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Riso febril – por Bianca Zasso

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Por mais que a comédia seja um gênero muito mais leve que o drama, a maioria dos atores assume que é muito mais complexo fazer rir do que fazer chorar. Lágrimas costumam soar muito mais naturais do que gargalhadas na tela grande. Só que esta regra foi descumprida por um dos criadores mais criativos e inovadores do cinema, responsável por um filme onde os personagens riem de verdade e contagiam o público. No entanto, não é nada divertido em Faces.

Em 1968, o americano de origem grega John Cassavetes adaptou para o cinema uma de suas peças de teatro. O trama mostra a desintegração de um casamento entre um empresário e uma dona de casa de classe média. Poderia ser um drama, um pastelão ou apenas uma comédia romântica sobre um relacionamento que encontra o seu fim. Mas é um filme de John Cassavetes e isso significa que nada será como de costume.

O que vemos em Faces é uma série de situações que mais parecem esquetes teatrais onde os atores improvisam motivados pela deixa de seus colegas de palco. A primeira impressão é de que nada acontece e a história não se move em direção a lugar algum. Os ventos que empurram o roteiro de Cassavetes não têm direção certa, assim como nos nossos dias nada cinematográficos. E é nesse detalhe que mora a magia do cinema do diretor.

Faces consegue perturbar usando apenas o cotidiano. A busca por respostas, a aventura de se envolver com um desconhecido ou mesmo um encontro entre amantes torna-se um caminho tão real que nos constrange. Estamos diante de pessoas como nós, com dúvidas demais e respostas de menos e que buscam pelo riso frenético ou pelas lágrimas suaves encontrar o seu lugar neste planeta. No meio do aparente tédio da vida de quem mora em casas grandes e confortáveis e relaxa bebendo uísque, notamos um movimento incessante. O lado de dentro das pessoas está ocupado, perdido.

Numa das melhores cenas de Faces, os personagens dos atores Gena Rowlands e John Marley caem na gargalhada. Uma gargalhada tão real que somos tomados pela desconfiança: está no script ou eles estão realmente achando graça? Esse toque de realidade nos permite desconfiar que por trás daquela barulheira alegre esconde-se uma tristeza imensa. É nervoso, é intenso, é inexplicável. É Cassavetes, enfim.

Faces foi a segunda produção independente do diretor, que tinha um processo de criação e edição bastante artesanal, com a moviola instalada na garagem de sua casa e usando dinheiro do próprio bolso para bancar seus trabalhos. Indicado a três ‘Oscar’, incluindo roteiro original, Faces é um dos filmes que melhor simbolizam a geração confusa que chegava a meia idade no final dos anos 60. E o motivo que o faz imortal é que, mesmo que os tempos sejam outros, ainda somos tocados pelas questões abordadas por Cassavetes. E vai continuar assim por muito tempo. Enquanto houver faces que se miram no espelho e não se reconhecem.

Faces

Ano: 1968

Direção: John Cassavetes

Disponível em DVD

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