CRÔNICA. Gilvan Ribeiro, o ambiente e o mundo que estamos produzindo para entregar às nossas crianças

CRÔNICA. Gilvan Ribeiro, o ambiente e o mundo que estamos produzindo para entregar às nossas crianças

CRÔNICA. Gilvan Ribeiro, o ambiente e o mundo que estamos produzindo para entregar às nossas crianças - gilvan-crônicaAs crianças não são o futuro do mundo

Por GILVAN RIBEIRO (*)

Só existe uma frase que me incomoda mais do que perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer, que é quando nos referimos aos pequenos como sendo eles, o futuro do mundo.

Ainda tocado pela palestra da jornalista Eliane Brum, que tive o privilégio de assistir na última semana aqui em Santa Maria, guardei em minhas anotações algo dito por ela, que se encaixa perfeitamente no meu texto de hoje.

Enquanto falava acerca de sua luta em defesa da Amazônia e do quanto precisamos “acordar” em relação ao aquecimento global, a jornalista mais premiada da história do nosso país foi enfática quando afirmou que “estamos destruindo o mundo dos nossos filhos”.

Foram palavras que me atingiram em cheio, como uma flecha precisamente lançada sobre o peito, que impacta, causa dor e desconforto. O que eu senti tem a ver com o significado prático dessa frase, é claro: estamos destruindo com o mundo. Mas para além disso, fui imediatamente tocado por algo que é inseparável de mim há quase quatro anos, desde que me tornei pai.

Só de imaginar que a minha filha poderá encontrar um mundo com a natureza destruída e sem elementos básicos para a sua sobrevivência, como por exemplo água potável, senti uma angústia que preciso compartilhar.

Eu sei que já existem muitas pessoas conectadas por esta mínima consciência de que precisamos mudar os nossos hábitos, se quisermos preservar a nossa espécie. Mas ainda são poucos, muito poucos. Eu, por exemplo, já consigo separar cotidianamente o lixo orgânico do seco, porém, me vejo tomado por hábitos de consumo – e geração de resíduos – completamente desnecessários. Eu não tenho colaborado para que o mundo da minha própria filha exista no futuro.

O que tudo isso tem a ver com dizer para as crianças que elas são o futuro do mundo? Tudo! Percebam a dupla violência que estamos cometendo com as crianças de hoje e também com as que ainda estão por nascer. Colocamos nelas a responsabilidade de “ser o future” de um mundo que nós estamos destruindo.

As crianças são seres mágicos, dotadas de luz e de uma energia vital incrível. Nós fomos assim um dia, mas nos perdemos no caminho. E hoje, perdidos, colocamos nas crianças a responsabilidade de salvar o mundo, da nossa própria ignorância.

Sem perder o foco, mas indo um pouco além, percebo que muitas vezes delegamos aos nossos filhos, inclusive, a missão nos salvarem das nossas próprias angústias emocionais.

“Hoje eu estava triste e meu filho de cinco anos cuidou de mim”. É óbvio que a vitalidade e alegria de uma criança preenche um lar e potencializa nossa coragem em momentos difíceis. Porém, ser contagiado pela alegria de uma criança é muito diferente do se apoiar e depositar nela, sem filtro nenhum, aquilo que nem você consegue dar conta de carregar.

O mesmo fizemos em relação a todo o resto. As crianças nascem com o dever de salvar o futuro, justamente porque não estamos tendo coragem de encarar e resolver o presente por nós e por elas. Enquanto adultos que dizemos ser, às crianças reservamos a alegria do brincar e do aprender.

Um dia (um pouco a cada dia) teremos, sim, que contar para elas que a vida não é só isso, e que elas precisarão ter muita coragem, força e sabedoria para enfrentarem os desafios da vida adulta. Mas antes disso, temos que nos vestir de maturidade e salvar o mundo das nossas crianças, pois futuro delas e do mundo, cabe a nós garantir.

(*)  GILVAN RIBEIRO, 30 anos, é atleta olímpico e apaixonado pelo jornalismo (cursa o 8º semestre, na UFN) e pela Psicologia (está no 1º semestre, na UFSM). Ele escreve no site sempre aos sábados.  

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A foto que ilustra esta crônica é uma reprodução da Internet.



1 comentário

  1. O Brando

    Kuakuakuakua! Larga um ‘mais premiada do país’ (quase certo que não é) para estabelecer ‘autoridade’. O que a ‘autoridade’ larga? Um chavão mais batido que o chão de galpão da estância.
    Não para por aí, é um encordoamento sem fim de clichês.
    Resumo da história: muita gente preparando os filhos para ‘mudar o mundo’ (ou seja, mais sensível que a geração ‘snowflake’ atual) para viver num mundo que muito mais facilmente pode virar uma distopia.
    Uma pista: não querem colonizar o planeta Marte de graça.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *