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Direita volver (?) – por Orlando Fonseca

“Calma, que a História e a geopolítica têm seu ritmo próprio”

Com o resultado das recentes eleições no continente, manchetes da imprensa e mídia eletrônica destacam (quase celebrando) o “Avanço da direita na América do Sul”. Como não poderia deixar de ser, os partidários da ideologia liberal e conservadora erguem loas ao que parece ser uma avalanche. Uma dessas manchetes, inclusive, chamou minha atenção, afirmando que o “Brasil está isolado”, vejam só, entre os países sul-americanos.

No entanto, quero abrir um parêntese para dizer “calma”, que a História e a geopolítica têm seu ritmo próprio. Isso porque nosso continente tem 13 países, e o que estamos vendo agora é que são 7 os do espectro da direita, enquanto 6, incluindo o Brasil, são governados por dirigentes de esquerda, ou quase lá. Também é de se observar que ainda está na administração da esquerda 55% do PIB continental.

Outro aspecto importante, em regimes democráticos, a alternância de poder, ao longo das últimas décadas, tem produzido um movimento pendular entre as ideologias extremas. Por exemplo, a Argentina, atualmente governada por Javier Milei, tem uma dificuldade histórica de lidar com o peronismo.

Este movimento político de massa fundado por Juan Domingo Perón, na década de 1940, tem como base justiça social, independência econômica e soberania política; consolidou sua popularidade ao instituir direitos como o 13º salário, férias remuneradas e ampliação do sistema de aposentadorias. Tem sido sustentado pelos sindicatos e a classe trabalhadora. A figura da segunda esposa de Perón, Evita, foi vital na conquista do sufrágio feminino e na aproximação com as camadas mais pobres, tornando-se um mito popular.

No entanto, por abranger um amplo espectro ideológico, indo da centro-esquerda à direita, tem governado a Argentina em diversos períodos cruciais. Nos anos 90, com Carlos Menem, guinou para políticas neoliberais, realizando grandes privatizações e abrindo a economia. Já nos anos 2000 e 2010, com Néstor e Cristina Kirchner, o peronismo assumiu uma plataforma de centro-esquerda, mas, além de gerar forte polarização, envolveu-se em debates sobre corrupção.

Na sequência, Alberto Fernández (herdeiro político do Kirchnerismo) foi derrotado por Mauricio Macri, (2015 a 2019), este último eleito pelo partido PRO, com a promessa de adotar uma agenda liberal, focando em corrigir desequilíbrios históricos, reduzir a pobreza  e reintegrar o país ao mercado financeiro internacional. Em meio a graves crises inflacionárias, o liberal Javier Milei, que se diz anarcocapitalista, assumiu com um discurso de ruptura. Mas a realidade social e econômica está aí para testemunhar que a crise entre os hermanos parece não ter fim.

Da mesma forma, vemos mudanças radicais no Chile, desde o fim da era Pinochet. Atualmente é governado pelo presidente de extrema-direita José Antonio Kast, que assumiu em 11 de março deste ano. A sua eleição marcou uma guinada histórica na política do país, encerrando o ciclo de centro-esquerda e centro-direita que vigorou desde o fim da ditadura militar.

A estabilidade política veio através de duas grandes coalizões: Concertación – aliança de centro-esquerda que elegeu Patricio Aylwin, Eduardo Frei, Ricardo Lagos e Michelle Bachelet; e a Coalizão para a Mudança – aliança de centro-direita liderada por Sebastián Piñera, que rompeu a hegemonia da esquerda pela primeira vez em 2010. Gabriel Boric (2022–2026) assumiu a presidência liderando uma coalizão de esquerda, com a promessa de reformas estruturais, mas também com dificuldades em garantir maiorias estáveis e combater problemas de criminalidade.

Nas últimas eleições presidenciais (confirmando o proclamado “avanço da direita no continente”) Kast obteve uma vitória esmagadora sobre a candidata de esquerda, impulsionada por pautas voltadas à segurança pública, ao endurecimento contra o crime organizado, à contenção da imigração e ao rigor econômico.

