Quando ter tudo é não ter nada – por Amarildo Luiz Trevisan
“Bolsonaro poderia ter sido um democrata à altura da história”. No entanto...

Ruy Castro escreveu com paixão e precisão a biografia de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos: Mané Garrincha. Aquele que encantava multidões com dribles impossíveis, pernas tortas e um sorriso de menino que parecia escapar do peso do mundo. Garrincha teve tudo: talento raro, fama planetária, amor popular, liberdade em campo. Mas foi vencido pelo álcool, pela falta de escuta, pelo abandono. Jogou fora o que a vida lhe deu de mais bonito.
Num de seus textos mais recentes, Ruy, com sua fina ironia, sugere que o ex-presidente norte-americano Donald Trump, acossado por escândalos de pedofilia e suas disputas com a Rússia, talvez não queira mais a companhia incômoda de Bolsonaro em seu clube na Flórida e, por isso, poderia “jogá-lo ao mar”. Não é uma metáfora qualquer. É o retrato de alguém que foi do topo ao fundo sem escalas.
Bolsonaro também teve tudo: prestígio popular, poder institucional, a máquina do Estado em mãos, milhões de seguidores dispostos a defendê-lo a qualquer custo. Mas, como Garrincha, jogou tudo fora. Embriagado, não pelo álcool, mas por uma ideologia simplista, por teorias conspiratórias, por uma visão de mundo empobrecida, não soube aproveitar o lado bom da vida. Trocou livros por fake news. Substituiu a escuta pelo ataque. Preferiu o confronto à convivência.
Quem sabe, um dia, Ruy Castro decida escrever a biografia de Jair Bolsonaro. Não se pode descartar essa hipótese. E, se o fizer, talvez se permita uma analogia entre as duas vidas que descreveu. Poderia dizer, com a precisão elegante que o caracteriza, que Bolsonaro foi como Garrincha: teve tudo e desperdiçou. Teve a chance de ser lembrado com grandeza, mas escolheu o caminho da autossabotagem. E ao contrário de Garrincha, que encantava sem entender por que, Bolsonaro desagregava com método, apostando no medo e na raiva como política de Estado.
A analogia pode parecer insólita – como comparar o anjo das pernas tortas ao capitão do ódio digital? Mas é justamente nesse contraste que algo profundo se revela. Um se perdeu no álcool. O outro, na cegueira ideológica. Ambos, cada qual à sua maneira, ignoraram os sinais de um outro caminho possível.
Ruy, que não se filiou a partidos, mas cujo olhar arguto nunca poupou a mediocridade, entende que a verdadeira biografia se escreve nas entrelinhas do que foi negado: o talento mal cuidado, o afeto desperdiçado, a chance não aproveitada. Garrincha poderia ter sido maior que Pelé. Bolsonaro poderia ter sido um democrata à altura da história. Mas preferiram o atalho da autodestruição.
No fim, resta uma pergunta que talvez una esses dois destinos: o que vale uma vida que teve tudo, mas escolheu não cuidar de nada?
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Errata, Expectativas.
Sim, para ser ‘bom’ Cavalão teria que atender as espectativas de quem não vota nele. Bastante ‘racional’.