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Audácia dos moradores do Complexo do Alemão – por Liliana de Oliveira

Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, 02 de abril de 2015. Um menino de 10 anos chamado Eduardo de Jesus Ferreira brincava com seu celular numa escadaria da comunidade quando foi alvo de um tiro de fuzil na cabeça, durante a operação do Batalhão de Choque da Polícia Militar na região. Parentes e membros da comunidade afirmaram que quando a criança foi atingida não havia tiroteio e que o celular em sua mão teria sido confundido com uma pistola. Numa Quinta-feira Santa o menino de sobrenome Jesus teria cometido o crime de brincar com seu celular.

Os moradores do Complexo do Alemão protestaram na Sexta-feira Santa (03.04) contra a morte do garoto. Garoto que foi a quarta vítima de tiroteio na região em pouco mais de 24 horas. Protestaram contra aquilo que entenderam ser uma violência. Protestaram com lençóis brancos e cartazes, homens, mulheres e crianças interditaram a estrada do Itararé, uma das principais entradas da comunidade, para pedir paz e criticar a atuação da Polícia Militar no conjunto de favelas. Os lençóis brancos indicando um pedido de trégua e de paz não foram compreendidos pelos agentes do Estado.

O protesto foi reprimido pelos mais de 200 policiais que reforçavam a segurança no Alemão com bombas de gás lacrimogêneo. Policiais militares dispararam spray de gás de pimenta da direção dos moradores do Complexo do Alemão que tiveram a audácia de escrever cartazes e levantar lençóis brancos. Lençóis brancos que se opunham a violência do fuzil usado por agentes do estado e pagos com dinheiro público. Audácia de cidadãos que levantaram cartazes dizendo que mereciam viver sem medo de morrer. Audácia de cidadãos marginalizados que são aviltados nos seus direitos mais elementares cotidianamente. Audácia de cidadãos que lamentam que a cidadania não seja ampla ao permitir que as mortes cometidas nas favelas sejam meras estatísticas. Audácia de cidadãos que não são reconhecidos pelo Estado como merecedores de políticas públicas que garantam e protejam a vida.

Se os lençóis eram brancos, aqueles que as levantaram eram em sua maioria negros. Negros que alegaram que as forças de segurança foram violentas. Violência que demanda mais violência, segundo o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, que declarou que o Complexo do Alemão voltará a ser ocupado pela política de pacificação da Polícia Militar. De acordo com ele, o Estado reforçar a presença dos policiais no Alemão é garantia de paz. A comunidade alegando violência cometida pela polícia e pedindo paz e o Estado declarando guerra.

Um Estado que deveria ser laico, mas que é majoritariamente católico e que numa Quinta-feira Santa assassina brutalmente um menino de sobrenome Jesus e ataca com violência àqueles que clamam por paz precisa ser revisto. Se há uma força divina, creio que devamos pedir para que tenha piedade de nós. Não havendo força divina, devemos pedir para que o Estado tenha piedade de nós!

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2 Comentários

  1. Morrem mais de 50 mil pessoas assassinadas no Brasil anualmente. Menos de 8% são apuradas, o número de condenações é menor ainda. Acidentes de carro? Perto de 60 mil. Como dizia Stálin, uma morte é uma tragédia, um milhão é estatística.
    Os direitos humanos foram totalmente desmoralizados no Brasil. A causa é bastante evidente: na ideologia dos atuais ocupantes do governo federal, os direitos humanos têm clientes preferenciais. Alguns são "mais humanos" do que os outros. Quando matarem um policial no RJ ou algum membro da classe média sofrer latrocínio, o Pimenta vai aparecer por lá também?
    O assunto "Rio de Janeiro" também é algo que salta aos olhos. Qual o motivo de tanto destaque só para os problemas que lá acontecem? No resto do Brasil a rede Globo é mais fraca?
    A morte do garoto é lamentável, sem dúvida. Quanto a PM, nunca vi algo com "militar" no nome com tanto poder de discricionariedade. E o secretário de segurança bam bam bam, onde está?
    Chega a hora de endereçar os lugares comuns. Falaram por aí numa rádio que alguns moradores da favela "se revoltam" por não poderem consumir e aderem ao tráfico. Como se fosse justificativa. Alás, o tráfico é o grande ausente do texto acima. Os policiais não entraram no Complexo porque estavam sem o que fazer. E não portavam fuzis porque gostam de carregar peso. Se o policial confundiu um celular na mão de um garoto com uma arma é porque um menino com uma arma na mão naquele local não seria nenhum absurdo. Mas isto não parece importar.
    Chegamos ao anticlericalismo. Meio gratuito no caso. Primeiro porque o Estado não é uma entidade etérea que flutua entre o céu e a terra. É constituído por pessoas. Segundo porque o Estado brasileiro finge que é laico e a maioria da população finge que é católica. Mas isto é outro assunto.
    Lembrando a Semana Santa e dos crucificadores que debochavam de Jesus perguntando porque ele não descia da cruz se era filho de Deus, não sei porque me veio a memória a escola que ficou fechada em SM por falta de segurança. Como será que está?

  2. Olá, O Brando!
    Quando falamos de direitos humanos estamos falando de direitos fundamentais que são herdeiros da Declaração do Direito do homem e do cidadão. Direitos que devem ser amplamente defendidos se queremos construir uma sociedade civilizada. Quanto ao governo se colocar ao lado daqueles que mais precisam, ou seja, daqueles que
    estão à margem acho importantíssimo. Afinal, um governo democrático governa para o 'demos", para o povo, para a maioria. E a maioria é desassistida. Assim, quando Paulo Pimenta vai ao Complexo do Alemão prestar solidariedade acho digno. Ainda que entenda que precisamos de muito mais garantias por parte do governo do que prestar solidariedade como fez a presidente Dilma e o Paulo Pimenta.
    Falamos do RJ ou de SP porque são grandes centros, com altos índices de violência e visibilidade. Mas é evidente que a violência está disseminada pelo país. Usamos exemplos de repercussão nacional para que possamos tornar visível um problema social.
    Diferente de você não naturalizo um menino de 10 anos ter sido morto e não acho que a PM ter confundido brinquedo com arma possa ser explicado de modo tão simples e aligeirado como o faz. Entendo que os agentes de estado são servidores pagos com dinheiro público que devem zelar pela segurança, pela vida e pela paz. Infelizmente vemos exemplos (evidentemente que não podemos generalizar)de policiais que sobem no morro para matar. Talvez por isso a população não fique do lado deles, pois se sente ameaça e violada cotidianamente.Mas o Estado não se justifica por que nos protege?
    Me preocupa a escola aqui em Santa Maria, o Complexo do Alemão, o menino de 10 anos, os negros assassinados,etc. e tudo aquilo que fere a dignidade humana. Prefiro acreditar que é possível construir uma sociedade mais justa e igualitária!

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