É CINEMA. Bianca Zasso e “Homecoming”, em que Beyouncé tratou de fazer algo no mínimo inesquecível

É CINEMA. Bianca Zasso e “Homecoming”, em que Beyouncé tratou de fazer algo no mínimo inesquecível

É CINEMA. Bianca Zasso e “Homecoming”, em que Beyouncé tratou de fazer algo no mínimo inesquecível - bianca-aFesta com conteúdo

Por BIANCA ZASSO (*)

A primeira notícia foi que a cantora Beyoncé iria dirigir e roteirizar um documentário para uma famosa plataforma de streaming. Até aí, nenhuma novidade. Músicos que se arriscam no cinema não é nenhuma novidade. Mas Homecoming surpreende até quem desconhece o trabalho da cantora ou pensa que ela é apenas uma fábrica de hits dançantes.

Engajada com a causa do feminismo, em especial a do feminismo negro, responsável por abrir os olhares das moças ligadas à causa nos anos 60 para o peso das questões de raça e classe dentro da opressão sofrida pelas mulheres, Beyoncé aproveitou o convite histórico do festival Coachella, que a fez a primeira artista negra a ser atração principal do encontro, para criar um show único e que exigiu mais que ensaios exaustivos e organização. Exigiu o olhar de Beyoncé sobre si mesma.

O título do filme faz referência às tradicionais festas que reúnem alunos e ex-alunos nas universidades americanas. Antes da aprovação da Lei dos Direitos Civis, em 1964, pessoas negras eram proibidas de frequentar os mesmos bancos escolares que pessoas brancas.

Nas universidades exclusivas para negros, muitas mentes criativas desenvolveram seu potencial e só não são mais conhecidas pelo simples fato da cor da sua pele ainda influenciar mais que a sua capacidade intelectual.

É CINEMA. Bianca Zasso e “Homecoming”, em que Beyouncé tratou de fazer algo no mínimo inesquecível - bianca-bBeyoncé então resolveu que o seu show no Coachella, o Beychella, seria a sua festa de ex-alunos. Convocou bailarinos, músicos e técnicos que, de alguma forma, estiveram ligados às instituições de ensino para negros. Colocou todos para criarem num enorme galpão durante meses.

Antes disso, deu à luz a um casal de gêmeos e se viu tendo que diminuir seu tempo de dedicação ao projeto por conta de mamadeiras e afeto. Foi então que resolveu que não queria apenas uma apresentação inesquecível, mas um marco para a população negra americana.

Além do show completo, Homecoming apresenta a criação das coreografias e algumas falas da própria Beyoncé. Sem frases feitas, escutamos a diva questionar a si própria, preocupar-se com a família e, especialmente, com o poder que seu espetáculo devia contar. Por baixo de todos os brilhos dos figurinos e dos três palcos gigantes, há uma das mulheres mais poderosas do mundo da música e toda a sua história.

Ao dividir o palco com outros artistas negros e mostrando bailarinos com biotipos diversos, Beyoncé não apenas canta seus sucessos, mas fala que todo o preconceito, apesar de doloroso, não abala talento e dedicação. A festa no palco deixa isso muito claro.

Para os fãs, além de reconhecer em cada detalhe a personalidade da artista, o maior trabalho ainda é assistirem ao filme sentados. Beyoncé sabe como poucas comandar uma plateia e, entre um acorde e outro, dar o seu recado. Sua sensibilidade na construção de Homecoming, trabalho que ela divide com o diretor Ed Burke, mostra que temos não apenas uma boa cantora com feeling para canções de sucesso.

É CINEMA. Bianca Zasso e “Homecoming”, em que Beyouncé tratou de fazer algo no mínimo inesquecível - bianca-cBeyoncé canta o que acredita e quer ser compreendida. Quando se fala de representatividade feminina, é isso que se quer dizer. Ter em quem se espelhar é importante para a autoestima, mesmo que o patriarcado insista em nos podar.

Nem a própria Bey foi poupada e mostra isso ao discorrer sobre sua dieta restrita para voltar ao pique das turnês após a gravidez. Mas ela mesma sabe que nada será como antes. E está tudo bem assim.

Para as mães preocupadas em garantir que suas filhas tenham uma heroína em quem se inspirar, vale não se contentar com as salas de cinema atuais, com as dez heroínas de poucas cenas em Vingadores: Ultimato. Sua filha também pode ser a Mulher Maravilha. Ou a Beyoncé.

Homecoming: A Film by Beyoncé

Ano: 2019

Direção: Beyoncé Knowles e Ed Burke

Disponível na plataforma Netflix

(*)  BIANCA ZASSOnascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009.  Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras.



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