
Por Isadora Bortolotto (Com foto de Divulgação) / Da Agência de Notícias
Um fóssil encontrado em 2014 no município de São João do Polêsine, na região da Quarta Colônia, está ajudando a desvendar como características típicas dos mamíferos começaram a surgir ao longo da evolução. O espécime pertence à espécie Prozostrodon brasiliensis, um cinodonte que viveu há cerca de 233 milhões de anos e é considerado um dos grupos mais próximos da origem dos mamíferos. O estudo, conduzido por pesquisadores da UFSM e do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi publicado na revista científica internacional The Anatomical Record.
A pesquisa é parte do trabalho de Iasmim Michelotti, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM e pesquisadora do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa). “O que mais me impressiona é poder observar, nesses fósseis tão antigos, características que mais tarde se tornariam típicas dos mamíferos. É fascinante imaginar que eles viveram há mais de 230 milhões de anos, em um mundo com clima, vegetação e fauna muito diferentes dos atuais e que, mesmo assim, muitos aspectos de sua anatomia já se assemelhavam aos dos mamíferos modernos”, conta Iasmim.
Cortes microscópicos revelam a idade do animal
Um dos resultados mais relevantes do estudo veio da histologia óssea, uma técnica que consiste em fazer cortes microscópicos nos ossos para analisar sua estrutura interna. Por meio dessas análises, foi possível identificar linhas de crescimento preservadas nos ossos e estimar que o indivíduo tinha entre dois e três anos de idade quando morreu. Mais do que isso: o animal ainda estava em fase de crescimento e não havia atingido a maturidade esquelética.
As análises também revelaram taxas de crescimento relativamente elevadas para um animal desse período geológico. Um crescimento mais acelerado é justamente uma das características associadas aos mamíferos modernos, e encontrá-la em um animal tão antigo oferece pistas sobre quando e como esse padrão começou a se estabelecer na linhagem que daria origem aos mamíferos.
Um animal pequeno, em um mundo muito diferente
O Prozostrodon brasiliensis era um animal de pequeno porte, provavelmente menor que um gambá atual. O fóssil estudado foi encontrado sem o crânio, mas crânios da mesma espécie descritos anteriormente medem cerca de 9 centímetros de comprimento. Com base nas características dentárias e no tamanho reduzido do corpo, os pesquisadores acreditam que o animal era insetívoro e generalista, alimentando-se principalmente de pequenos invertebrados como insetos e outros artrópodes.
Apesar de ainda não ser um mamífero, o Prozostrodon pertencia a um grupo muito próximo da origem desse grupo. Embora não seja possível afirmar com certeza se o animal possuía pelos, estudos recentes sugerem que os prozostrodontes (grupo ao qual pertencia a espécie) provavelmente já apresentavam algum tipo de cobertura corporal.
O animal viveu durante o Triássico Superior, no período Carniano, quando todos os continentes ainda estavam unidos no supercontinente Pangeia. O clima era mais quente que o atual, com estações bem marcadas e períodos de maior umidade. O ambiente era composto por extensas planícies com rios e lagos, cercadas por vegetação de samambaias e coníferas. Com ele coexistiam rincossauros, dicinodontes e alguns dos primeiros dinossauros.
Fóssil encontrado na Quarta Colônia preservado na UFSM
O espécime foi recolhido em 2014 no Sítio Fossilífero Marchezan, em São João do Polêsine, e está depositado na coleção paleontológica do Cappa, onde permanece disponível para pesquisa científica. A região da Quarta Colônia é reconhecida internacionalmente pela riqueza de seus afloramentos do Triássico e tem sido palco de importantes descobertas paleontológicas nas últimas décadas.
A pesquisa teve início em 2024, durante o Trabalho de Conclusão de Curso de Iasmim, e foi ampliada e concluída ao longo do mestrado, totalizando três anos de trabalho. Além da pesquisadora, participaram do estudo o biólogo e paleontólogo Leonardo Kerber, também da UFSM, e os pesquisadores Brodsky Dantas Macedo Farias, Marina Bento Soares e Lívia Roese-Miron, do Museu Nacional da UFRJ.
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