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O Filho de Mil Homens… o que há entre a montanha e o mar – por Roselâine Casanova Corrêa 

A resenha do filme lançado no cinema em outubro e na Netflix em novembro

Uma narrativa em várias camadas. Todas intensas, sem lugar para a autopiedade ou a vitimização. Contudo, abraçando diversas nuances da existência humana, sob o olhar encantador da aceitação (ou a falta dela).

Sob o manto de uma aldeia de pescadores que parece ser muito pacata e solidária, gravitam pessoas tão diversas quanto o mar e a rocha. Aliás, mar e rocha aqui, são os grandes protagonistas. Da primeira à última cena. O boneco que acompanha Crisóstomo, parece condensar todas as dores e prazeres dos personagens. E é, também, o apaziguador de mágoas e das dores humanas. Em absoluto silêncio.

“O Filho de Mil Homens” – lançado no cinema em outubro e no Netflix em novembro – baseia-se na obra homônima do angolano criado em Portugal e apaixonado pelo Brasil, Valter Hugo Mãe, que esteve na Flip/2025, lançando seu livro, “Educação da tristeza”. Mas o livro que inspirou o filme data de 2011 e seu autor já afirmou que o longa, sob a direção e roteiro de Daniel Rezende, é “absolutamente magnífico” e que “é o filme da década”.

Daniel Resende tem estofo e experiência suficientes para transformar uma narrativa pouco linear e densa no formato audiovisual. Afinal, já foi indicado ao Oscar pela edição de “Cidade de Deus” (2002). No elenco, atores expressivos, tão diversos quanto a narrativa e entregam atuações magistrais, muitas vezes, somente com o olhar. Destaque, sobretudo, para Rodrigo Santoro – o Crisóstomo de Resende – bem como para Johny Massaro (Antonio), Rebeca Jamir (Isaura) e Miguel Martinez (Camilo).

Narrado por Zezé Motta, o longa tem locações em Búzios, Chapada Diamantina e Bahia. Crisóstomo – um homem de quarenta anos – deseja um filho e o menino Camilo precisa de um pai. Então está tudo certo? O menino acha que não, pois precisa de uma mãe. E é então que tudo foge ao convencional, pois o que vale aqui é apaziguar as dores, as frustrações, a solidão, o preconceito. O isolamento da praia de pescadores não parece ser um problema. Pelo contrário, a própria natureza supre a sobrevivência dos moradores. Mas esses moradores podem ser também cruéis.

A aldeia é pequena, porém os sentimentos são intensos e muitas vezes dolorosos. Há tramas paralelas, nem sempre desenvolvidas, como a portadora de nanismo que deseja ser mãe ou o rapaz homossexual reprimido pela mãe. Em ambos os casos parece haver a intencionalidade, na trama, em demonstrar a invisibilidade da primeira e a ocultação da sexualidade do segundo, justamente nos cortes abruptos de suas cenas. Mas também denuncia as regras rígidas da pequena comunidade, bem como a intolerância do cotidiano. E há longos silêncios, preenchidos pela delicada trilha sonora de Fábio Góes. E pelo som vindo do mar.

O dissecar dos peixes em lentidão, o compartilhamento do churros, a paisagem litorânea sob cores suaves e a paleta de cores do figurino simples em tonalidade neutra, fornecem a matiz melancólica, poética e introspectiva do enredo. Mas também o ritmo contemplativo de uma comunidade afastada do burburinho e do atropelo da cidade grande.

Santoro oferece um Crisóstomo vulnerável, porém sereno; Massaro é pura inquietação e insegurança em seu Antonio; a Isaura de Rebeca Jamir é o elemento que entende e acolhe ambos e o menino Camilo é a esperança para o amanhã. Em uma sociedade tradicional e repressora como a que vivem, esses personagens oferecem um novo modelo de convivência (ou de família).

Embalado em uma “poesia visual” profunda, o enredo delineia, entre a montanha e o mar, toda a complexidade – e também a simplicidade – da existência humana na aldeia. Sob suor intenso e lágrimas escondidas.

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.

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