O sentido da vida em um mundo que mudou em oitenta anos – por José Renato Ferraz da Silveira
“Paradoxalmente, nunca houve tanta ansiedade, solidão e sensação de vazio”

Há uma reflexão do comediante britânico Jimmy Carr que merece ser levada a sério. Para ele, o sentido da vida é simples: aproveitar a passagem do tempo. Não porque tudo seja fácil ou porque a felicidade seja permanente, mas porque o fato de existirmos já é, por si só, uma improbabilidade extraordinária.
Em um mundo acostumado a buscar respostas grandiosas, talvez a maior delas esteja justamente naquilo que fazemos todos os dias: respirar, amar, aprender, trabalhar, envelhecer e seguir em frente.
Carr lembra que uma vida confortável não produz, necessariamente, pessoas mais felizes. Ao contrário, vivemos uma curiosa “dismorfia da vida”: cercados por confortos que nossos avós jamais imaginaram possuir, somos frequentemente incapazes de perceber a dimensão do privilégio de estarmos vivos. A comparação permanente, amplificada pelas redes sociais, nos faz esquecer aquilo que deveria ser motivo de gratidão cotidiana.
Essa reflexão ganha ainda mais força quando observamos a velocidade com que o mundo mudou.
Em apenas oitenta anos, a humanidade saiu das ruínas da Segunda Guerra Mundial para a era da inteligência artificial. O rádio deu lugar aos smartphones. Cartas foram substituídas por mensagens instantâneas. O conhecimento, antes restrito às bibliotecas, hoje cabe no bolso de qualquer estudante.
A medicina prolongou a expectativa de vida. A população mundial mais que triplicou. Novas nações surgiram, impérios desapareceram, a Guerra Fria terminou, a internet transformou a economia, e agora a inteligência artificial inaugura uma nova revolução tecnológica cujos limites ainda desconhecemos.
Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca viajamos tanto. Nunca produzimos tanta riqueza. E, paradoxalmente, nunca houve tanta ansiedade, solidão e sensação de vazio.
Talvez porque confundimos progresso tecnológico com progresso humano.
As máquinas evoluíram numa velocidade impressionante. Mas o coração humano continua enfrentando os mesmos desafios de sempre: o medo, a perda, a esperança, o amor, a finitude e a busca por significado.
O verdadeiro sentido da vida talvez não esteja em controlar o futuro nem em lamentar o passado. Está em reconhecer o valor do presente.
Afinal, somos a primeira geração a conversar com inteligências artificiais e, ao mesmo tempo, continuamos sendo a mesma espécie que, desde sempre, procura responder às perguntas fundamentais: quem somos, por que estamos aqui e o que vale realmente a pena.
Se Jimmy Carr estiver certo, talvez a resposta seja menos complicada do que imaginamos.
O sentido da vida não é vencer uma corrida impossível.
É perceber que o maior presente foi, simplesmente, termos recebido a oportunidade de participar dela.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria-UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Especialista em Humanidades pela PUC-RS. Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduado em História pela Ulbra-RS.





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