É CINEMA. Bianca Zasso e um filme que vai além de contar história de trabalhadores à espera do carnaval

É CINEMA. Bianca Zasso e um filme que vai além de contar história de trabalhadores à espera do carnaval

É CINEMA. Bianca Zasso e um filme que vai além de contar história de trabalhadores à espera do carnaval - bianca-a-840O ouro azul do sertão

Por BIANCA ZASSO (*)

Documentários onde o diretor ou a família deste são o foco da narrativa costumam gerar controvérsia. Falar sobre si é falta de criatividade ou excesso de ego, afirmam alguns. Mas e quando as lembranças da infância são a faísca para se contar a história de uma cidade inteira, para retratar uma realidade que passa longe do cotidiano de quem a dirige? São situações como esta que fazem surgir pérolas de forma e conteúdo como Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, do pernambucano Marcelo Gomes.

Conhecido por seu talento para a poesia visual em filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, o cineasta agora leva seu olhar único sobre situações ordinárias para a cidade de Toritama, no agreste pernambucano, que ostenta o título de capital do jeans.

É CINEMA. Bianca Zasso e um filme que vai além de contar história de trabalhadores à espera do carnaval - bianca-b-500Em cada porta, em cada pequena garagem, há uma fábrica improvisada, batizadas de facções, onde se produz 20% do jeans comercializado no Brasil. São famílias inteiras cercadas por máquinas de costura e seu ruído ensurdecedor, que não dá trégua nem durante a madrugada. Pelo menos até a folia aparecer no calendário.

Marcelo Gomes é o narrador deste filme sobre como o trabalho pode tomar conta da vida das pessoas, ao ponto delas fazerem de tudo por quatro dias de alegria para seguirem em frente. Isso porque a memória da cidade pacata que Gomes carrega consigo, do tempo que acompanhava o pai nas cobranças fiscais pelo interior do Nordeste, deu lugar a uma cidade com cara de interior mas ritmo de metrópole.

Quando a câmera pousa nas mãos dos trabalhadores, manchadas pela tinta do tecido, que repetem centenas de vezes o mesmo movimento, com pausa apenas para refeições e breves cochilos, a beleza das imagens dá lugar ao impacto da descoberta: em Toritama, a vida é trabalho. Não o trabalho motivador, que faz com que levantemos da cama todos os dias com ânimo, mesmo em tempos de trevas, mas o eterno repetir dos dias, sem questionamentos ou objetivo de crescimento.

Ao perguntar sobre sonhos, as respostas são todas monetárias: ficar rico, ganhar mais, comprar algo. A felicidade dos moradores de Toritama é medida no valor de cada peça costurada ou estilizada em seus quintais e garagens. E é aí que chega o carnaval e uma força parece tomar conta de todos, que vendem itens importantes como geladeiras e máquinas de costura com um único objetivo: aproveitar a festa onde tudo parece permitido à beira-mar.

Depois se dá um jeito de manter os alimentos refrigerados ou produzir mais jeans. O mais importante são os quatro dias de liberdade e alegria. Uma espécie de alforria na escravidão escolhida por cada um desses trabalhadores, que transformam seus lares em negócios, não importa o preço que isso custe. Suas existências, no caso.

Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, após uma carreira vitoriosa em festivais nacionais e internacionais, chegou ao catálogo da mais popular plataforma de streaming do mundo. É daqueles acontecimentos que fazem os amantes do cinema brasileiro sorrirem como se não houvesse amanhã e governo fascista. Mas o nosso pé que fica na realidade sabe que ele não será tão procurado e assistido como merece, pois a maioria dos assinantes ainda prefere o ópio dos filmes fáceis. Pode ser, inclusive, que alguns espectadores admirem a força de vontade dos trabalhadores de Toritama, que dão um duro danado para brincar o carnaval. Enxergar a prisão que é a sobrevivência no agreste, mesmo que ele aparente estar em vias de desenvolvimento, não é nem um pouco animador.

A beleza que Gomes imprime nas cenas é triste. Sim, o belo nem sempre acalenta nosso coração. A trilha sonora delicada até encanta, mas não esconde o peso da repetição dos gestos, onde cada peça é um centavo a mais no bolso e um dia a menos para o carnaval. É onde mora a força deste documentário, que fala dos nossos tempos sem ter uma linha sequer sobre política e afins. Pelo menos não uma linha fácil de identificar. É como a barra do jeans, necessária, mas que só aparece para quem observa com atenção.

É CINEMA. Bianca Zasso e um filme que vai além de contar história de trabalhadores à espera do carnaval - bianca-c-840Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar

Direção: Marcelo Gomes

Ano: 2019

Disponível na plataforma Netflix

 (*) BIANCA ZASSO, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009.  Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras.

 



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