Números econômicos do governo e seu problema – por José Renato Ferraz da Silveira
Calcanhar de Aquiles do “Lula 3.0” é a dívida pública - que será tema eleitoral

O Brasil se recuperou dos impactos da pandemia sobre os riscos de subnutrição. A parcela da população do país subnutrida ou em risco de subnutrição caiu abaixo de 2,5% no triênio 2022-2024, o que mais uma vez retira o Brasil dos destacados no Mapa da Fome divulgados periodicamente pela ONU. Essa conquista reflete a eficácia de políticas públicas e um esforço contínuo do país para combater a fome e a insegurança alimentar, embora não signifique o fim da fome no país.
Evidente que o triunfo não é definitivo. Voltamos à situação já conhecida desde 2014. Essa marca momentânea de “consertar” a pobreza extrema não elimina os desafios que as políticas social e econômica têm de enfrentar pela frente no país.
De certa forma, o indicador da fome repetiu o padrão global. Houve uma piora durante o período da pandemia de Covid-19 que levou as agruras da má nutrição a 3,4% dos brasileiros no triênio 2019-21. Depois, a melhora foi paulatina e dificultada pela inflação de alimentos que se sucedeu à crise sanitária. No mundo, o percentual saltou de 7,5% em 2019 para 8,8% em 2021, tendo recuado a 8,2% estimados em 2024.
Pois bem, depois de superado o pior do impacto pandêmico, a despesa pública se manteve em expansão nos últimos três anos, pressionando a inflação e os juros do Banco Central – e pondo em sério risco o progresso dos indicadores sociais.
Lembrando que na ofensiva de Jair Bolsonaro (PL) pela reeleição, em 2022, o programa Bolsa Família, então chamado de Auxílio Brasil, teve suas dimensões multiplicadas. Os desembolsos, que historicamente rondavam o equivalente a 0,4% do Produto Interno Bruto, somaram 1,4% em 2024.
O governo eleito de Luiz Inácio de Lula da Silva (PT) não se limitou a manter a ampliação do programa de transferência de renda, o que seria correto. Lula 3.0 promoveu novos gastos permanentes, em particular com a retomada dos reajustes do salário mínimo.
Evidente que toda essa injeção de dinheiro público na atividade econômica trouxe impactos para o aumento do emprego e queda da pobreza. A queda nos níveis de pobreza e extrema pobreza foi notável, com taxas atingindo o menor patamar da série histórica, de acordo com dados do IBGE, mas a desigualdade de renda, embora reduzida, ainda permanece alta.
Há uma preocupação com a estratégia do governo federal de manter os gastos sociais que podem resultar na escalada da dívida pública. O debate sobre a dívida pública poderá ser um dos principais na eleição presidencial de 2026.
Com a inflação controlada (inflação desacelera a 0,09% em outubro, menor patamar em 27 anos para o mês); o desemprego em baixa (a taxa de desemprego no Brasil atingiu 5,6% no trimestre encerrado em setembro de 2025, o menor índice da série histórica desde 2012, segundo o IBGE); redução do dólar em 2025 (a divisa acumula queda de 14,10%); bolsa batendo recordes (Bolsa fecha acima dos 157 mil pontos e bate 12º recorde seguido), o calcanhar de Aquiles na questão econômica do governo Lula 3.0 é a dívida pública.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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