Entre os países da região de produção de coca, persiste a ilusão do apoio dos americanos (maior mercado consumidor, diga-se): Colômbia, Peru e Bolívia. Com a vitória recente de Keiko Fujimori no Peru e a eleição de Abelardo de la Espriella na Colômbia, a direita, na América do Sul, passará a governar 7 países. Trata-se de um movimento natural, preferível, a meu juízo, aos regimes ditatoriais que mancharam de sangue “nuestra América”, por um longo período no século passado. Minha expectativa é que os novos governos consigam manter a soberania, diante das investidas do imperialismo do atual governo americano, e mantenham nosso continente no rumo da justiça social e da liberdade (não apenas econômica) sobretudo da liberdade política. Quem viver, verá.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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13 Comentários

  1. ‘[…] mantenham nosso continente no rumo da justiça social e da liberdade (não apenas econômica) sobretudo da liberdade política.’ Justiça social a la Jaques Wagner et caterva do caso Banco Master. Vermelhos vivem policiando os outros, dizendo o que pode e o que não pode. Aliados a parte do Supremo Tribunal Cumpanhero são os maiores adversarios da ‘liberdade’ no pais. Conversa mole para boi dormir.

  2. ‘Minha expectativa é que os novos governos consigam manter a soberania, diante das investidas do imperialismo do atual governo americano, [..]’. Pois então. Por coincidencia tiraram dinheiro da USAID, parou o fluxo de dinheiro para ONG’s e os ares mudaram na AL.

  3. ‘[…] ao endurecimento contra o crime organizado, à contenção da imigração e ao rigor econômico.’ Problemas dos chilenos são dos chilenos. Chile recebeu algo como 700 mil venezuelanos. Do nada a população aumentou algo como 5%. Vermelhos usam sempre as mesmas taticas. Marketeiam que os problemas não existem, quem reclama da imigração é xenofobo, por exemplo. Os problemas de todos são deixados de lado e o foco, ao menos na propaganda, é a desigualdade, o racismo, a homofobia, a condição feminina. Fica a imagem do descaso. Somando gastos inuteis e corrupção. Eleitores olham o cardapio e escolhem o outro ‘prato’.

  4. ‘A sua eleição marcou uma guinada histórica na política do país, encerrando o ciclo de centro-esquerda e centro-direita que vigorou desde o fim da ditadura militar.’ Prometeram, não entregaram. Quem vive de sonho é padaria.

  5. ‘Mas a realidade social e econômica está aí para testemunhar que a crise entre os hermanos parece não ter fim.’ No inicio do seculo passado era um dos paises mais ricos e desenvolvidos do mundo. Quatro premios Nobel. Peron? Altamente influenciado pela Carta del Lavoro de Mussolini. O ‘justicialismo’ era inspirado no proprio. Uma ‘terceira via’. Nem capitalista nem comunista. Alas, teria dito que o poder era algo que se pegava com a esquerda e se dirigia com a direita. Pragmatismo. Alas, ajudou a financiar a campanha eleitoral de Getulio Vargas em 1950.

  6. ‘[…] o liberal Javier Milei, que se diz anarcocapitalista,[…]’. Anarcocapitalismo é um liberalismo levado as ultimas consequencias. Utopia.

  7. ‘Nos anos 90, com Carlos Menem, guinou para políticas neoliberais, […]’. Também era peronista, partido justicialista.

  8. ‘Por exemplo, a Argentina, atualmente governada por Javier Milei, tem uma dificuldade histórica de lidar com o peronismo.’ Problema dos correntinos são dos correntinos. O meu é a conta do supermercado.

  9. ‘Também é de se observar que ainda está na administração da esquerda 55% do PIB continental.’ ‘O nosso pinto é maior’! Kuakuakuakuakuakua!

  10. ‘Isso porque nosso continente tem 13 países, e o que estamos vendo agora é que são 7 os do espectro da direita, enquanto 6, incluindo o Brasil, são governados por dirigentes de esquerda, ou quase lá.’ E jogo de futebol? Virou torcida?

  11. ‘Uma dessas manchetes, inclusive, chamou minha atenção, afirmando que o “Brasil está isolado”, vejam só, entre os países sul-americanos.’ Pessoas diferentes dão valores a coisas diferentes. Pais deixou de ter relações institucionais com aqueles paises? Ou a interlocução complicou-se por conta de birra ideologica de Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista? Bastante ‘institucional’ e ‘republicano’!

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