CRÔNICA. Pylla Kroth, o cinema na praça e aquelas dondocas tagarelas reclamando dos “comunistinhas”

CRÔNICA. Pylla Kroth, o cinema na praça e aquelas dondocas tagarelas reclamando dos “comunistinhas”

CRÔNICA. Pylla Kroth, o cinema na praça e aquelas dondocas tagarelas reclamando dos “comunistinhas” - pylla-crônicaTransfiguração

Por PYLLA KROTH (*)

Fico feliz quando tem alguma programação cultural na minha cidade, que embora se arvore em “n” manifestações como “cidade cultura” quase não tem uma constante no calendário. E quando isso acontece em praça pública marco presença com certeza.

Uma delas ocorreu na semana passada com a mostra do SMVC. Como eu não teria como acompanhar toda programação, selecionei alguns momentos para marcar presença.

O tempo estava nublado e uma garoa que insistia cair, mas respirei fundo, com ares de satisfação, e fui até o quintal da minha casa, como costumo chamar a Praça Saldanha Marinho. Uma magia verdadeira estava acontecendo no telão da praça. Vou me abster nos comentários sobre o filme, afinal não tenho grandes conhecimentos para me portar como crítico de vídeo e cinema, sou um mero expectador que assiste e então ou gosto, ou não gosto, ponto.

Neste caso não só gostei, como aplaudi em pé ao final. Filme com ares de cem anos atrás, costumes e coisas da sociedade e da religião de um povo que me fez questionar muito se evoluímos algo ou estamos parados no tempo nestes quesitos.

Quando saíra de casa, eu havia dito para minha “patroa” que iria passar na padaria na volta, após o filme, e traria um pão quentinho para o café da tarde como de costume. E assim fiz. Na padaria, a fila estava na porta e assim me posicionei para esperar minha vez de ser atendido.

De repente, o silêncio foi quebrado por duas tagarelas que estavam na fila logo a minha frente. A de trás puxou conversa com a outra, falando sobre o tempo, a chuva e coisas do tipo, até que falou algo assim: “E tu viste ali na praça? O que era aquela gente toda reunida embaixo de um lonão, vendo filmes… até parece que não tem o que fazer neste horário!” A outra se vira e responde: “ Pois é, bem coisa de gente que até parece que não tem televisão em casa! Além de tudo, é um bando de comunistinhas, os mesmos que estão sempre presentes nas balburdias das Universidades e reclamando do governo! Um bando de vagabundos desocupados.,. E o pior é que tem até professores ali envolvidos, alguns ganham até dinheiro nessa Arte de Ilusões!”

Ao ouvir aquilo, na hora já me subiu uma indignação, mas fiquei quieto na minha, só “no bico” da conversa das madames, que não pareciam fazer nenhuma questão de falar, como se quisessem mesmo que a fila toda ouvisse seus pontos de vista expressos em fala fina e irritante, com chiados forçados nos “ss” e “is” insistemente substituindo “es” como quem quer demonstrar com sotaque falsificado o quanto é “cosmopolita” e “viajado” ou “fino” demais para ser “daqui desta cidadezinha”.

Tenho horror desse tipo de gente. Mas segue o bonde! Como disse, elas estavam a minha frente, de costas para mim e eu ainda não tinha identificado seus rostos e portanto não sabia de quem se tratavam. Como costumo dizer, nessa cidade conheço quase todo mundo, e quem eu não conheço me conhece, “e isso é batata”, como diria meu saudoso amigo Zanatinha.

Enfim… dali a pouco chegou a vez das dondocas que a esta altura eu já estava achando, no dialeto delas, “mó” chatas, e a atendente no balcão pergunta, educadamente, como sempre: “O que era para a senhora?”. Já veio a resposta na hora: “A senhora esta no céu!” e foi pedindo alguns gramas de peito de peru, o mesmo de queijo, “mas um de primeira, não esse queijinho lanche bagaceiro”, tantos “pãezinhos franceses” (por que imagino que obviamente deva acha um “horror” chamar de “cacetinho”, como diz o gaúcho!) “e se tiver algum bolo bom vou querer um pouco!” A atendende foi solícita e providenciou os pedidos, ao mesmo tempo em que a segunda “miga” era atendida por outra das balconistas ao lado.

