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Flávio versus Lula é a guerra de versões do desfile da Acadêmicos de Niterói – por Carlos Wagner

Considerando o potencial que tinha para dar um “grande rolo”, até que saiu barato o tamanho do desgaste provocado na candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, a homenagem que recebeu da escola de samba Acadêmicos de Niterói, na noite de domingo (15), no sambódromo da Marquês do Sapucaí, no Rio de Janeiro (RJ). O enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o operário do Brasil” contou a história da família e da carreira política de Lula. Antes do desfile, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou dois pedidos de liminares dos partidos Novo e Missão, que alegavam que a homenagem era propaganda política. A relatora, a ministra Estela Aranha, 48 anos, disse não era possível deferir o pedido tendo em vista que o fato ainda não tinha acontecido. Mas advertiu que sua decisão não impede que no futuro os ministros possam vir a analisar a conduta dos citados. O governo tomou várias medidas para evitar problemas. Por exemplo, proibiu ministros de participar do desfile, estendendo o veto à primeira-dama Rosângela Lula da Silva, 59 anos, a Janja. O presidente esteve na Sapucaia, mas também visitou outros desfiles de Carnaval pelo país.

Na teoria, todos os arranjos foram feitos para evitar uma ação no TSE pedindo a impugnação da candidatura de Lula por propaganda eleitoral antecipada. Foi o que ouvi de deputados e líderes do PT com quem conversei na terça-feira (17), durante a 48ª Romaria da Terra, no Santuário do Caaró, em Caibaté, pequena cidade agrícola da região das Missões, noroeste do Rio Grande do Sul. Ali, entre o final do século 17 e meados do século 18, jesuítas espanhóis e guaranis fundaram os Sete Povos das Missões, comunidades autônomas, com produção agrícola, pecuária, oficinas artesanais e escolas onde os índios eram alfabetizados e catequizados no catolicismo. A Romaria da Terra é um evento religioso e social anual que defende a reforma agrária e a agricultura familiar. O tema deste ano foi “Os 400 anos de Evangelização Missioneira: Terra sem Males e Ecologia Integral”. Concordei com o que ouvi das lideranças do PT sobre os arranjos para evitar uma possível ação da oposição na Justiça Eleitoral porque assisti ao desfile pela TV e acompanhei pela imprensa toda a história. Na terça-feira, depois de participar da Romaria, percorri 500 quilômetros de volta a Porto Alegre, onde cheguei ao anoitecer. Para minha surpresa, começava a ganhar corpo nas redes sociais e nos noticiários a reação da oposição contra uma das alas que a escola de samba levou para a avenida, chamada “Família em Conserva”, que teria sido ofensiva às famílias da direita e aos evangélicos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, até agora o principal adversário de Lula na corrida presidencial, e seus seguidores batiam forte na tecla do desrespeito aos evangélicos, que representam cerca de 30% do eleitorado. É de conhecimento geral que Lula tem menos votos entre os evangélicos que o pai do senador, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. Preso em uma cela na “Papudinha”, uma unidade prisional que fica dentro do 19° Batalhão de Polícia Militar, no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF), onde cumpre uma pena de 27 anos por ter comandado uma organização criminosa que tentou dar um golpe de estado, o ex-presidente transferiu o seu legado político para Flávio. Acompanhei por algumas horas os noticiários e cheguei à conclusão que a história da “família em conserva” era “fogo de palha” e não se sustentaria por muito tempo. Principalmente porque Lula era convidado da escola, não tinha ingerência no enredo.

Cansado da viagem, fui dormir. Na manhã seguinte (quarta-feira, 18 ), descobri que estava enganado com o vigor da notícia. A história continuava ocupando espaço nobre dos noticiários. Lá pelo meio-dia a ideia que se tinha era de que Lula tinha sido engolido pelo episódio. Liguei para um amigo e repórter de São Paulo para ouvir a opinião dele. “Lembra dos plantões nos feriadões no teu tempo de redação?”, ele começou. “Era um desespero encher o jornal do dia seguinte porque nada acontecia. Agora, imagina: naquele tempo, nós só tínhamos a edição do próximo dia para preencher. Hoje, os plantonistas precisam ter matérias em cinco ou seis plataformas de comunicação que operam online. Em parte, essa repercussão deve-se ao desespero dos colegas em conseguir assunto para publicar. Tem que deixar a poeira baixar para saber exatamente o que aconteceu e o potencial que tem para causar problemas para Lula na campanha eleitoral”. Ele tem razão. Trabalhei em redação de 1979 a 2014. Lembro-me que, à medida que a digitalização avançava nos jornais, surgiam mais e mais plataformas que precisavam de manchetes e matérias. Agora, há um detalhe neste episódio que merece toda a nossa atenção. A estrutura de comunicação da oposição está organizada e trabalhando. Por que faço tal afirmação? Eles apostaram que Lula ia se complicar e deixar “uma bola picando” com a questão da propaganda eleitoral antecipada. Isso não aconteceu. Então ficaram atentos a outras oportunidades de complicar a vida de Lula e encontraram a história da “família em conserva”. Este caso ficou ocupando os espaços nobres dos noticiários até o final da tarde de quarta-feira, quando saíram os resultados da apuração dos desfiles das escolas da samba do Rio de Janeiro. Ganhou a Unidos do Viradouro. Este era o desfile de estreia da Acadêmicos de Niterói entre as escolas do Primeiro Grupo. Ela ficou em último lugar e foi rebaixada para o Segundo Grupo. Os bolsonaristas aproveitaram a derrota da escola para colar em Lula o título de “pé-frio”. O governo justificou que, das escolas que sobem para o Primeiro Grupo, 75% voltam para o Segundo Grupo. Por vários motivos, entre eles a falta de estrutura.

