“Eu, Que Te Amei” – por Roselâine Casanova Corrêa
‘Filme comove, instiga (...) um dos relacionamentos mais complexos do cinema’

Há uma francesa chamada Simone, que quase todos já ouviram falar ou leram suas obras: a Beauvoir. E há outra, pseudo-francesa e também Simone, que poderia ser melhor conhecida e estudada: a Signoret. A diretora lionesa Diane Kurys (77 anos), colocou a história do casal Simone Signoret/Yves Montand nas telas do cinema, sob o título “Moi qui t’Aimais”/2025, pela perspectiva de Simone. A cinebiografia teve exibições de pré-estreia no “Festival de Cinema Francês do Brasil” (dezembro/2025).
“Eu, Que Te Amei”, verso de um dos sucessos de Montand, “Les Feuilles Mortes”, apresenta a atriz Signoret (1921-1985) e o cantor e ator Montand (1921-1991), interpretados pelos atores Marine Foïs (francesa) e Roschdy Zem (franco-marroquino). A escolha dos intérpretes é controversa, contudo funciona bem, exceto para os franceses, o que é compreensível.
O filme teve locações representativas da atmosfera boêmia e glamourosa de Paris e outros cenários europeus associados ao casal.
Montand, nascido Ivo Livi, em Monsummano (Itália), em uma “família judia antifascista”, migrou para o subúrbio empobrecido de Marselha e amealhou profissões humildes até alcançar a fama, como cantor. Signoret, nascida Simone Kaminker (Alemanha), também era oriunda de uma família judia. Ambos pertenciam à militância de esquerda, sendo uma referência política nas décadas de 1960-70, na França. Enfrentaram a censura e tiveram vistos recusados para entrar nos EUA, durante o macarthismo (anos de 1950), justo pelo seu posicionamento político progressista.
Contudo, o longa não se detém na orientação ideológica do casal, mas nas traições de Yves e no sofrimento resignado de Simone. Para a “Revista de Cinema”, a opção de Kurys em se deter “no terreno das dores amorosas” e no “excesso de preocupação com os sumiços e traições de Montand”, diz muito sobre “air du temps”. Ou seja, do contexto social vigente, com considerável desinteresse por temas políticos. Embora se trate de uma cinebiografia, diz muito dos tempos atuais, pela escolha da narrativa. Nada disso, porém, compromete a relevância artística do casal, de alcance mundial.

Signoret amava Montand, que “a amava mais do que as outras”. O ator/cantor – dentre outras – teve um caso com Marilyn Monroe e um filho com uma mulher mais jovem. Enquanto isso, a atriz alternava o amargor do whisky e a acidez do vinho, entrecortados pelo cigarro. No entanto, segundo Kurys, “um não podia viver sem o outro”.
O casal morou em locais icônicos da França: 1) Em Saint-Paul-de-Vence; 2) Na Place Dauphine, uma ilha histórica no Rio Sena; 3) Na casa de campo em Autheuil-Authouille (Normandia), cerca de 90 km de Paris. Neste local, os artistas passam a maior parte do filme. Ali recebiam figuras proeminentes da classe artística, intelectuais, bem como figuras ligadas ao Partido Comunista Francês (PCF). Sintetizando, o local era o preferido do casal, que ali estudava roteiros e ensaiava textos.
Signoret levaria o Oscar de Melhor Atriz (1960), pela atuação em “Almas em Leilão”. Obteve o César (o Oscar francês) de melhor atriz, pelo desempenho em “A Vida à sua Frente” (1977). Montand não estava presente na cerimônia de premiação. Tratava-se do período mais conturbado na vida do casal.
Embora a diretora tenha optado por uma narrativa livre da vida desses ícones do cinema, está tudo referenciado em sua narrativa, que retrata as décadas de 1950/1980 do casal. Ou seja, a maturidade de Signoret, mais reclusa nesse período.
O filme comove, instiga e revisita um dos relacionamentos mais complexos do cinema!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.





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