E eu ali, só de “butuca” na empáfia alheia das “bonitas”, pegando um ranço danado, enquanto esperava minha vez, quando ouço uma delas dizer à atendente: “Ah não! Não vais me dizer que não tens ainda a disposição aqui o “Bolo da Maria da Paz!” Putz…aí foi de matar o regimento inteiro, não apenas o guarda! O “nível cultural” que já estava bem lá embaixo na minha imaginação, decaiu vertiginosamente. Nada contra quem gosta de uma novelinha, eu admito que até mesmo eu dou uma bicada quando estou de bobeira, mas ali a coisa só ia de mal a pior. “Não senhora, não temos o tal bolo”, respondeu a atendente, pacientemente, mas quem diz que adiantou? A “madama” fez questão de provocar ainda mais ranço comentando que “essa padaria já foi melhor!”, antes de se retirar para a fila do caixa.

Eu dei graças que o ar tinha melhorado por alguns instantes e fiz meu pedido de cacetinhos, sim senhor, com muito orgulho do meu dialeto local, e dei uma risadinha para a moça do balcão indicando as ditas cujas, dizendo “não dê bola, moça, essas daí com certeza são duas frustradas que só devem sair de casa para comprar e servir seus maridos, pois, com este nível de educação não creio que teriam capacidade de trabalhar com o público.”

A moça me acenou com um sorriso positivo e entregou meu pacote. Lá fui eu em direção ao caixa, e adivinha? É óbvio que as duas ainda estavam na fila e bem na minha frente de novo! Porém, desta vez elas me notaram e uma delas já saiu exclamando: “Magrão! Quanto tempo!”. Eu não tenho a capacidade de bancar o nariz empinado e fazer cara de bunda e perguntar  “Te conheço de onde, Dona?”, realmente não sei ser assim. Fiquei ali pensando por uns segundos. “Estou ferrado, sabe Deus de onde conheço essa lata cheia de pé de galinha?” (nada contra os pés de galinha, também tenho os meus e o tempo passa para todo mundo!) E tentei ganhar justamente tempo: “Nossa… verdade… como vai?”

De quanto tempo estaria a se falar ali? Seria da época do Panacéia, do Expresso 362, do Over Busy ou seria do Mimbacuera, como diz meu amigo Betinho Pires? Ok… tenho boa memória e não demorou muito pela orelha reconheci uma das fulanas. E lasquei a queima roupa: “claro, querida, como vai seu marido dono do clube lá da avenida com o qual você tem dois filhos?” Aí ela descambou-se a falar da própria vida dizendo que já tinha tempo divorciara e casara novamente, depois divorciara de novo e finalmente estava casada com um militar.

Ficou nessa lenga-lenga de “mas que bom te encontrar” e tal e coisa e coisa e tal até que chegou a vez dela no caixa. Eu fiquei novamente esperando a minha vez. Eis então que após passar toda a quantidade de produtos, ao pagar, o cartão da dona foi recusado. Trocou de cartão, recusado novamente. Pediu para “pendurar” e a caixa comunicou que ali naquele estabelecimento não abriam exceções e não poderia fazê-lo. E ela ali, trancando a fila na hora do rush. Nisto eu já estava passando minha modesta compra no outro caixa e após pagar saí de fininho ainda a tempo de ouvi-la dizer “que absurdo! Mas então espera um pouco que vou telefonar para o meu marido que está me esperando no carro para vir aqui trazer dinheiro”.

Enquanto me encaminhava de volta para casa, faceiro, com minha sacolinha de pão fresquinho, me sentia como que abrandado, livre, a alma leve, até a garoa havia parado, no ar um cheiro de fim do dia, como se parafraseasse o título da película que eu assistira anteriormente, um entardecer transfigurado, em que eu meditava poeticamente que todo cuspe para o alto será castigado caindo de volta na cara, feliz por ter ficado quieto na minha!

(*) PYLLA KROTH é considerado dinossauro do Rock de Santa Maria e um ícone local do gênero no qual está há mais de 35 anos, desde a Banda Thanos, que foi a primeira do gênero heavy metal na cidade, no início dos anos 80. O grande marco da carreira de Pylla foi sua atuação como vocalista da Banda Fuga, de 1987 a 1996. Atualmente, sua banda é a Pylla C14. Pylla Kroth escreve às quartas feiras no site.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet.



2 comentários

  1. O Brando

    Kuakuakuakuakuakua! ‘Tenho horror desse tipo de gente.’ Ainda que na ficção o autor exercita a ‘tolerância’ com pessoas ‘cheias de ódio’! Kuakuakuakuakuakuakua!

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