A bolha invisível (e prejudicial) das redes – por Leonardo Foletto

Eli Parisier foi um dos fundadores da Avaaz, um dos mais conhecidos site de petições online no mundo, e diretor executivo do portal MoveOn, portal de ativismo e política nos Estados Unidos. Mas está aqui por conta de ter escrito um livro que vem bem a calhar em tempos de hiperconectividade: “O Filtro Invisível”, editado no Brasil em 2012 pela editora Zahar. Além de transformar o autor num dos palestrantes mais populares do mundo da tecnologia, o livro provocou um debate intenso nas redes sociais e inspirou pequenas mudanças no sistema de buscas do Google. Mas do que se trata?

“O filtro” defende a tese de que com a crescente utilização de algoritmos para personalização, a internet está se enclausurando em “bolhas” de interesse individual. Quando deixamos de seguir alguém que discordamos frontalmente, ou “curtimos” mais posts de pessoas que tratam de defender as minorias, para ficar no exemplo do Facebook, os cálculos do algoritmo da rede passam a mostrar mais ainda estes conteúdos/pessoas, “escondendo” aquilo (ou aqueles) que discordamos. Isso se dá por questões de mercado: quanto mais souber dos produtos, serviços e interesses de seus usuários – em suma, quanto mais personalizada for a informação – mais estas redes vão vender anúncios. Consequentemente, maior será a chance de compra dos produtos oferecidos. E assim a roda gira pra todos: as grandes empresas digitais (sobretudo Google e Facebook) ganham mais dinheiro com os anúncios, os patrocinadores vendem mais seus produtos, e os usuários ganham a chance de encontrar (e consumir) produtos mais próximos de seus interesses.

Se estamos logados no navegador Google Chrome, nossas buscam no Google nos direcionam para assuntos que temos mais interesse, e assim conseguimos acionar conteúdos de maneira mais rápida – afinal, o Google sabe o que você costuma procurar na internet porque tem acesso ao seu histórico e por que dá prioridade ao que nossos amigos no Google + (a rede do Google que, se você tem um Gmail, está nela, sabendo ou não disso) estão compartilhando. Se 300 de nossos amigos curtem uma página no Facebook, será essa página que terá um anúncio na sua timeline, e não aquela que nenhum amigo curte. É o predomínio da personalização sobre a diversidade: ficamos preso na bolha dos nossos amigos, ou daqueles que compartilham de uma mesma ideologia de vida e um mesmo direcionamento político/estético.

Lembrei do livro de Parisier já na noite de domingo, quando a ressaca da “festa de democracia” começou a bater nas minhas redes (sobretudo Facebook e Twitter). Depois das 19h30, uma onda estupefata de posts surgiram, boa parte deles se perguntando: “mas são estes os vencedores das eleições? Na minha timeline eles jamais ganhariam um voto sequer!” Nomes como Jair Bolsonaro, Luis Carlos Heinze, Marco Feliciano, Celso Russomano – todos com casos conhecidos de preconceitos contra minorias e, por conta disso, execrados pela timeline dos meus amigos – estiveram entre os mais votados entre os candidatos a deputados federais em Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, respectivamente. Como explicar? É a bolha.

O caso mais exemplar pra mim dessa situação é o da reeleição de Geraldo Alckmin pra governador de São Paulo. Morei 3 anos na cidade, tenho diversos amigos com quem convivo – no momento, por questões de distância, mais na rede do que presencialmente. 100% de meus amigos de São Paulo eram contrários à reeleição de Alckmin, por questões relacionadas a truculência da polícia paulistana, a que mais mata no Brasil, a denúncia da formação de cartel na licitação do metrô, e, ultimamente, pela crise da água na Cantareira, que fez até a supostamente “neutra” Folha de S. Paulo escrever um editorial criticando o governador pela omissão no caso. Pois bem: nem todas essas informações foram suficientes para reverter o quadro de reeleição de Alckmin no primeiro turno, com consideráveis 57% dos votos. Toda minha timeline de SP explodiu: “mas como? Ninguém que eu conheço votou no Alckmin”. Será que meus amigos não andam nas ruas e são muito alienados ou é a bolha digital atacando novamente, mostrando na rede só aqueles com quem se concorda e silenciando aqueles que discordam, com a concordância de cada um que “não segue” mais o amigo que tem opinião política divergente? Vou da 2º opção, até porque não lembro de ter algum amigo milionário que não ande periodicamente de metrô, trem, ônibus, a pé…

Pablo Ortellado, professor da USP e filósofo dos mais ativos na rede, explica a questão: “Nos habituamos muito rapidamente a essa nova realidade social: a divergência intransponível. A lógica das redes sociais já é a da interação entre comunidades homogêneas — e mesmo neste ambiente desprovido de pluralidade, encontramos grande dificuldade em nos engajar em interações com os divergentes”. Se já não conseguíamos dialogar racionalmente com o do “outro lado” numa discussão na rua, imagina agora, que as redes sociais e seus algoritmos têm potencializado ainda mais nossa falta de capacidade de entender e argumentar politicamente ao nos relegar a “filtros invisíveis” onde todos concordam conosco, compartilham das mesmas ideias, candidatos e experiências.

O resultado desse comportamento foi mostrado na urna e causou a surpresa de muitos: um aumento de militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos conservadores entre os candidatos eleitos, fazendo com que o Congresso eleito em 2014 seja o mais conservador desde 1964, segundo a análise do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) em matéria publicada no Estadão. Candidatos que, por demonstrarem abertamente seu preconceito e muitas vezes não conseguirem promover o embate de ideias sobre alguns assuntos, foram limados do debate em certas “bolhas” progressistas – da qual a deste escriba se inclui – que defendem a legalização do aborto, as causas LGBT e a descriminalização das drogas. Seria falta de persistência e/ou tolerância dos que defendem estas causas em argumentar com o outro lado?

Por ora não há respostas, só perguntas. As explicações pra essa retomada conservadora do Congresso vão render muita conversa nos próximos meses e anos, e ainda vão depender do 2º turno, sobretudo o da disputa presidencial. Aguardemos, de preferência fora das bolhas.



2 comentários

  1. Anderson Ribeiro

    Assusta-me a ideia 'da bolha', mesmo sabendo que está muito mais difícil de conversar sobre assuntos que divergimos por aí. E se temos 'medo da violência' (não necessariamente física), em casos de hostilidade a recepção de uma outra visão por não fazermos parte 'da bolha', não haverá amadurecimento do debate e nunca cresceremos. Parabéns pelo texto.

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