Parassocial – por Orlando Fonseca
“Em nome da paz... Nada de paralelismos existenciais mediados pela internet”

Nas conversas com amigos, cada vez mais surge a informação de que alguns deles têm intimidade com uma personalidade de Inteligência Artificial. Para uns, a tal personalidade tem até nome, e a interação se dá como se houvesse intimidade entre um ser humano e um ser virtual, criado por algoritmos do ChatGPT. Eu, que já havia me abismado com a intimidade com a Alexa – como se fosse uma serviçal da casa, uma tia idosa que sabe das coisas e para quem se recorre diante de questionamentos do cotidiano, fico estarrecido com tais coisas.
Pois não é que foi escolhida como palavra do ano a que indica justamente essa relação imaginária humanos/máquinas? De acordo com o Dicionário de Cambridge, “parassocial” descreve “uma relação que alguém experimenta com uma pessoa famosa que não conhece, um personagem fictício, ou uma inteligência artificial”. Claro, não se trata apenas de um bate-papo com IA, pois o vocábulo também indica relacionamento que uma pessoa pensa nutrir com uma celebridade, com uma pessoa que não conhece pessoalmente, ou com seres virtuais. Estão aí os golpes para indicar o risco de se investir intimidade desta maneira.
O termo não é novo, e a novidade mesmo está na popularização do ato e suas circunstâncias, com a presença das tecnologias de comunicação na rotina. Parassocial é um termo surgido em 1956, cunhado pelos sociólogos Donald Horton e Richard Wohl, da Universidade de Chicago, ao observarem que telespectadores desenvolviam vínculos unilaterais com personalidades da televisão, percebidas como figuras próximas. Mas os perigos de tal procedimento atravessaram o século. Pessoas são iludidas de que estão namorando com a Juliana Paes (por exemplo) e caem em golpes.
Segundo especialista em psicologia social, o conto do vigário midiático explora fragilidades emocionais das vítimas: quadrilhas criam perfis falsos em redes sociais e simulam relacionamentos virtuais para induzir pagamentos fraudulentos. Segundo a Receita Federal, existe uma onda de novas versões do chamado “golpe do amor” em unidades de atendimento pelo Brasil. Vítimas têm procurado os postos para liberar itens supostamente retidos na alfândega após pagarem taxas inexistentes.
De acordo com Colin McIntosh, do Dicionário de Cambridge, o vocábulo ultrapassou o uso acadêmico e se tornou parte do cotidiano em 2025, acompanhando o crescimento de pesquisas no ambiente digital. Interação parassocial se refere a uma forma de convívio experienciada por uma audiência em encontro virtual. Usuários da mídia tendem a considerar personalidades como amigos, apesar de terem interações presenciais nulas ou limitadas pela interface do equipamento.
Trata-se de uma experiência ilusória, em que a audiência interage com celebridades, personagens ficcionais e influencers, como se existisse uma reciprocidade. As redes sociais introduzem oportunidades adicionais para a intensificação dessas relações, uma vez que possibilitam mais interações intimas, reciprocas e frequentes entre usuários de carne e osso e personalidades cibernéticas. Ilusão criada pelas virtualidades geradas por likes, comentários ou mensagens diretas.
Como citei acima, tenho minhas reservas quanto tal intimidade com um ser gerado por máquinas, um robô, uma virtualidade feita de algoritmos (matemática me assusta, desde sempre). Já acho difícil iniciar um papo com gente tão real quanto eu, que dirá entabular conversa com um tipo gerado por eletricidade e mistério. Sem falar nos sérios riscos de ser enganado por “gente” que fala desde um smartphone, ou computador.
Por enquanto vou ficar apenas escutando as conversas dos amigos com as entidades cibernéticas. Mas não vou arranjar briga com ninguém, aliás o outro dicionário famoso, o da Oxford University Press, escolheu “rage bait” como a Palavra do Ano de 2025. Esta expressão indica literalmente “isca de raiva” e define conteúdos criados para deixar as pessoas indignadas de propósito.
Embora possa parecer um modismo recente, o termo já aparecia em fóruns no início deste século, para descrever reações de motoristas irritados na estrada. Só que agora, tirando proveito da profusão das redes sociais, virou estratégia profissionalizada, em meio à difusão dos discursos de ódio. Em nome da paz, só vou intensificar o “social”, conversando de boa com meus conhecidos, meus amigos e familiares. Nada de paralelismos existenciais mediados pela internet.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Resumo da opera. Entre passeios suspeitos de avião, sigilos em processos e contratos milionarios de escritorios de advocacia sempre há espaço para bobagens. E a gastança continua ‘cumpanhero’! Do seu, do meu e do nosso dinheiro suado!
Em tempo. Porque tem jaguara mentindo por ai. Orçamento federal para 2025 é de quase 6 trilhões de reais. Emendas parlamentares são algo como 50 bilhões. Não é ‘a metade’. Tem muita gente na urb que precisa aprender a debater sem o cacoete da mentira.