Antes de arrematar a nossa conversa, uma ironia da história. O construtor do sambódromo da Sapucaí foi o gaúcho Leonel Brizola (1922 – 2004), durante o seu primeiro mandato como governador do Rio de Janeiro (1983 a 1987; ele voltaria a governar o Rio entre 1991 e 1994). No segundo turno das eleições presidenciais de 1989, Brizola, que era mestre em colocar apelidos, anunciou o seu apoio a Lula, que concorria contra Fernando Collor de Mello, da seguinte forma: “Vou engolir o Sapo Barbudo”. Collor ganhou as eleições, e Lula, o apelido pelo qual, por muitos anos, foi lembrado por amigos e adversários. À sua maneira, Brizola e Lula eram “camaradas”. Collor também ganhou um apelido de Brizola naquela companha de 1989: “Filhote da Ditadura”. A máquina bolsonarista para publicar nas redes a sua versão dos acontecimentos sempre foi mais ágil e eficiente que a dos seus adversários, em especial o PT. Lembro o leitor que durante o governo Bolsonaro (2019 – 2022) funcionava no Palácio do Planalto uma central de fake news muito eficiente que foi apelidada pela imprensa de Gabinete do Ódio. A crença entre os jornalistas é que o Gabinete do Ódio voltou a operar. As eleições são em outubro: no dia 4, o primeiro turno, e no dia 25, o segundo. Até lá, muitos “rolos” vão acontecer. Mas serão aqueles rolos que acontecerem às vésperas das eleições que definirão quem será o próximo presidente do Brasil. Porque os eleitores que decidem as eleições escolhem em quem vão votar a caminho da urna.

PARA LER NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 75 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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21 Comentários

  1. Resumo da opera II. Saber quando uma idéia ‘genial’ é uma tremenda c@g@d@, bastante dificil para quem teve a dita cuja. Nada impede que outras surjam no meio do caminho. Alas, é quase certo que acontecerão. Cavalistas colocam a conta da derrota eleitoral em Zambelli que saiu correndo armada atras de um sujeito em SP. Porque a votação do Cavalão foi até maior no Nordeste, mas foi menor em SP. O imponderável também vota.

  2. Resumo da opera. Desfile todo mundo sabe que vai dar nada. Porém existe o ‘clima’. INSS, Banco Master, barbaridades do Supremo Tribunal Cumpanhero (onde inventaram o foro por prerrogativa de função da ‘vitima’), o desfile, o ‘amigo do amigo do meu pai’ que foi nomeado todos sabem por quem, etc. As coisas vão somando.

  3. ‘ Porque os eleitores que decidem as eleições escolhem em quem vão votar a caminho da urna.’ Chavão. Sem base nenhuma. ‘Sociologia’ de ar condicionado. Folclore. Antigamente as pessoas até juntavam santinhos no chão para votar para vereador (que é sistema proporcional). A atochada aqui é ‘ foi ruim para mim, mas não tem importancia’. Tipo o adulto que tropeça, cai no chão e levanta ligeiro ‘não foi nada’.

  4. ‘Mas serão aqueles rolos que acontecerem às vésperas das eleições que definirão quem será o próximo presidente do Brasil’. Tem muita gente que define antes. Traça cenarios por conta propria e até decide se vai votar em branco e anular dependendo das alternativas.

  5. ‘[…] funcionava no Palácio do Planalto uma central de fake news muito eficiente que foi apelidada pela imprensa de Gabinete do Ódio.’ Propaganda Vermelha que a midia tradicional abraçou e o autor endossa. PT tem os MAVs, Militancia em Ambientes Virtuais. Cursos de capacitação, cursos de comunicação, treinamentos em comunicação digital. Tinham sido repassados a CUT para evitar ‘problemas’. Como o pessoal do partido não está acostumado a pensar sozinho, criatividade é coisa da Globo, andou contratando mercenários digitais, influenciadores. Dinheiro publico sob explicação de que estão la para divulgar ações do governo e defende-lo.

