‘Inovando’ no turismo e nos call centers – por Luciana Manica

Quando li que Portugal pretendia intensificar a inovação no ramo do turismo e outra chamada me remetia para inovação em call centers, pensei: pra mim turismo era conhecer o “novo”, aos olhos de quem vê, digo, seja aprofundar um tema cultural, histórico, conhecer paisagens, lugares, gastronomia, etc. Ok, tem o turismo erótico e exótico, mas enfim, o que é mais que podem inovar no turismo?, me perguntei.

Já em call centers pensei, aleluia, será que se deram conta que usar o gerúndio é chato pra cara*, ops, pra quem ouve?! Tomara que inovem, abolindo-o, quem sabe do alfabeto, pois temos sido massacrados há anos com esse raio de tempo verbal pelo telemarketing.

Na verdade, essas empresas fazem uso do tal gerundismo (e não do real gerúndio), que é um vício de linguagem, um modismo, e usam erroneamente a forma nominal gerúndio. É o velho: “vou estar entrando em contato”, mas a pessoa simplesmente ignorou seu pedido, ou ainda,  “vou estar resolvendo seu problema”, que sabemos, para piorar, nunca é resolvido!!!

Portanto, afora usarem equivocadamente a expressão, na tentativa de reforçar uma ideia de continuidade de um verbo no futuro, acabam complicando o que já é suficientemente complicado, e o que antes podia ser dito de maneira mais econômica e direta, como “não estou nem aí para a sua reclamação” foi substituído por uma intrincada estrutura que prefere utilizar três verbos a apenas um ou dois, afora lhe fazer perder tempo e lhe irritar ao telefone.

Então, se houver inovação em call centers, que seja um NÃO ao gerundismo, por favor! Ok, mas até aí nem li a reportagem que me chamou a atenção; vamos ao que realmente se propõe de inovação no turismo e em call centers.

No turismo, a secretária de Estado do Turismo de Portugal, Ana Mendes Godinho, disse pretender criar em 2017 um centro de inovação para o turismo com todos os “players” (intervenientes) do setor para “quebrar muros” e “incendiar a inovação”. Uau, parece interessante. Mas explica, por favor!

Para Godinho, “incendiar a inovação” se deve entender como “forçar cada vez mais a ligação entre a indústria tradicional de turismo e as ‘startups’ (empresas em início de atividade) de turismo, os novos negócios que estão a surgir, permitindo que a indústria tradicional tenha resposta às suas necessidades de inovação (…), mas onde também as ‘startups’ encontrem espaço para crescer e se afirmarem no mercado”.

Para ela, deve haver “uma parceria entre Turismo de Portugal, entre associações empresariais, entre empresas de tecnologia, entre transportadoras aéreas, entre o sistema financeiro, no sentido de quebrar os tais muros que ainda existem muitas vezes entre as várias áreas e criar um espaço para incendiar a inovação”.

Em suma, com o perdão da análise, por mais que possa estar correta, a inovação proposta não se restringe ao turismo em si, mas tudo o que abarca, ou seja: infraestrutura, gestão, transporte, o que é bem mais complexo e difícil para replicarmos aqui!

Já nos call centers há um destaque que o futuro do atendimento no mundo é fazer com que o telefone seja substituído por outras formas de contato. Se for para não ouvir o gerundismo, amém! Mas resumidamente, tudo o que se inovou nos atendimentos, uso de chats, internet, redes sociais, computador, permitindo o autoatendimento por vezes não estão funcionando porque as empresas não estão preparadas para oferecer tal tecnologia, ahhhhhf.

Certamente isso gera mais irritação ao consumidor, pois além dele perder tempo tentando “se auto solucionar”, ao fim e ao cabo terá que fazer uma chamada para, advinha, ser recepcionado pelo senhor gerundismo; tenha santa paciência!! Ocorreu comigo ontem no Tribunal de Justiça do RS. Parece que fazem questão do site não ser intuitivo. Para agendar uma simples sustentação oral, tive que passar por cinco ligações telefônicas e diversas musiquinhas nada agradáveis até ser atendida.

Resumo: esse texto está ficando comprido demais, e não tem nada de inovação. Para estarmos inovando, rsrsrs, proponho uma extinção ao gerundismo e músicas de acordo com o gosto do freguês na espera de atendimento: para samba, aperte 1; para rock, aperte 2, para MPB, aperte 3; para sertanejo, aperte 4. Ok, realmente, tem gosto pra tudo! No turismo, em terra brasilis, continuemos com nosso jeito tupiniquim. Ainda mais com a crise, o negócio é armar a barraca no pátio de casa, aproveitar as sangas, e abrir uma gelada; do contrário, além da conta sair alta, é capaz do voo atrasar, do show cancelar, mas a festa tem que continuar!!



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