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Um conto de ambição – por Bianca Zasso

foto biancaO cineasta japonês Kenji Mizoguchi seguiu a linha de muitos artistas e usou suas dores e traumas como fonte de inspiração para criar histórias belas e ao mesmo tempo dolorosas. Com uma infância e uma juventude complicadas, Mizoguchi criou obras importantes para o cinema e que conseguem tratar de temas universais sem perder as características típicas da cultura japonesa. Para uma parcela do povo ocidental, que ainda acredita na lenda de que os filmes do Oriente são complicados demais, vale a pena iniciar uma trajetória cinematográfica pela obra de Mizoguchi para mudar esse pensamento.

Contos da lua vaga, longa de 1953, é uma de suas obras mais conhecidas e comentadas. Não é para menos. Mizoguchi se valeu de uma fábula ambientada no século XVI, um dos períodos mais sangrentos da guerra civil japonesa, e que tem como protagonistas dois amigos, Genjuro e Tobei, moradores de uma comunidade que tem como principal fonte de renda a agricultura. Enquanto Tobei quer tornar-se samurai mesmo sem ter nenhuma habilidade com espadas, Genjuro tenta dar um futuro melhor para sua família fabricando e vendendo cerâmicas. Com a guerra, as vendas aumentam e, junto com elas, a ambição de Genjuro. De marido dedicado e pai atencioso ele passa a ser um comerciante que só pensa em ganhar mais e mais dinheiro com o movimento causado pelo conflito em seu país.

Esse desejo de enriquecer acaba ganhando ainda mais força quando ele conhece Lady Wakasa, uma misteriosa mulher que, na verdade, não passa de um espírito que não consegue deixar o mundo dos vivos por não ter vivido um grande amor. Genjuro experimenta prazeres e vaidades com os quais jamais sonhou enquanto sua esposa e seu filho sofrem nas mãos dos sádicos soldados que invadem sua casa. Sua alma ambiciosa passa por cima de tudo e ele sofre, cego de paixão por um fantasma carente que em nada lembra a sua amorosa e submissa esposa, abandonada a própria sorte com um filho nos braços.

Contos da lua vaga vai além do cinema fantástico e aproxima a obra de Mizoguchi tanto do realismo mágico imortalizado pelo diretor italiano Federico Fellini quanto dos filmes de terror japoneses, que costumam ter como bases tradições e lendas do período feudal nipônico. A delicadeza com que o diretor explora a paisagem, transformando-a num reflexo da alma dos personagens é apenas um dos pontos altos do filme. O que poderia ter se tornado uma sucessão de efeitos especiais ou simplesmente uma trama sobre fantasmas que atormentam os vivos, tornou-se um conto sobre ganância com um toque surreal. Aliás, todos sabemos que até a mais comum das existências tem seus momentos inexplicáveis.

Mesmo sendo um dos mestres na arte das imagens, Kenji Mizoguchi foi um homem preocupado com os sentimentos, desde os mais simples até os que nem Freud explica. Seu toque humano e doce mesmo nas cenas mais intensas e violentas é uma marca que ninguém esquece. E pode ser a porta de entrada para quem acha que filme japonês não é para qualquer público. Acredite, é tudo uma questão de se deixar levar pelas sequências. Sinta e entregue-se. Todo mundo entende, tendo olhos puxados ou não.

Contos da lua vaga (Ugetsu monogatari)

Direção: Kenji Mizoguchi

Ano: 1953

Disponível em DVD

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