“A Brave New World, in a Brave New World…” e o mundo do trabalho contemporâneo – por Rosito Zepenfeld Borges
Iron Maiden, Aldous Huxley e o trabalho nos dias de hoje: o articulista explica

O ano era 2000. Bruce Dickinson retornava ao Iron Maiden, que lançava o lendário álbum Brave New World. Como fã da banda, fui imediatamente em busca do significado das músicas e da icônica capa do disco, que eu não me cansava de admirar. Foi então que descobri que o álbum havia sido inspirado no romance homônimo de Aldous Huxley, publicado em 1932 (Brave New World – Admirável Mundo Novo). Na época, eu lecionava Biologia e outra curiosidade despertou meu interesse: Aldous Huxley era filho de Thomas Huxley, um dos mais importantes defensores da teoria da evolução de Charles Darwin. A partir dali minha curiosidade pela obra só aumentou.
Hoje, mais de duas décadas depois, volto a essa obra para refletir sobre o mundo do trabalho, uma obra que descreve uma sociedade aparentemente perfeita. Não existem grandes conflitos, as pessoas cumprem seus papéis com eficiência e a estabilidade é mantida a qualquer custo. O preço dessa aparente perfeição, porém, é alto: a liberdade, a individualidade e o pensamento crítico são gradualmente substituídos pelo condicionamento, pela conformidade e pela aceitação de uma realidade cuidadosamente planejada. Décadas mais tarde, o Iron Maiden resgatou esse mesmo conceito em seu álbum Brave New World, mostrando que as inquietações de Huxley continuam extremamente atuais.
É difícil não estabelecer um paralelo com o mundo do trabalho contemporâneo. Nunca tivemos tantas ferramentas para medir desempenho, controlar processos, automatizar tarefas e aumentar a produtividade. Inteligência artificial, indicadores, dashboards, algoritmos e monitoramentos em tempo real prometem organizações mais eficientes e decisões mais precisas. Tudo isso representa um enorme avanço. O problema surge quando a eficiência deixa de ser um meio e passa a ser o único objetivo, transformando pessoas em indicadores, metas e números.
Esse cenário favorece um fenômeno silencioso: profissionais que deixam de questionar decisões, aceitam cargas de trabalho cada vez maiores como se fossem naturais, permanecem permanentemente conectados e passam a acreditar que seu valor está diretamente relacionado ao desempenho que conseguem entregar.
Sem perceber, cria-se uma cultura em que o medo de errar, a necessidade constante de demonstrar produtividade e a busca incessante por resultados substituem aspectos fundamentais como autonomia, criatividade, aprendizado e cooperação. São justamente essas condições que favorecem o surgimento dos fatores de risco psicossociais, hoje reconhecidos como um dos grandes desafios da gestão contemporânea.
A grande lição de Admirável Mundo Novo talvez não seja um alerta contra a tecnologia, mas contra a perda da humanidade. Organizações precisam evoluir, inovar e utilizar recursos cada vez mais sofisticados, mas sem esquecer que empresas são feitas de pessoas. A tecnologia deve ampliar as capacidades humanas, não reduzi-las.
A produtividade é importante, mas não pode existir às custas da saúde, da dignidade e do pensamento crítico. Afinal, o verdadeiro progresso não está em construir ambientes onde todos apenas obedecem e produzem mais, mas onde as pessoas possam trabalhar com segurança, propósito e liberdade para pensar.
(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.





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