Ética? Pfff… No caso Isabella, mídia já fez a sua justiça, condenando o pai e a madrasta
Outro dia, a colega (e psicóloga) Luciana Denardin, perguntava-me, cheia de compreensíveis dúvidas, sobre o caso da menina Isabella, de 5 anos, que morreu em São Paulo e que coloca, sob o foco da mídia (e também da polícia) o pai e a madrasta. Disse, objetivamente: não acredito que ambos sejam responsáveis pela morte da menina.
Isso, porém, importa pouco, neste momento. Tanto um quanto outro estão condenados, mesmo que, ao final do processo judicial (se houver um) sejam absolvidos. E quem os condenou? Não, não foi um júri, mas a mídia. Não estaremos aí diante de um novo assassinato em vida perpretado pelos veículos de comunicação?
Quem reflete isso, e é exatamente o que penso, é Luiz Antonio Magalhães, em artigo avaliando o comportamento da mídia – publicado no sítio especializado Observatório da Imprensa. Vale a pena conferir, a seguir:
JORNALISMO POLICIAL – O caso Isabella Nardoni é uma nova Escola Base?
O episódio da morte da menina Isabella Oliveira Nardoni, de 5 anos, que está comovendo o país, e é um desses casos policiais repletos de mistérios e que pode até ter um final surpreendente. A partir da história contada pelo pai e pela madrasta da menina à polícia, as suspeitas se voltaram justamente contra o casal, especialmente o pai: segundo o relato, ele teria subido para o apartamento com Isabella já adormecida, colocado ela na cama, trancado a porta e retornado para a garagem a fim de ajudar sua mulher a subir com os dois filhos do casal, meio-irmãos da garota. Quando enfim os dois voltaram ao apartamento com as crianças, a porta estaria aberta, a luz do quarto dos irmãos de Isabella acesa, e a rede de proteção, cortada. Por ali a menina teria sido jogada para a morte.
Uma série de indícios, porém, colocaram em xeque a versão do pai e da madrasta: havia vestígios de sangue no apartamento, Isabella parece ter morrido por asfixia e quebrou apenas um pulso na queda. Há também o relato de vizinhos que teriam ouvido a menina gritar “Pára, pai! Pára, pai!”. Tudo isto deu motivo para que uma delegada que acompanha o caso tenha chamado o pai de Isabella de assassino na saída do depoimento à polícia. Segundo informação publicada nos jornais, há entre os investigadores quem acredite que Isabella sequer foi jogada pela janela.
A soma dos indícios sem dúvida pode levar o público a desconfiar da história contada pelo pai e pela madrasta da criança morta, mas não pode de maneira alguma permitir que os responsáveis pela publicação das reportagens sobre o caso tratem o casal como culpados ou mesmo suspeitos em um momento tão inicial das investigações.
Condenado a priori
Quando estourou o caso da Escola Base, hoje um exemplo estudado nas faculdades sobre o que não deve ser feito em matéria de jornalismo policial, um único jornal desconfiou da história e se recusou a dar uma linha sobre a cascata. Quando o caso foi elucidado e a inocência dos donos da escola restou provada, houve quem sugerisse que o hoje extinto Diário Popular recebesse, naquele ano, o Prêmio Esso de jornalismo pela não publicação das matérias.
Tempos depois, o Diário Popular foi vendido para as Organizações Globo e mudou de nome para Diário de S.Paulo. Pelo visto, mudou também de caráter: a primeira página reproduzida aqui, da edição de terça-feira (1/4), configura um verdadeiro crime contra o bom jornalismo. Não se trata aqui de defender o pai de Isabella – ele pode até ser culpado pela morte da filha – mas de constatar que a capa do Diário fere os princípios mais básicos da ética jornalística e da presunção da inocência…
SUGESTÃO DE LEITURA – confira aqui o artigo JORNALISMO POLICIAL – O caso Isabella Nardoni é uma nova Escola Base?, de Luiz Antonio Magalhães, no sítio especializado Observatório da Imprensa.





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