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A moralidade do uso da inteligência artificial – por Elen Biguelini

“Deve ser de forma consciente. Precisamos saber como e para que usá-la”

Durante o mês passado o Papa lançou sua primeira encíclica papal. Nesta, ele foi extremamente duro com as inteligências artificiais. Antes dele, artistas plásticos, designers e escritores já se posicionavam contra alguns usos desta ferramenta. Recentemente instituições nacionais como a ABNT e internacionais como o Rotary International lançaram notas sobre como utilizar estes instrumentos.

Mas por quê? Seria conservadorismo? Medo de mudança?

Na verdade, a justificativa para estas reações é muito mais complexa.

Notícias sobre o uso excessivo de água nos chamados “data centers” permeiam parte da discussão. São construções enormes que utilizam quantidades gigantes de água potável. Gastam assim a água de cidades inteiras, comprometendo o consumo humano local.

E é justamente por isso que artistas e criadores se opõem ao uso destas ferramentas. Porque se este consumo desenfreado fosse usado apenas para melhorar a vida dos seres humanos, não haveria problema. Mas é usado para plagiar imagens e textos de criadores humanos. Não é uma forma de permitir a quem não sabe desenhar de desenhar, porque utiliza do desenho de pessoas que não permitiram o uso de suas criações como base para o que é essencialmente plágio.

A IA não cria, copia o que já existe. Artistas e escritores têm batido nessa tecla, e logo logo os processos podem começar a surgir. Mas quem irá sofrer com eles não serão as poderosas empresas criadoras dos programas, serão os usuários que pediram um texto pronto e saíram com um texto plagiado que serão reprovados em seus cursos; será aquela pessoa que pediu uma foto imitando uma produção patenteada que sofrerá processos; será a pessoa que colocou uma foto pessoal sua em um aplicativo aberto que terá sua imagem utilizada como revenge porn por outro usuário em algum lugar do mundo.

O uso indiscriminado também pode ter custo monetário alto. Recentemente diversas empresas têm reduzido ou limitado o uso da IA, pois os custos começaram a aparecer e foram assustadoramente altos. Segundo reportagem da revista Forbes, a Uber gastou todo o orçamento anual de tokens (necessário para o uso da IA) em abril.

Mas a questão da moralidade no uso das inteligências artificiais perpassa também seu usuário. Como podemos garantir seu bom uso se já houver provas de que há aqueles que a usam mal?

Não defendemos que elas não podem ser usadas, mas que seu uso deve ser feito de forma consciente. Precisamos saber como usá-la e para que usá-la.

Referências

Sobre o alto consumo de água de data centers. Jornal da Unesp. Acesso via: https://share.google/R5SvrVldwMR0zGBbk e Artigo do Environmental and Energy Study Institute. Acesso via:  https://share.google/ofaBO4Nz6vGFR3fyY

Reportagem sobre o alto uso de tokens  na revista Forbes. Acesso via: https://share.google/papy4awjSy5oZ5RXN

(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos no Site.

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10 Comentários

  1. Resumo da opera. Independentemente da ‘moralidade’ de alguns, IA é uma realidade e a tendencia é expandir. Quem não gostar que vá reclamar com o Papa. Alas, quem morreu e deixou o poder de dizer o que é moral e o que não é para os Vermelhos?

  2. ‘Não defendemos que elas não podem ser usadas, mas que seu uso deve ser feito de forma consciente.’ Pode defender o que quiser, nada se altera. O mundo não precisa de autorização dos Vermelhos para funcionar.

  3. ‘Como podemos garantir seu bom uso se já houver provas de que há aqueles que a usam mal?’ Uma faca pode ser usada para cortar um churrasco no prato ou para matar alguém. Um carro pode ser usado para transporte ou para atropelar alguém.

  4. ‘O uso indiscriminado também pode ter custo monetário alto.’ Pela tendencia atual IA deve virar commodity. Serviço igual internet, agua, energia.

  5. ‘[…] será a pessoa que colocou uma foto pessoal sua em um aplicativo aberto que terá sua imagem utilizada como revenge porn por outro usuário em algum lugar do mundo.’ Para isto existe o direito penal e o civil.

  6. ‘[…] será aquela pessoa que pediu uma foto imitando uma produção patenteada que sofrerá processos;[…]’. Não é impossivel pensar numa IA que verifique se a foto é ‘patenteada’. Na verdade fotos tem direitos autorais, patente é para coisas mais praticas.

  7. ‘[…] saíram com um texto plagiado que serão reprovados em seus cursos;[…]’. Para quê curso se existe a IA? Alas, se o ‘plagio’ for detectado, sempre tem um jeitinho.

  8. ‘[…] porque utiliza do desenho de pessoas que não permitiram o uso de suas criações como base para o que é essencialmente plágio.’ Se uma inteligencia artificial é treinada com desenhos de Picasso, Miró, Da Vinci, Van Gogh e na resposta de um promt recombina as obras destes autores vai estar ‘plagiando’ algum(a) mané que expõe num ‘museu de arte’ nos cafundós do RS? Truquezinho, generalizar porque ‘todo mundo é igual’.

  9. ‘E é justamente por isso que artistas e criadores se opõem ao uso destas ferramentas.’ Motivo principal é que ficaram irrelevantes. Todos abaixo da linha da mediocridade terão que procurar outra coisa para fazer. Inclui o pessoal de humanas nas universidades.

  10. ‘ São construções enormes que utilizam quantidades gigantes de água potável. Gastam assim a água de cidades inteiras, comprometendo o consumo humano local.’ Para não chamar de mentira vamos chamar de desinformação. Agua de refrigeração geralmente não é um tipo só. Geralmente é mais de um circuito (existem os de circuito fechado). Num dos circuitos, o dos chips, circula agua desmineralizada, deionizada e geralmente misturada com etileno-glicol. Troca calor com outro circuito onde circula agua comum. Onde a perda é só devido a evaporação. Militantes usam a instituição da Academia para objetivos politicos proprios.

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