  6. ‘À sua maneira, Brizola e Lula eram “camaradas”.’ Brizola colocou o PDT na Internacional Socialista em 1989. Virou vice-presidente da entidade. Virou presidente de honra depois.

  7. ‘O construtor do sambódromo da Sapucaí foi o gaúcho Leonel Brizola (1922 – 2004), durante o seu primeiro mandato como governador do Rio de Janeiro (1983 a 1987; ele voltaria a governar o Rio entre 1991 e 1994).’ Um dos maiores responsaveis pelo RJ estar na m. que está hoje. Proibia a policia de subir morro.

  8. ‘Ela ficou em último lugar e foi rebaixada para o Segundo Grupo.’ Ia acontecer de qualquer jeito, não importa o enredo. Como certos times da série B, sobem um ano, voltam e ficam um tempo sem aparecer. Alas, como está o Interzinho?

  9. ‘Eles apostaram que Lula ia se complicar e deixar “uma bola picando” com a questão da propaganda eleitoral antecipada. Isso não aconteceu.’ Obvio que não. Tribunal (7 pessoas) é presidido por Bento Caneiro Vampiro Brasileiro. Rato Rouco empossou dois em agosto do ano passado. Corregedor foi nomeado para o STJ por Dilma, a humilde e capaz. Outro representante do STJ também foi nomeado por ela. Sobraram Nunes Marques e André Mendonça.

  10. ‘Principalmente porque Lula era convidado da escola, não tinha ingerência no enredo.’ Nenhuma novidade, caixa de ressonancia Vermelha. Bota ‘objetividade’ jornalistica nisto. Ainda quer ‘ensinar’ os outros.

  11. ‘Principalmente porque Lula era convidado da escola, não tinha ingerência no enredo’. Para quem acredita nisto tenho um viaduto para vender na BR-158. Vista boa, tem uma curva no meio. Ganja visitou o barracão da escola em outubro de 2025. Avião da FAB. Compromisso fora da agenda. Duas ministras junto. Esteve na escola novamente no inicio do ano. O presidente da escola esteve em BSB pelo menos duas vezes ano passado. Recebeu dinheiro publico para desfilar. Nesta hora algum imbecil larga um ‘as outras também receberam’. Só que as outras não fizeram propaganda eleitoral.

  12. ‘[…] era “fogo de palha” e não se sustentaria por muito tempo.’ Hoje em dia nada se sustenta por muito tempo. Exceção é o Banco Master que está rendendo. INSS quase não se fala mais. Ou seja, diz mais sobre os tempos atuais do que outra coisa.

  13. ‘[…] que teria sido ofensiva às famílias da direita e aos evangélicos.’ E parte dos protestantes e católicos. Não dão bola para a ‘ofensa’, mas sabem que Vermelhos não querem outra estrutura que não seja o Estado. Interessante é que na China culturalmente a familia e a unidade fundamental do Estado. Junto com o Confucionismo. Coisas arraigadas que os Vermelhos tentaram e não conseguiram derrubar. Vide Revolução Cultural.

  14. ‘Concordei com o que ouvi das lideranças do PT sobre os arranjos para evitar uma possível ação da oposição na Justiça Eleitoral porque assisti ao desfile pela TV e acompanhei pela imprensa toda a história.’ Kuakuakuakuakua! ‘Fui com as lideranças do PT numa Romaria’ e iria discordar? Kuakuakuakuakua! Ainda por cima um ‘evitar ação’, ou seja, limitar direito fundamental de acesso ao judiciário? Ato falho?

  15. Da Sapucai o texto vai para comunistas ‘religiosos’ antes da campanha. É Haddad e Manuela Davila indo na missa em Aparecida na eleição de 2018.

  16. ‘ O presidente esteve na Sapucaia, mas também visitou outros desfiles de Carnaval pelo país.’ Mais campanha antecipada com custeio da maquina publica. Rato Rouco está velho e tem que ‘diluir’ as viagens.

  17. ‘Na teoria, todos os arranjos foram feitos para evitar uma ação no TSE pedindo a impugnação da candidatura de Lula por propaganda eleitoral antecipada.’ Establishment tirou da cadeia para poder concorrer. Não iria ser tão obvio.

  18. ‘[…] disse não era possível deferir o pedido tendo em vista que o fato ainda não tinha acontecido.’ Correto, seria censura prévia. Porém o acionamento do judiciário colocou o assunto no radar.

  19. ‘[…] até que saiu barato o tamanho do desgaste provocado na candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), […]’. Baseada em quê esta afirmação? Alas, se objetivo era um ganho e aconteceu uma perda, saiu barato?

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