
Obra de Vitor Biasoli é “uma leitura necessária aos estudantes de licenciatura”

Já havia afirmado que “Paisagem Marinha” (2021) é o livro de poemas mais bonito do escritor Vitor Biasoli. Arrisco a dizer que “Histórias escritas com giz: memórias de um professor”, publicado pela Memorabilia & Tours na Feira do Livro de SM/2025, é seu melhor livro de crônicas. Se a escrita emociona, a diagramação encanta.
Biasoli revisita sua atuação no Magistério Estadual, entre 1978 e 1991, em escolas nas cidades de Canoas, Alvorada, Porto Alegre. Vai além: escancara sem pudores as dificuldades e encantos da escola pública. Mas pega mesmo o leitor na reflexão sem piedade de sua própria atuação como professor.
Oriundo da classe média pelotense (chega em Porto Alegre em 1967 e em Santa Maria em 1991), confronta-se com a precariedade das escolas, mas, principalmente, com a fragilidade da vida de seus alunos. Membro do Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP), pertenceu à juventude católica.
Leitor de Althusser, Marx e Paulo Freire, repudia Skinner, o que é compreensível. Ousa explicar a luta de classes aos estudantes que tinham todo o tipo de limitação financeira – de moradia à alimentação – e percebe que precisa alterar o discurso para o qual havia se preparado durante a graduação em História na UFRGS (anos de 1970).

E é nessa alteração do percurso discursivo que o livro pega o leitor. Revê sobretudo Paulo Freire e para além disso, assume sua própria precarização financeira, nomeando-se um proletário da educação pública. Não só revê as teorias que gostaria de utilizar com seus alunos e que havia aprendido em suas aulas na universidade. Revê seu posicionamento diante de estudantes pouco interessados na luta de classes, na Revolução Francesa ou na Primeira República. Passa a entender que precisa entrar naquele mundo que desconhece, a partir dos relatos dos estudantes e, a partir daí, talvez, fazer a diferença na vida daqueles jovens.
Aí que as crônicas instigam: pela beleza e pela dor de uma realidade que não é exatamente a que pensava para sua profissão. À medida que se insere no mundo escolar, as certezas se esfarelam, os sonhos viram utopias, as teorias escorregam e se dissolvem no chão da sala de aula.
O autor revê sua própria atuação como professor de forma visceral, como se rasgasse a carne daquele jovem idealista e engajado que fora, comprometido com as pautas progressistas do final da ditadura civil-militar, mas ainda vivendo a Guerra Fria.
Vive tantas greves da categoria, quanto lhe é possível, sente-se traído pelo Governo Estadual em uma delas (ou mais de uma) e decide que precisa tomar outro rumo. Então chega ao ensino universitário (UFSM) e passa a formar outros professores também idealistas, mas talvez mais realistas do que fora. Ele próprio define-se com “febres de entusiasmo” no início da carreira. De fato, esse entusiasmo ainda lhe acompanha.
Trata-se de um livro que não permite ao leitor a indiferença ou guardá-lo em uma estante organizada. Ao contrário, as 32 crônicas colocam o leitor frente a dura realidade escolar, esmiuçando as relações entre professor/estudante/escola. E essa realidade nem sempre é bonita como nos ensinam em cursos de licenciatura. Ele nos atravessa como um punhal. Não, o livro não é de amargura, tampouco pessimista. Ao contrário, retrata a capacidade de se reinventar, se adequar, “sem perder a ternura”. E sim, trata-se de uma leitura necessária aos estudantes de licenciatura.
(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História pela UFN, com especialização em História do Brasil (UFSM) e Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC-RS). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do ““Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.





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