CRÔNICA. Orlando Fonseca, o ano novo que está a chegar e o tempo que passa – rápido ou nem tanto?

CRÔNICA. Orlando Fonseca, o ano novo que está a chegar e o tempo que passa – rápido ou nem tanto?

CRÔNICA. Orlando Fonseca, o ano novo que está a chegar e o tempo que passa – rápido ou nem tanto? - orlando-crônica-2Devagar e sempre

Por ORLANDO FONSECA (*)

Contemplamos mais uma vez a chegada de um novo ano. E nos surpreendemos pelo tempo ter passado tão rápido. Contudo, se pensarmos bem, e aceitando os postulados científicos, o tempo continua a ser o que sempre foi, e não apressou o seu passo nos últimos meses. Sequer nas últimas décadas ou séculos. A verdade é que, principalmente, aqueles que dizem não ter tempo para nada é que se queixam dessa vertigem.

Nós, seres humanos ocupados, carregados de compromissos, metas, cercados de máquinas de endoidecer (com a desculpa de criar conforto ou de ganhar mais dinheiro) é que nos iludimos com a passagem mais rápida do tempo. E se quisermos curtir melhor, aproveitar melhor o ano que nasce precisamos desacelerar não o tempo – que esse, como dizia Cazuza, não pára – mas o nosso ritmo.

As crianças não se se queixam de que o tempo passou rápido. Pelo contrário, reclamam de que o Natal estava demorando para chegar, e que as férias na praia ainda vão demorar mais. São os adultos, os quais já cansaram de esperar o tempo passar e querem dar agilidade aos compromissos, que pretendem acelerar as coisas.

Com isso estabelecem metas e lançam-se à frente, com planejamentos, com provimentos, com procedimentos que elidem as horas que faltam, os dias que faltam, e quando se vê, já chegou o momento de realizar o que se queria.

E já estamos nos lançando outra vez à corrida de alcançar o próximo alvo. Quando alguém, com muita expectativa, diz que “não vê a hora” de conseguir realizar tal coisa, está antecipando apenas o que o fará dizer mais adiante: “puxa, como esse ano passou rápido”.

Isso é parecido com a percepção do calor nos dias atuais. Ouvi de uma pessoa que, quando era criança, parece que não era tão calor assim. Bom, com as temperaturas no nível da última semana, dá para pensar isso mesmo. Dizia-me ela que, naquele tempo antigo, o recurso era procurar a sombra de uma árvore frondosa no quintal, ou se posicionar em aposentos no subsolo da casa.

Então considerei com ela o fato de não termos ar-condicionado, nem ventilador no passado remoto. Nosso corpo estava habituado a perceber a temperatura daquele jeito mesmo. Hoje, estamos no frescor condicionado de casa, entramos em um carro também refrigerado e nos dirigimos para o trabalho, ou para uma loja também equipados com o melhor sistema anti-calor.

Sentimos mais a temperatura elevada porque nossos mecanismos de sensação térmica estão mal-acostumados (ou bem, sei lá). Isso não tem nada a ver com o aquecimento global que, se faz um estrago enorme na natureza, por enquanto não nos faz sentir mais calor.

O certo é que, no mundo capitalista ocidental, fazem-se muitas coisas para abreviar o tempo. Porque é preciso aumentar a renda, aumentar o lucro, fazer a economia girar. Ela se movimenta de modo que nos coloca na mesma velocidade de suas oscilações. Isso é o que os especialistas da autoajuda e coachs chamam de filosofia do ter e não do ser.

Criamos a necessidade de acumular o mais possível no mínimo intervalo de tempo. As revoluções industriais trouxeram máquinas que substituem o trabalho humano, e a este ser concedeu-se um período maior para achar o que fazer.

Se o que pretende é ganhar mais – por ganância ou por necessidade – vai dar duro mais tempo, esquecendo-se de experimentar a vida em seu percurso de normalidade. Aliás, neste caso, como sabem fazer as crianças.

Para se viver bem os dias desse ano bissexto – um dia a mais para contabilizar nesta vertigem – é preciso desacelerar: a vida simples é feita de alegria simples. Aliás, a felicidade é simples, nós é que criamos embaraços inventando complexidades. Devagar e sempre é a recomendação aos peregrinos, dando tempo para que a mente absorva o melhor da natureza ao redor e do convívio com os demais caminhantes.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra essa crônica é uma reprodução (Shutterstock) obtida na internet.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *