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Espíritos desarmados – por Orlando Fonseca

Para um pacato cidadão como eu, é estarrecedor observar proliferando nas redes sociais um retrocesso quanto ao uso de armas no país. Impulsionados pela proposta de um dos candidatos ao segundo turno presidencial, muitos usuários, que se autodenominam “gente de bem”, aparecem defendendo o uso ostensivo de armas para exercerem o “sagrado direito” de defesa.

Tempos obscuros os que vivemos, em que ao invés de se procurar o convívio saudável e humano, busca-se a ofensiva da discórdia para tornar hegemônica uma ideia. Como se a vida cotidiana neste ex-país-abençoado-por-deus (não creio que Ele tenha alguma coisa ver com o que passou a prosperar por aqui) tivesse se tornado um campo de batalha, um salve-se quem puder, um quem pode mais chora menos, para abusar dos chavões.

Somos um país de índole pacifista. Nossa história testemunha o nosso passado de glórias sem a conquista através da força bélica. Nossos maiores eventos que atestam a soberania e a maioridade nacional foram declarados no grito: independência e república. Houve revoltas, revoluções, como a Farroupilha – que durou dez anos, mas que foi resolvida na base do diálogo -, mas não uma guerra civil que opusesse toda a população.

Passando os olhos pelas letras de hinos pátrios, lembro que o refrão do símbolo português repete: “Às armas, às armas!/Sobre a terra, sobre o mar”, refletindo uma pendenga com os ingleses em 1890. Talvez inspirados por outro hino famoso, A Marselhesa, símbolo oficial francês, composto em 1792, famoso pelos eventos da “revolução francesa”: “Às armas cidadãos!/ Formai vossos batalhões!”

No entanto, o hino nacional brasileiro não fala em armas, a menos que considerássemos a menção a uma “clava forte” como tal. Este primitivo instrumento de luta, evoluído do porrete, chamado pelos indígenas de “tacape”, na letra do símbolo nacional indica uma relação com a “justiça”. E mais, o poeta Joaquim Osório Duque Estrada empregou duas vezes a palavra “amor” e ainda não contente, repetiu-a no plural: “Nossa vida no teu seio mais amores”.

Vivemos nesta Pátria amada, que não se envolve em uma guerra desde a primeira metade do século passado. E assim mesmo foi a participação da FEB, que rendeu mais folclore do que atestado de força militar. As revoluções cessaram ainda na primeira metade do século 20. A guerrilha urbana dos tempos bicudos do regime militar não prosperou – foi sufocada.

Então, por que vemos cenas como a de um eleitor de um certo candidato usando arma para votar? À maneira dos traficantes, agora vemos “homens de bem” manuseando armas de grosso calibre ostensivamente. Ainda no começo deste século, tivemos uma grande campanha de desarmamento, cuja finalidade não era outra senão diminuir o potencial de periculosidade nas mãos dos cidadãos comuns.

Não é possível retirar do imaginário de um certo público a noção de segurança por portar uma arma, sem que se possa garantir que isso efetivamente aconteça. Agora, é fácil de imaginar como seria letal uma arma na mão de um desequilibrado no trânsito, em meio à violência doméstica que tem vitimado mulheres como em nenhum outro país civilizado; em um acesso de fúria ou de depressão.

É preciso diminuir a extensão da miséria, do alcance do tráfico, aumentar o poder da educação e da cultura e as chances de uma vida digna, com as condições de sobrevivência garantida e de vivência estimulada. Não é aumentando o acesso às armas que se vai diminuir a violência, basta ver o que acontece nos EUA, um país onde a educação é universal há várias décadas.

Nesta Pátria amada, a fim de que os filhos desse solo sejam tão amoráveis e gentis, é preciso desarmar os espíritos, antes de armar os cidadãos.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet.

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