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O sucesso de um programa social (às vezes) é deixar de ser necessário – Luís Henrique Kittel

“Desafio é conciliar proteção social com a promoção da autonomia econômica”

Os dados recentemente divulgados pela CIC Quarta Colônia sobre a força-tarefa de revisão cadastral do Bolsa Família e inclusão produtiva merecem uma análise serena, técnica e livre de preconceitos ideológicos. Para além dos números, se revela um desafio que está presente em praticamente todos os municípios brasileiros, que é como conciliar a proteção social necessária com a promoção da autonomia econômica.

Os números apresentados apontam uma redução de aproximadamente 1.042 beneficiários na região entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Em Agudo, a redução registrada foi de 198 pessoas, o equivalente a cerca de 12%. A iniciativa, inspirada em experiências já adotadas em outros municípios gaúchos, busca aperfeiçoar cadastros, identificar inconsistências e aproximar beneficiários aptos ao trabalho das oportunidades existentes no mercado formal.

É importante deixar claro que programas de transferência de renda possuem um papel fundamental na proteção das famílias em situação de vulnerabilidade. Em muitos casos, representam a garantia da alimentação, da dignidade e da segurança mínima necessária para enfrentar períodos de dificuldade.

Por outro lado, também é necessário reconhecer uma realidade frequentemente relatada pelo setor produtivo. Empresas da indústria, do comércio, dos serviços e do meio rural enfrentam dificuldades para preencher vagas, mesmo em momentos de crescimento econômico. O déficit de mão de obra tornou-se um dos principais obstáculos ao desenvolvimento regional.

Diante desse cenário, surge uma reflexão importante sobre o papel das políticas públicas. O objetivo de um programa social não pode ser apenas administrar a vulnerabilidade. Seu propósito maior deve ser criar condições para que as pessoas superem essa condição quando possuem capacidade e oportunidade para isso.

É nesse contexto que ganha relevância o conceito da inclusão produtiva. Trata-se de integrar ações de assistência social, qualificação profissional, intermediação de mão de obra e desenvolvimento econômico. Não falo sobre retirar direitos de quem necessita de proteção permanente do Estado, mas de construir caminhos para aqueles que podem alcançar independência financeira através do trabalho e da capacitação.

Como já escrevi em outro momento, a experiência demonstra que os melhores resultados sociais acontecem quando assistência e desenvolvimento caminham juntos. O benefício garante proteção nos momentos necessários. A qualificação amplia competências. O emprego gera renda. E a autonomia fortalece a cidadania.

Naturalmente, existem pessoas que continuarão necessitando do amparo público por razões de saúde, deficiência, idade ou condições familiares específicas. Porém, existe um contingente significativo de cidadãos com potencial produtivo que, quando encontram oportunidades concretas, conseguem transformar suas próprias trajetórias.

A iniciativa apresentada pela CIC Quarta Colônia contribui para esse debate ao propor uma atuação integrada entre associações empresariais, municípios e setor produtivo. Independentemente das avaliações sobre seus resultados futuros, a discussão que ela provoca é pertinente. Nesse sentido, como transformar assistência em oportunidade e proteção social em desenvolvimento humano?

O verdadeiro sucesso de uma política social não se mede pelo número de beneficiários atendidos. Mede-se, principalmente, pela capacidade de oferecer condições para que cada vez mais pessoas possam construir sua própria autonomia. Porque desenvolvimento social sustentável não acontece quando perpetuamos dependências. Ele acontece quando ampliamos possibilidades, valorizamos talentos e criamos condições para que cada cidadão seja protagonista da própria história.

(*) Luís Henrique Kittel, 40 anos, é jornalista formado pela então Unifra, atual UFN. É prefeito de Agudo (o único do PL na região), e é o atual presidente da Associação dos Municípios da Região Central (AM Centro) e já foi vice-presidente do Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia. Ele escreve no site às quintas-feiras.

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