CRÔNICA. Pylla Kroth, o apreço que devota ao seu cachorro (um danado, por sinal) e o feliz aprendizado

CRÔNICA. Pylla Kroth, o apreço que devota ao seu cachorro (um danado, por sinal) e o feliz aprendizado

Os olhos do cachorro

Por PYLLA KROTH (*)

CRÔNICA. Pylla Kroth, o apreço que devota ao seu cachorro (um danado, por sinal) e o feliz aprendizado - pyllaSaio diariamente passear com o meu cachorro. É um exercício e uma terapia muito prazerosa. Além dele, tenho ainda cinco gatos dentro de casa. “Que bonito esse cachorrinho!”, disse um casal de namoradinhos adolescentes ao passar por mim certo dia, num destes passeios diários, “Queríamos muito ter um também!”. “Uai”, retruquei, “querer é poder! Por que não adotam um?!” Ao que eles me responderam: “o problema é que dá muito trabalho ter um bichinho”.

Essa resposta me veio como um ponto definitivo daqueles moços. Trabalho é uma palavra que causa calafrios nessa geração nova, ao que me parece, e que onde “dá trabalho” não há prazer. Mas isso não é verdade, afirmo categoricamente. Imaginem que graça teriam nossas conquistas sem esforço e trabalho, se caíssem do céu diretamente em nossas mãos sem precisarmos sequer nos abaixar para juntá-las!

Eu aprendo diariamente com o meu cão. Com ele vem um montão de coisas juntas e que não se compram em pet shops. Pa-ci-ên-cia, para começar (sim, bem separadinho e vagaroso assim). Amor, cumplicidade, carinho e responsabilidade, entre outras. Várias foram as vezes que meu cachorro ao me ver chorar (sim, às vezes eu choro), veio lamber minhas lagrimas num gesto de consolo e companheirismo que não há palavras para descrever a ternura que um animalzinho assim desperta.

Aliás, algum sábio disse certa vez que os animais são capazes de despertar ternura espontaneamente em todas as fases de suas vidas, enquanto o ser humano só consegue fazê-lo com a mesma facilidade na fase inicial da vida! E é verdade. Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos outros animais!

É claro que os bichanos irão arranhar tudo dentro da sua casa, mas ai eu mesmo me questionei várias vezes nessa dificuldade, afinal nós humanos temos de cuidar de nossos bens materiais, para isso temos que oferecer outras distrações para eles afiarem suas unhas em vez da guarda do sofá, por exemplo, e educá-los. Isso é difícil, mas talvez seja o segredo de viver com um pouco de felicidade: trabalhar por soluções para todos ficarem confortáveis sem abrir mão de seus instintos, eles e nós.

O meu cachorro, além de tudo, às vezes tem a má-educação de mijar nos pés da mesa e das cadeiras, especialmente se ele está revoltado por ainda não ter sido levado para o passeio dele, ou porque foi deixado sozinho por muito tempo ou porque tem visita e não está recebendo atenção, e às vezes até quando alguns dos gatos “se estranham” entre eles, ele vai lá e mija no local onde eles estavam brigando depois de latir neles e “apartar” a briga, o que é uma atitude muito engraçada e curiosa, o jeito dele mostrar “quem manda aqui”.

Só não é nada engraçado quando ele tenta fazer isso nas pessoas. Pois, pasmem, que já aconteceu, inclusive. Um dia desses, ali na praça, quando virei para o lado, estava ele mijando na perna de uma criançinha que estava de costas para ele! O que, no entanto, não foi de graça, pois antes o menino tinha passado por ele e ficado implicando, “inticando” com o cusco, como diz o gaúcho.

Que bicho esperto! Foi lá e deu o troco! Eu ainda estava tentando pensar em como agir, dando graças em primeiro lugar que o guri ainda não tinha percebido, quando o cachorro saiu de fininho depois de “fazer o serviço” e logo a mãe chegou, viu as calças mijadas do guri e já foi metendo bronca: “mas o que é isso, fulaninho??! Quantas vezes já te falei pra pedir pra ir ao banheiro quando der vontade?”. Achei melhor ir saindo de fininho também e deixar o guri levar as culpas, afinal o que eu ia fazer a essas alturas? (risos)

Quando saio para passear com meu cachorro, não sou eu que escolho o caminho, se é para a direita ou a esquerda, para cima ou para baixo: ele é quem escolhe, eu só vou atrás cuidando, por que ele nunca se adaptou passear na cordinha, anda sempre livre leve e solto, sem coleira, nem documento.

E quando encontra uma bronca como essa em que teve que devolver a ofensa para o moleque, ou então quando alguém implica com ele, no dia seguinte, no próximo passeio, ele olha para o lado do acontecido e toma a frente como quem diz: “vamos para o outro lado hoje por que ontem não foi muito bom e, afinal, queremos é desopilar!” E eu sigo. Confio no instinto do meu cachorro.

Cada vez mais acho que ele é quem sabe levar a vida, cabeça erguida a “trotito” no más e abanando o “pitoco”, sempre atento aos movimentos do mais ameaçador, perigoso e incompreensível dos bichos: o homem, que apesar de tudo os bichos e talvez apenas os bichos conseguem amar incondicionalmente!

Parafraseando o que escreveu um amigo meu, poeta aqui da aldeia santa, em seu livro recém-lançado, a minha tentativa de aprender a felicidade é enxergar através dos olhos do bicho. No caso, os olhos do meu cachorro!

(*) PYLLA KROTH é considerado dinossauro do Rock de Santa Maria e um ícone local do gênero no qual está há mais de 35 anos, desde a Banda Thanos, que foi a primeira do gênero heavy metal na cidade, no início dos anos 80. O grande marco da carreira de Pylla foi sua atuação como vocalista da Banda Fuga, de 1987 a 1996. Atualmente, sua banda é a Pylla C14. Pylla Kroth escreve às quartas feiras no site.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A foto que você vê aqui, claro, é do Lee, o cachorro do Pylla.



2 comentários

  1. Renê Batista Carvalho

    Ontem postei fotos da minha cusca e hoje vc nos brinda com esta crônica muito nassa homenageando estes nossos irmãos de quatro patas q nos fazem tão bem….Obrigado amigo!!!

  2. Mauro Di Giacomo

    Concordo plenamente com as palavras do Magrão,os olhos dos animais ensinam mais que muitos livros,tenho cinco cães e treze gatos?,e considero uma dádiva tê-los,se bem que na verdade é eles que me tem.

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