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Belezas pouco vistas e risco futuro para o ambiente – por Carlos Dominguez

O Parque Estadual do Turvo, no município de Derrubadas, poderia ser a maior atração turística gaúcha ou um exemplo de preservação ecológica no Brasil. Não é nenhum dos dois.

Às 8h34min de sábado, o centro da cidade de Derrubadas está deserto. O céu é uma ameaçadora cortina de trovejantes nuvens cor de chumbo. A iluminação pública de tom amarelado está acesa, iluminando a noite fora de hora. Chove torrencialmente.

Ao lado da praça de canteiros bem cuidados está o prédio do centro municipal de turismo, bela estrutura com convidativas varandas e bancos verdes de metal. O local está fechado. Para um eventual turista que esteja se arriscando pelo Norte do Rio Grande do Sul, nenhuma informação. Alheias a tudo, um bando de vacas de leite pasta tranqüilamente na chuva, no terreno em frente ao centro turístico.

No único posto de gasolina da cidade, Claudiomiro de Moura, 33 anos, estaciona seu carro de boi para se abrigar da chuva. O condutor usa um chapéu de palha de largas abas. Ele acalma os bois gaúcho e mineiro e posiciona a parelha embaixo de uma gigantesca seringueira que produz sombra e abrigo farto.

Claudiomiro é funcionário da prefeitura e também trabalha na roça. Nunca visitou o Salto de Yucumã nem o Parque Estadual do Turvo, que abriga a catarata.

– Eu não conheço. É que para ir para lá tem de ser de carro. E tem de levar tudo, de beber e de comer. Ai, sempre aparece outra coisa para fazer – explica-se Claudiomiro.

Também se abriga da chuva, sob a mesma proteção, Ivo Wagner, 58 anos de trabalho pesado na lavoura. Ivo é o oposto de Claudiomiro quanto ao parque. Ele afirma que já chegou a ir mais de 10 vezes ao Salto do Yucumã em uma única semana. Vai lá para passear, para apresentar o lugar para parentes e amigos que o visitam, para assar um churrasco e aproveitar a beleza natural do Rio Uruguai. Mesmo sendo um freqüentador assíduo (ou até por isso) Ivo reconhece as deficiências do local para atender a demanda turística.

– Tinha de ter um restaurante para quem vem. Aqui na cidade não tem. Lá no parque também não. Tem muita gente que vem, não sabe que precisa trazer comida e fica com fome – conta Ivo.

Natural de Getúlio Vargas, ele está há mais de 40 anos na região de Derrubadas. Ivo lembra que em determinadas épocas, normalmente no Verão, chegam a ter mais de sessenta carros e cinco ônibus no parque. Nestas ocasiões, faltam churrasqueiras para os visitantes. O parque lota.

Hoje, porém, o retrato da maior reserva florestal do Rio Grande do Sul está desfocado. O espaço protegido por lei a cada dia é mais retalhado. As cidades vizinhas ao parque não oferecem nem investem em infra-estrutura turística. A população está dividida entre os que consideram o local bonito e agradável para passeios e os que pouco se importam com o local. Em meio a tudo isso, a única floresta intacta gaúcha está por desaparecer. Se o governo federal implantar as usinas hidrelétricas previstas, em alguns anos o Salto do Yucumã não será mais do que lembranças em placas velhas na beira da estrada.

Segundo o chefe dos oito guardas florestais que trabalham no parque, quando muitas pessoas chegam ao local, é necessário fechar a entrada.

– Não dá. Não tem estrutura para tanta gente. O nosso limite é de 200 pessoas – explica Getúlio, que há 28 anos trabalha no local.

Todos os tons de preto e cinza aterrisam nas margens do Uruguai. Um platô largo e esparramado pela margem brasileira das cataratas. Irônico destino que se vinga de Foz do Iguaçu. Lá são os argentinos que se debruçam sobre o lado mais mais da maior queda de água do mundo. Aqui, em Yucumã, o privilégio de saltar pela larga praia de pedras e poças são os nativos bugres gringos descendentes de dois tempos e culturas distintas: europeu, caiaguangue e a mistura dos dois: o bugre.

A relação cultural entre o homem e a natureza molda o entendimento da preservação e da exploração das riquezas naturais. A necessidade de preservação ambiental é uma constatação universal neste século. A região do Médio Alto Uruguai tem como principal acidente geográfico o Rio Uruguai, maior curso de água do Estado do Rio Grande do Sul. Tradicional meio de transporte, o rio e suas margens, também servem como área concentradora de riqueza e recursos naturais para exploração econômica e subsistência. A região foi a que recebeu mais tardiamente a colonização européia (alemães, italianos, poloneses) e conta até hoje com áreas indígenas demarcadas. O rio Uruguai serve também de fronteira entre Brasil e Argentina, criando tipos culturais únicos: os ribeirinhos binacionais. Mas existe muito mais coisa em jogo. A força do rio pode gerar 12.700 MW de potência instalada em hidrelétricas que são objetos de cobiça e conflitos no Brasil e na Argentina. É o caso do Complexo de Garabi. Anunciado em 9 de setembro de 2008 pelos presidentes Luís Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner, em Brasília, com previsão de gerar 1,890 MW, o projeto teria duas ou três usinas no trecho binacional do Rio Uruguai. A idéia é antiga. Em 1972 os dois países fizeram o primeiro tratado. Os estudos foram até 1988. Na década de 90, no entanto, a iniciativa parou por conta da crise econômica e a mobilização dos movimentos sociais.

O símbolo das ações contra Garabi era a submersão do Salto do Yucumã e das áreas de preservação ambientais nos dois lados do rio. O movimento obteve êxito aparente. Os novos projetos prometiam não inundar o salto, baixando as cotas das barragens. No entender do engenheiro da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Ricardo Cavalcanti Furtado, que coordenou a Avaliação Ambiental Integrada para aproveitamento hidrelétrico da bacia do Rio Uruguai, publicado em 2007, o rio comporta as usinas previstas, mas a área do Salto do Yucumã, sua fauna e suas florestas têm de ser preservadas.

Mas as dúvidas persistem entre ambientalistas dos dois países. Para eles, o “grande roncador”, corre perigo de ser silenciado para sempre.

– Se não paramos com estes empreendimentos hidrelétricos, os saltos terminarão cobertos de forma definitiva pelas águas – afirma o engenheiro e pós-graduado em avaliação de impacto ambiental Raúl Suárez Montórfano, membro da Fundación M’Biguá, da Argentina.

 

Carlos Dominguez

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