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Irã x Israel e a necessidade de Netanyahu de criar inimigos – por José Renato Ferraz da Silveira e Carolina Gonçalves Pedron

‘Abusos/violações em Gaza desapareceram das notícias. Inimigo agora é outro’

Nas relações internacionais, o conceito de “percepção de ameaça” é o foco principal em pesquisas sobre guerra, dissuasão, coerção, alianças e conflito.

Para Israel, a ideia de um programa nuclear iraniano sempre foi uma ameaça real, e seus líderes e políticos incentivam há anos a necessidade de “atacá-lo” e “destruí-lo” o quanto antes fosse necessário, até evitar que seja “tarde demais”.

Esses alertas são renovados praticamente ano após ano, sempre com a premissa de urgência e de novos prazos, que alimentam uma narrativa de alerta permanente, que podem vir a justificar as medidas militares do país e ações diplomáticas agressivas.

Em 2012, essa retórica ficou mais clara quando o premier israelense Benjamin Netanyahu discursou, com as seguinte palavras, na Assembleia Geral da ONU: “em jogo, não está apenas o futuro do meu próprio país. Em jogo está o futuro do mundo. Nada pode ameaçar mais nosso futuro comum do que o Irã conseguir armas nucleares. E para entender como seria o mundo com um Irã nuclearizado, só imaginem o Irã com uma al-Qaeda com armas nucleares”.

Agora, treze anos depois da fala da ONU, Israel e Irã estão em conflito bélico desde 13 de junho.

Israel bombardeou Teerã, capital do Irã, e também anunciou ataques a dezenas de instalações de mísseis no oeste do Irã. Vale destacar que em 2024 Israel bombardeou o consulado iraniano em Damasco, um ato considerado pelo Irã como uma violação do direito internacional e possível declaração de guerra. 

O combate preventivo à ameaça iraniana pode ser visto como uma estratégia de poder. Netanyahu deixa claro que possui uma longa trajetória de animosidade contra o Irã.

Em 1992, disse que o regime dos aiatolás tinha menos de três anos para obter uma bomba nuclear. A ameaça seria renovada ao longo das décadas, ajustando o prazo para a militarização.

E em 1993, disse em artigo no jornal Yediot Ahnorot que até 1999 Teerã faria parte do “clube nuclear”.

Evidente que o Irã não é o único tema das “previsões sombrias e funestas” do premier.

Em 2002, em depoimento a uma comissão do Senado dos Estados Unidos, disse ser uma “boa escolha” invadir o Iraque, alertando sobre um suposto programa nuclear de Saddam Hussein, corroborando alegações falsas sobre armas de destruição em massa.

Em 2004, quando o líder palestino Yasser Arafat estava no leito de morte, disse que o sucessor não seria um de seus aliados.

Em 2011, previu que a economia global enfrentaria “20 anos de recessão”, e “que todos seriam impactados, sem exceções”.

Os discursos de Netanyahu são baseados em visões delirantes, paranoicas e obsessivas sobre a possibilidade do Irã ter armas nucleares.

Não há dúvida que os sucessivos ataques em Gaza e em outros países fazem parte de uma estratégia de sobrevivência política de Netanyahu.

Muito mais do que manter a defesa de Israel, conquistar possivelmente os territórios de Gaza e Cisjordânia e acabar com “futuros projetos nucleares” do Irã,  está a sua tentativa de implantar uma imagem de um “defensor de Israel ímpar”, que lhe garante estabilidade, manutenção do poder e a ausência de oposição.

As forças de Netanyahu estão voltadas para sua própria carreira política, não só para que não perca a sua posição e liderança, mas também por temer sobre um de seus maiores medos: a sua própria prisão.

As últimas ações do primeiro-ministro são exemplos de uma perfeita cortina de fumaça que, além de ofuscar as suas supostas atitudes corruptas, acabam por suspender as divisões internas em Israel, enfraquecendo protestos, greves, críticas da sociedade israelense e coberturas negativas da imprensa.

Uma imagem patriótica se espalha, pautas sociais e institucionais deixam de fazer parte do debate público e a aproximação com partidos ultranacionalistas e da extrema direita, que defendem a postura agressiva israelense fortificam a sua base parlamentar.

Israel  ainda conta com apoio das potências ocidentais.

Os líderes do G7, reunidos no Canadá, emitiram uma  declaração reconhecendo o “direito de defesa de Israel”, e dizendo que o Irã é a principal “fonte de instabilidade regional e terrorismo”.

Por fim, em poucos dias de ataque ao Irã, conseguiu mudar o foco e a narrativa. Os abusos e violações em Gaza desapareceram das notícias. O inimigo, agora, é outro. Netanyahu tem como prática comum: a necessidade de criar inimigos e a estratégia de confrontação permanente. A guerra não pode ter fim. 

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP)

Carolina Gonçalves Pedron é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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