Habermas, guardião da racionalidade, nos deixou – por Amarildo Luiz Trevisan
“Foi uma dessas raras figuras que alcançaram a imortalidade ainda em vida”

Jürgen Habermas, o último titã da filosofia contemporânea e guardião da racionalidade pública, partiu na semana passada. Ele foi uma dessas raras figuras que alcançaram a imortalidade ainda em vida. A eternidade de Habermas não se explica apenas pelo simbolismo da data de sua partida, partilhada com Karl Marx. Também não se limita aos seus 96 anos de vida. O que o torna eterno é a solidez de seu pensamento, bússola essencial para preservar o diálogo, a crítica e a razão na travessia da modernidade.
Nascido sob a sombra do nazismo e marcado pela devastação moral da Segunda Guerra Mundial, Habermas recusou o niilismo fácil. Não fez da catástrofe um abrigo para o desespero. Fez dela uma pergunta. E, mais do que isso, uma tarefa. Enquanto outros viram no horror apenas o fim da razão, ele buscou compreender o que a barbárie tinha a nos ensinar.
De suas reflexões, destiladas em dezenas de livros e centenas de intervenções públicas, emergiu uma teoria que revolucionou o pensamento social: a Teoria do Agir Comunicativo. No fundo, sua obra foi um hino à comunicação não violenta, uma aposta ética na capacidade humana de gerar consenso através da palavra, e não da força.
Sua trajetória foi, em essência, a modernidade pensando a si própria diante do espelho.
Numa era em que a opinião crua foi elevada à categoria de verdade absoluta, Habermas insistiu na opinião raciocinada. Num tempo em que o algoritmo e a máquina ameaçam sequestrar a agência humana, ele reafirmou o ator social como o coração pulsante do processo histórico. Enquanto o espaço público é gradualmente asfixiado pela lógica dos influencers e a cacofonia das redes sociais, ele diagnosticou, com precisão cirúrgica, os danos de uma esfera pública convertida em câmaras de eco narcísicas. Quando a esfera pública começou a se fragmentar em vitrines de vaidades, tribos digitais e vídeos recortados, ele percebeu, antes de muitos, que a comunicação podia degradar-se justamente onde parecia expandir-se. Não bastava falar mais, era preciso aprender novamente a ouvir, justificar, responder, reconhecer o outro.
Habermas foi o filósofo do equilíbrio difícil. Numa época em que se sacralizou a diferença, o dissenso e a fragmentação, ele nos lembrou que a própria sobrevivência da pluralidade depende de um solo comum. A diferença não floresce no vazio. Precisamos aceitar, minimamente, que compartilhamos uma linguagem e um destino, e uma disposição para sair de si e considerar a perspectiva alheia.
Sua defesa do entendimento nunca foi ingenuidade conciliatória. Foi, ao contrário, uma das formas mais exigentes de justiça. Nisso reside parte de sua estatura moral, pensar nunca foi para ele um luxo acadêmico, mas uma forma de vigília. Ele não ignorou as emoções ou a biopolítica, mas denunciou o reducionismo de um mundo que esqueceu a razão em prol do impulso.
Mais do que um sistema filosófico, ele apresentou uma defesa obstinada da palavra contra a violência, do entendimento contra a imposição, da razão partilhada contra a força bruta. Em um mundo acostumado a celebrar o poder, a velocidade e o espetáculo, Habermas lembrou algo essencial: a verdadeira força da vida pública não reside nas armas, nem no grito, nem na manipulação, mas na capacidade de apresentar e reconhecer o melhor argumento.
Em meio ao ressurgimento de barbáries primitivas e ao culto das armas, Habermas pautou sua teoria no estágio mais elevado da nossa evolução: a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Ele demonstrou que, sem competência comunicativa, continuaremos a investir bilhões na destruição mútua, por pura incapacidade de entender que a verdadeira autoridade não emana do cano de um fuzil ou da pontaria de um míssil, mas da força da argumentação e do convencimento.
Num tempo em que se endeusaram competências instrumentais e habilidades produtivas, ele mostrou que sem aptidão para o diálogo o progresso material pode coexistir com a regressão moral. Podemos fabricar aparatos cada vez mais sofisticados e, ainda assim, permanecer primitivos na arte de conviver. É por isso que sua filosofia continua tão atual, porque ela não trata apenas do que pensamos, mas do modo como nos tornamos humanos uns diante dos outros.
Em uma época em que se perde, a cada dia, a paciência com a escuta, com a mediação e com a verdade compartilhada, ele continua a lembrar que não há futuro digno sem diálogo, nem paz duradoura sem justiça, nem democracia viva sem cidadãos capazes de argumentar e de entender o ponto de vista do outro.
Como bem sugeriu o testemunho de Leo Löwenthal, o realismo de Habermas é, talvez, o único caminho para recuperar os impulsos vitais da Teoria Crítica sem cair no pessimismo paralisante. Ele se vai, mas deixa um legado de paz fundamentado na ética. Jürgen Habermas não foi apenas um observador do seu tempo; ele foi o arquiteto de uma esperança racional, lembrando-nos de que, enquanto houver palavra, haverá a possibilidade de um mundo melhor. Seu pensamento permanece como um clarão severo e necessário, daqueles que não eliminam a noite, mas impedem que ela se torne absoluta.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Habermas era da Escola de Frankfurt. Muita gente jogou a vida fora nesta bobagem de neomarxismo, marxismo reciclado. A realidade sempre se impõe. Nesta hora algum imbecil vai querer discutir ‘filosoficamente’ o que é ‘realidade’.
‘Ele foi uma dessas raras figuras que alcançaram a imortalidade ainda em vida.’ É só sair no ‘Calçadão’ de qualquer cidade do pais para verificar que era extremamente conhecido.