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Devore – por Bianca Zasso

foto biancaSanta Maria está com outros ares. Por quinze dias, nossa cidade experimenta o sabor agridoce das páginas, desde as recém saídas da gráfica ou as amareladas pelo tempo. A Feira do Livro enfeita nossa praça Saldanha Marinho com o mais belo e encantador dos objetos. Há livros em algumas bancas que são verdadeiras obras de arte, dignos de ser expostos para além da estante. Mas estes, penso eu, devem ser os últimos a ser visitados. O conteúdo deve ser mais importante que a embalagem.

Mas espera aí! Isto não é uma coluna sobre cinema? Sim, querido leitor. Esta que vos escreve discorre com prazer sobre a Sétima Arte toda a semana neste espaço. E quem disse que a feira não esconde os seus enquadramentos e roteiros? E não estou falando só do lançamento de O nosso cinema era super, onde a jornalista Marilice Daronco faz um resgate histórico do movimento do cinema Super 8 na cidade, uma das boas dicas de compras. Há cinema em cada banca e em cada banco onde um leitor senta-se para desbravar as primeiras linhas de um romance.

Encontrei um exemplar capa dura de A outra volta do parafuso, de Henry James por menos de quinze reais. Na hora me veio na lembrança o filme Os inocentes, estrelado por Deborah Kerr e inspirado no romance. As várias edições de Crime e Castigo me lembram Match Point, de Woody Allen e sua versão moderna de Raskolnikov, personagem criado pelo genial Dostoievski. Que, por sinal, me lembra as ótimas aulas da professora Vera Prola Farias, uma mulher de livros e boas histórias.

Crianças desejando livros. Há coisa mais linda? É ali que tudo começa, as primeiras fábulas lidas e as primeiras ideias na cabeça. Não basta ler, é preciso criar. Imaginação é algo que deve ser cultivado desde pequeno. Me entristece um pouco ver pais comprando livros para seus filhotes levando em conta a cor e as letras grandes. Caríssimos, escolham pelas histórias, pelas sementes que elas vão plantar nas suas crianças. Livros são os melhores amigos na hora de crescer. Depois, quando somos desafiados a encarar o mundo, vamos procurá-los sem quem nenhum vestibular ou professor precise pedir.

Dentro de uma livraria eu me sinto tentada por todos os lados. Seja pequena e exclusiva ou uma megaloja, faz meu coração bater forte, meus olhos brilharem e, em alguns casos, meu cartão estourar. Não tem mulher que tem compulsão por sapatos? Eu tenho por livros. Aliás, tenho muito mais livros que sapatos. Isto porque aprendi com meu pai sapateiro que um bom solado pode durar décadas e bastam alguns pares para levar a vida na boa. Já os livros, estes mexem com o meu desejo e eu preciso sempre de mais e mais histórias, contos, romances, dramas e informações técnicas. Tenho pressa de comprar e uma paciência de Jó para ler. Afinal, bons livros sabem esperar e ninguém aqui está numa competição. Leia sem pressa e devore cada pedacinho com gosto.

Devore. Um verbo que deve reger os leitores e os cinéfilos. Devorem os livros. Devorem os filmes. Se lambuzem e divirtam-se, que é o mais importante.

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