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A Copa da hipocrisia – por Leonardo da Rocha Botega

“O que era expectativa, porém, se transformou em um festival de absurdos”

Mais uma vez estamos diante do maior espetáculo esportivo da Terra: a Copa do Mundo de futebol. Um torneio com muitas expectativas e novidades. O primeiro com três sedes, o maior número de seleções participantes (48) e de jogos (104) da História. Resumindo, uma copa mais longa. Tudo, supostamente, em nome do “aumento da representatividade global” no futebol.

O que era expectativa, porém, se transformou em um festival de absurdos. Uma dúvida prevaleceu quase até o início da copa: se a seleção do Irã participaria ou não do torneio. Tudo por conta das restrições impostas pelo governo estadunidense a um país agredido militarmente pelos próprios Estados Unidos. A solução encontrada foi o Irã se hospedar no México e só permanece nos Estados Unidos durante os jogos.

Pouco importa o desequilíbrio físico gerado pelo desgaste dos atletas iranianos com os deslocamentos. Para os cartolas da FIFA, o show não pode parar. Alguns desses chegaram a aventar a substituição da seleção do Irã pela seleção italiana que, mesmo com a Copa se tornando um quase “entra quem quer”, não conseguiu ficar entre as dezesseis seleções europeias classificadas. Para o bem do futebol, a porta dos fundos foi fechada.

O que foi fechada também foi a porta do ingresso por mérito do melhor árbitro do futebol africano em 2025. Mesmo com passaporte diplomático e com um visto estadunidense de entrada única, Omar Artan foi impedido de ser o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma Copa do Mundo. Assim como Artan, centenas de torcedores oriundos de países do Sul Global também estão sendo impedidos de entrarem na Copa. 

Questionado sobre a expulsão de Omar Artan do torneio por parte do governo do seu amigo Donald Trump, o presidente da Fifa Gianni Infantino respondeu que “cada país tem as suas regras”. Essa mesma postura a entidade não teve em outros países. Na Copa realizada no Brasil em 2014, os dirigentes exigiram do governo brasileiro autonomia total sobre o torneio. Em 2015, um escândalo de corrupção desvendou a tal “autonomia”.

A postura subserviente da FIFA diante de governos autoritários, porém, não é de hoje. Em 1978, enquanto milhares de pessoas eram torturadas e desparecidas, bebês eram roubados e as águas do Rio da Prata recebiam os corpos das vítimas dos “voos da morte”, o todo poderoso João Havelange falava que na Copa do Mundo o governo ditatorial de Jorge Videla iria mostrar a “verdadeira face” da Argentina.

A declaração de Gianni Infantino não chegou a ser tão explicita quando a de Havelange (o ex-presidente da FIFA que enriqueceu enquanto bajulava torturadores e ditadores, principalmente, no seu próprio país). A bajulação aos autoritários, porém, é para lá de semelhante. A hipócrita entrega do Prêmio Fifa da Paz à Donald Trump, assumidamente um “senhor da guerra”, demonstra isso.

A hipocrisia tem sido a marca dessa Copa do Mundo. Por trás da suposta “democratização” do ascenso ao maior evento do futebol mundial, o que estamos assistindo é um festival de xenofobia, ingressos caríssimos e seletividade de práticas. Infantino se transformou no grande fantoche do trumpismo e de sua ideia de que o mundo não é para todos. Infelizmente, o futebol paga o preço de quem acha que é seu dono.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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11 Comentários

  1. ‘[…] o mundo não é para todos.’ Obvio que não é. Cayo Coco e Cayo Santa Maria em Cuba. Residencia de Raul Castro no Punto Cero em Cubanacan. Altamente restrito e altamente luxuoso. Ou os apartamentos de luxo que Maduro tinha na Florida. Coisas dos Vermelhos, ‘todo mundo igual, mas uns mais iguais que os outros’, viva a Nomenklatura!

  2. ‘A hipócrita entrega do Prêmio Fifa da Paz à Donald Trump, assumidamente um “senhor da guerra”, demonstra isso.’ Interessante, os Vermelhos dão importancia para o premio.

  3. ‘A bajulação aos autoritários, porém, é para lá de semelhante.’ Chaves, Maduro, Ortega e Morales que mandou o exercito invadir instalações da Petrobras na Bolivia. Irmãos Castro em Cuba. Xi Jinping. Putin. Quem bajula estes daí? !!!

  4. ‘A bajulação aos autoritários, porém, é para lá de semelhante.’ Chaves, Maduro, Ortega e Morales que mandou o exercito invadir instalações da Petrobras na Bolivia. Irmãos Castro em Cuba. Xi Jinping. Putin. Quem bajula estes daí?

  5. 1978 foi a primeira Copa que assisti. Quem mencionar o evento, pessoas normais, não vai lembrar da situação politica, vai lembrar o jogo de seis gols da Argentina contra o Peru. Mortos, desaparecidos, problemas dos correntinos. Simples assim.

  6. ‘Em 2015, um escândalo de corrupção desvendou a tal “autonomia”.’ Como se a corrupção não fosse endemica no pais. Transparencia Internacional tem um indice de percepçao da corrupção. Escore Tupiniquim é 35 de 100. Ocupa o lugar 107 de 182 paises. Em primeiro lugar está a Dinamarca com indice 89. E a Somalia do juiz deportado? Indice 9 de 100. Ocupa o lugar 181 de 182 paises.

  7. ‘Assim como Artan, centenas de torcedores oriundos de países do Sul Global também estão sendo impedidos de entrarem na Copa.’ Paises africanos são conhecidos mundialmente pela qualidade dos arbitros que produz. Aqui gostam de berrar ‘soberania’, mas os ianques não têm direito a deles. Por isto que no governo Slow Joe deixarem entrar um numero entre 10 e 20 milhões de ilegais.

  8. ‘Para os cartolas da FIFA, o show não pode parar. Alguns desses chegaram a aventar […]’. Que ‘malditos’! Uma ‘especulação pecaminosa’! Kuakuakuakuakua!

  9. ‘A solução encontrada foi o Irã se hospedar no México e só permanece nos Estados Unidos durante os jogos.’ Em dois dos jogos a distancia é como Santa Maria e Montenegro. Pouco menor.

  10. ‘Tudo, supostamente, em nome do “aumento da representatividade global” no futebol.’ Curaçao não comemorou participar e fazer um gol na Alemanha? Cabo Verde não comemorou o empate com a Espanha? Vozinha, o goleiro, não tinha 50 mil seguidores e pulou para um milhão?

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