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2020/2021: dois anos a serem esquecidos pela educação – por Saigon Quevedo

A partir de três casos, uma análise importante sobre pandemia x educação

É fato que pandemias nos pegam de surpresa e causam estragos nas mais diversas áreas da atuação humana. Vão-se vidas, empregos, empresas e esperanças. Assim como já vencemos a febre amarela, a gripe espanhola e a varíola, vamos vencer mais essa, a pandemia causada pelo SARS-CoV2, embora essa vitória venha atrelada às mais de 620 mil mortes de brasileiros.

Dito isso, como professor, tenho buscado perceber como se deu o processo de ensino (se é que posso usar o verbo no passado), nesses dois anos em que as aulas foram remotas. Do quadro-negro para o Google Meet, o Google Classroom, o Moodle foi uma aventura quase que solitária.

Assim, passei a analisar as vivências na educação que tenho bem próximas e, infelizmente, não encontrei motivos para comemorar o que se passou nesta área, onde atuo há quase 30 anos. Para formar minha opinião sobre esse período, uso 3 exemplos que me são bem familiares. Vamos a eles.

Tenho um afilhado que estuda em uma escola estadual e entrou na primeira série com 7 anos em 2020. Está indo para a terceira série e ainda não está alfabetizado, mesmo com toda dedicação dos professores em enviar materiais bem elaborados e criativos para serem impressos, a falta do ambiente escolar e sua rotina, de um monitor e de colegas que o incentivem foram fatores determinantes para chegar aos quase 10 anos sem saber ler e escrever.

Nesta idade, é muito fácil as crianças se distraírem, preferirem ver desenhos, andar de bicicleta, brincar com seus bonecos e bonecas a ficar sentada em frente a um celular que, aliás, é bom para um “joguinho”.

Outrossim, agora me coloco como protagonista, já que trabalho com alunos de ensino médio. Após as normativas do local onde leciono, ficou determinado que não fizéssemos chamada, que não obrigássemos os alunos a ligar as câmeras e que maneirássemos no número de avaliações e trabalhos a fim de não sobrecarregar os alunos, além de outros dispositivos que visavam à aprovação de todos, mesmo daqueles que não assistiram a uma única aula remota durante o ano.

Desse modo, era comum que acabasse a aula, o professor se despedisse e, mesmo assim, muitos alunos continuassem conectados, pois deveriam ter deixado o equipamento ligado, enquanto desenvolviam outras atividades. Também, com as ferramentas disponíveis, praticamente era impossível evitar a “troca” de informações em dia de prova, por exemplo.

Em relação ao ensino superior, tenho uma filha se formando em uma graduação. Mesmo que o curso tenha um bom número de matérias onde se exige a prática (afinal lida com a vida e a saúde de animais), recém estão voltando as aulas presenciais e matérias que deveriam ser dadas em um semestre, para cumprir o calendário, serão dadas em apenas duas semanas.

Isso sem contar com a falta de rotina de se frequentar o hospital veterinário nos últimos semestres do curso. Não precisamos ser muito astutos para perceber que esses profissionais encontrarão dificuldades na hora de uma cirurgia mais complexa ou de uma simples castração, por exemplo.

É óbvio que cada decisão teve uma equipe que discutiu arduamente as novas situações que iam se apresentando. É óbvio que as gestões procuraram dar o melhor de si e também trabalharam exaustivamente. É óbvio que muitos especialistas foram consultados, mas nem isso garantiu uma educação de qualidade neste período nefasto.

Alunos em casa, muitas vezes desmotivados, alguns inclusive com comprometimento da saúde mental, alunos sem uma internet compatível para uma aula remota de qualidade, alunos com dificuldade de alimentação diária devido aos pais terem perdido o emprego, alunos sem um ambiente de estudo, muitas vezes tendo que dividir a sala com irmãos e familiares para acompanhar uma aula remota…

Tenho consciência que todas as medidas propostas foram pensadas levando em consideração o que acabei de expor. Entretanto, não posso negar que ficarão lacunas. E muitas. Se a educação no Brasil nunca alcançou níveis educacionais que possam ser comparados a países desenvolvidos, desta vez o golpe foi mais forte. Se o investimento em educação já vinha caindo há anos, a pandemia só veio ajudar a deixar nosso sistema educacional mais comprometido ainda, lutando por uma vaga na UTI, caso desocupe um leito e os equipamentos sejam os adequados. 

(*) Saigon Quevedo é Doutor e Mestre em Linguística e especialista em Língua Portuguesa e em Semiótica da Cultura. É professor titular da UFSM, onde atua no Colégio Técnico Industrial de Santa Maria.

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