Recado do caso Master para as redações é repensar a cobertura da economia – por Carlos Wagner
Motivos por que “confio que os culpados serão processados, julgados e presos”

Os prejuízos causados a clientes, entidades e cofres públicos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, dono do Banco Master, caminham a passos largos rumo a ocupar o primeiro lugar na história dos maiores escândalos financeiros do Brasil. Com direito a uma posição de destaque nos quatro cantos do mundo. Já somam R$ 47 bilhões e continuam crescendo.
A imprensa está fazendo uma boa cobertura do dia a dia dos fatos envolvendo a investigação policial e os outros desdobramentos do caso. Mas há um detalhe pelo qual os jornalistas estão passando batido e que merecia mais atenção. Como é que não notamos os sinais de que as coisas estavam indo de mal a pior no Master? Vejo nesta história uma oportunidade que nós jornalistas temos para discutir a cobertura dos assuntos econômicos. Vamos conversar sobre o assunto.
Iniciamos a nossa conversa contextualizando a história, como manda o manual do bom jornalismo. Em novembro de 2025, a Polícia Federal (PF) prendeu Vorcaro e quatro dos seus sócios no Banco Master por, entre outras irregularidades, terem emitido títulos de crédito falsos no valor de R$ 12 bilhões. Doze dias após ser preso, Vorcaro foi solto mediante o uso de tornozeleira eletrônica e está em prisão domiciliar.
Desde então, a situação do banqueiro vem se complicando a cada dia com a descoberta de novos crimes pela PF. A origem deste post foi uma ligação que recebi de um leitor. Ele me fez uma perguntinha simples: “diga aí! Quais os sinais que devo ficar atento para saber se estão cuidando bem do meu investimento?” Respondi: “Tem que ficar atento aos noticiários, em particular aos comentaristas econômicos”.
Ele retrucou: “Wagner, nós tomamos muitas cervejas e comemos muitos churrascos. Responde com sinceridade. Tu entende o que os teus colegas escrevem e falam sobre economia?” Respondi que não e que só soube que as coisas estavam indo mal na hora que a PF prendeu o dono do banco. Encerramos a conversa rindo e marcando um churrasco.
Mas a conversa me fez lembrar de um filme que já assisti várias vezes, A Grande Aposta. Com base em fatos reais, o filme conta a história do guru de Wall Street Michael Burry. Aconteceu o seguinte: ele se deu conta que milhares de empréstimos feitos para o mercado imobiliário corriam sério risco de inadimplência. Daí decidiu apostar contra o mercado.
O filme mostra o dono de uma empresa de investimentos investigando os imóveis. Quando a crise imobiliária explodiu, em 2008, foi a maior do sistema financeiro desde a Grande Depressão dos anos 30, causada pela quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929. E Michael Burry ganhou milhões de dólares. Recomendo aos meus colegas, principalmente os jovens repórteres, que assistam ao filme A Grande Aposta.
Sobre o caso do Master. O banco entrou no mercado em 2021 pagando aos seus investidores rendimentos acima do mercado. Por si só este fato deveria ter ligado uma luz vermelha nas editorias de economia. De onde Vorcaro estava tirando dinheiro para remunerar os investidores acima do mercado?
Esta história deveria ter sido esmiuçada e explicada ao leitor. Lembrando que no mercado de capitais não existe mágica. E que operações arriscadas colocam em perigo o dinheiro do investidor. Mais um sinal que as coisas não estavam indo bem no Master que deixamos passar batido.
Era pública a intensa vida social de Vorcaro: jatinhos, festas, conversas com autoridades dos três poderes e por aí fora. Ele queria demonstrar que era uma pessoa bem-sucedida e que os seus negócios estavam indo de vento em popa? Trabalho com investigação jornalística há uns 40 anos e aprendi com meus colegas que faziam cobertura de assuntos policiais que quando um grande empresário torna público a sua vida privada isso não tem nada a ver com demonstrações de sucesso nos negócios. Mas um sinal de que tem problemas e está enviando um recado para quem o está investigando, do tipo: “olha só quem são os meus amigos”.
Acrescento o seguinte. Trabalhei em redação de jornal de 1979 a 2014 e hoje ando pelas estradas procurando histórias para contar. Aprendi que qualquer negócio que envolve investimentos de fundos de pensão merece atenção cuidadosa da imprensa. Por quê? Esses fundos lidam com dinheiro dos aposentados, pessoas que trabalharam a vida toda e agora estão desfrutando a renda obtida por seus investimentos.
Defendo a ideia de que os jornais especializem repórteres para ficarem atentos aos sinais de que alguma coisa vai mal no mercado de capitais e traduzam esses sinais em uma linguagem compreensível para os leitores. Tenho defendido nas palestras que faço que uma das maneiras da imprensa tradicional ampliar o seu número de leitores é abrindo novas fronteiras para atender a um público mais diversificado.
