ARTIGO. Luciano do Monte Ribas, o juiz afastado do concurso de miss e a analogia com os tempos de hoje

ARTIGO. Luciano do Monte Ribas, o juiz afastado do concurso de miss e a analogia com os tempos de hoje

ARTIGO. Luciano do Monte Ribas, o juiz afastado do concurso de miss e a analogia com os tempos de hoje - luciano-artigoOlhar ao redor nos causa medo

Por LUCIANO DO MONTE RIBAS (*)

Há muitos anos, Ivo Cordoni, um tio-avô muito querido que era proprietário do hotel e bar Cordoni, em São Pedro do Sul, foi convidado para ser jurado em um concurso de beleza. Quem é de São Pedro ou andou por lá até a virada do século sabe a figura que ele era.

Porém, o tio Ivo tinha um cacoete. De tempos em tempos ele balançava a cabeça para cima e para baixo, em um gesto similar ao de concordar com alguma coisa dita ou insinuada por outra pessoa. E, por óbvio, seria impossível deixar esse “gesto” em casa quando saísse para ser jurado na disputa.

Não presenciei a cena, mas imagino que as beldades são-pedrenses devem ter se perfilado na passarela e, uma a uma, cruzado em frente aos julgadores. Para uma ou outra o tio Ivo deve ter balançado a cabeça (todo mundo sabe que cacoete é algo incontrolável), o que foi entendido por algum observador mais atento como uma afronta à necessária imparcialidade do júri. O tio Ivo nunca teve Telegram, mas parecia estar se comunicando com uma das “partes” envolvidas no certame. Como concurso de miss é coisa séria, ele foi excluído do júri.

Embora me agrade muito lembrar do tio Ivo, não resgato essa memória familiar na introdução desse breve texto por motivos que evoquem felicidade. Recorro a ela para lembrar de um tempo onde todas as pessoas diriam que um juiz JAMAIS poderia ser parcial ao exercer a sua atividade profissional.

Não sei se isso foi em um passado “mitológico” e se, na vida real, alguns magistrados atuaram, de forma isolada ou costumeiramente, como acusadores ou defensores. Mas sei – ou ao menos acho que sei – que o conceito de “mito” não se traduz pela figura de um néscio com dedos pateticamente esticados, mas em narrativas sobre “tempos heroicos” que sincretizam verdades ou convenções morais, muitas delas sobre justiça e liberdade. Se não fosse assim, a deusa Têmis não seria retratada com uma balança em equilíbrio, por exemplo.

Uma frase recorrentemente citada por um sem número de pessoas é que “vivemos tempos onde o óbvio precisa ser dito”. Parte desse óbvio é lembrar aos brasileiros e às brasileiras de que há valores, regras e práticas que precisam ser universais em uma democracia para que ela mereça esse nome. Valores, regras e práticas que não podem ser transgredidos nem quando o alvo é o “inimigo” – aliás, nenhum cidadão ou cidadã poderia ser tratado como inimigo pelos agentes do Estado. Usar o aparelho repressor do Estado, como relata-se que Sérgio Moro estaria fazendo para tentar intimidar Glenn Greenwald, é uma dessas coisas.

Penso que a forma como uma pessoa se posiciona frente a fatos como esses revela o que ela pensa a respeito da democracia, do país e da vida como um todo. Na verdade, acho que mostra sobretudo qual a sua verdadeira índole. Deve ser por isso que, atualmente, olhar ao redor tem nos causado medo.

(*) LUCIANO DO MONTE RIBAS é designer gráfico, graduado em Desenho Industrial / Programação Visual e mestre em Artes Visuais, ambos pela UFSM. É um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema e já exerceu diversas funções, tanto na iniciativa privada quanto na gestão pública. Para segui-lo nas redes sociais: facebook.com/domonteribas – instagram.com/monteribas



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