A cobertura dos assuntos econômicos é uma dessas fronteiras. O que se faz atualmente é focado no lucro e no prejuízo. Sem maiores explicações. É necessário explicar se a operação foi feita dentro da lei, ou se tem sacanagem
Para arrematar a nossa conversa. Por três motivos confio que os culpados pelo caso do Banco Master serão processados, julgados e presos. O primeiro motivo é que a imprensa acompanha a história passo a passo. O segundo é o fato dos três poderes do país estarem funcionando. E, por último, o Banco Central do Brasil e a Polícia Federal estão atentos ao processo.
É possível evitar que este tipo de sacanagem se repita? Não, e certamente irá se repetir. Mas é possível diminuir o número de pessoas prejudicadas alertando os leitores sobre os sinais que indicam que alguma coisa está errada. Como disse no início da nossa conversa, é preciso repensar a cobertura dos assuntos de economia na imprensa. Repórteres precisam ser treinados para aprender a localizar os sinais deixados pela sacanagem.
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(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.
SOBRE O AUTOR: Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 75 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.





Resumo da opera. Como diz o filosofo: saiu do nada e foi para lugar nenhum. Com direito a ‘recapitulações’ e historias pessoais que interessam ninguém.
‘Repórteres precisam ser treinados para aprender a localizar os sinais deixados pela sacanagem.’ Não ‘se paga’. Este tipo de evento é muito espaçado. Se um jornalista noticiar ‘pode ter merda na instituição XYZ’. Lei dos Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. ‘Art. 3º Divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira:Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.’. Ninguém vai arriscar, vão deixar estourar e noticiar depois.
‘[…] diminuir o número de pessoas prejudicadas alertando os leitores sobre os sinais que indicam que alguma coisa está errada […]’. Velha receita de sempre. Campanhas de conscientização. Também cabe ‘educação’ na conversa.
‘E, por último, o Banco Central do Brasil e a Polícia Federal estão atentos ao processo.’ Mas ninguém está com o proprio couro a negocio. Ou alguém sonha que não rolou nenhuma ameaça de ‘deviver’ no meio desta confusão toda. Vide Paulo Cesar Farias.
‘O primeiro motivo é que a imprensa acompanha a história passo a passo.’ Sim, como acompanhou o desmonte da Lava a Jato.
‘O segundo é o fato dos três poderes do país estarem funcionando.’ Com gente envolvida no escandalo. Não tem como esconder, tem gente do executivo, do legislativo e do judiciario aparentemente com a mão na botija.
‘Esses fundos lidam com dinheiro dos aposentados, pessoas que trabalharam a vida toda e agora estão desfrutando a renda obtida por seus investimentos.’ Pois então, gente que não produz um parafuso, não trabalha há decadas, só enrola, acusa quem administra estes fundos de não produzir nem um prego. E os fundos são de ‘rentistas’ sanquessugas da nação.
‘[…] confio que os culpados pelo caso do Banco Master serão processados, julgados e presos.’ Alguém vai ser processado, julgado e preso. Até agora não se sabe se Vorcaro é um agente ou um laranja, um técnico testa de ferro.
‘Era pública a intensa vida social de Vorcaro:[…]’. Que é economista e tem MBA pelo IBMEC, uma das melhores instituições na area no Brasil.
Segundo aspecto. Os comentaristas, até os de internet, geralmente estão preocupados com quem investe em ações de banco, não em correntistas. Gera ruido a mais não poder. Banco XYZ era para ter lucrado 5 bilhões no trimestre e lucrou 3, por exemplo. Ações desvalorizam. Já surge o boato de que o Banco XYZ ‘vai quebrar’. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, quase certo que os indices estão bons (indice de Basiléia, indice de imobilização, inadimplencia, liquidez).
‘ “Tem que ficar atento aos noticiários, em particular aos comentaristas econômicos”. Informação completamente inutil. Noticiario geralmente aborda cotação do dolar e bolsa de valores. Se qualquer um deles variar 1% para baixo ‘o mundo vai acabar’. O cotrario também vira manchete as vezes ‘subiu 5%’ ou ‘bateu recorde’ (em pontos, sem descontar inflação, obvio).
Existe uma tradição historica no pais. Banco quebrando e fusões de banco sem muitas explicações. Unibanco ia muito bem obrigado e a familia Moreira Salles resolveu fundir com o Itau. Banco Nacional que era de Magalhães Pinto, um politico, derreteu. Banestado do Paraná foi privatizado, mas antes se envolveu num escandalo gigantesco. Deu em CPI que deu em Pizza. Foi desembocar na Lava a Jato, onde o ‘“confio que os culpados serão processados, julgados e presos” foi para o vinagre.
‘Como é que não notamos os sinais de que as coisas estavam indo de mal a pior no Master?’ Porque não tem formação na area (economia e finanças) e porque o pessoal da area que trabalha com isto todo dia não costuma abrir o bico para a imprensa a não ser sobre generalidades.
‘Motivos por que “confio que os culpados serão processados, julgados e presos.’ Como no Petrolão?