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CRÔNICA. Orlando Fonseca, 45 anos na lida como professor, e a preocupada reflexão sobre a Educação

Crise na educação   

Por ORLANDO FONSECA (*)

Há alguns anos – muitos anos -, meus filhos eram crianças ainda, fui repreendido quando disse que iria desestimular qualquer interesse de um deles querer ser professor. A reprimenda talvez nem fosse por ser tratar da referida profissão, mas porque, no senso comum, cabe aos pais dar condições, não impor empecilhos.

A minha atitude, naquele tempo, se devia a uma percepção aguda das dificuldades, tanto de minha própria experiência no magistério, quanto de categorias como professores estaduais e da rede privada; as condições das escolas, a falta de políticas públicas alentadoras e o início de algo que só se tornaria trágico com o passar do tempo, desde então: o ambiente tóxico da relação alunos – professores – pais.

Quarenta e cinco anos de carreira depois – estou aposentado, mas continuo a lecionar – se tivesse de repetir aquela observação inicial, teria mais motivos para acrescentar ao rol de aspectos negativos que me levariam a querer proteger um filho de uma história de desgraças.

Alguns anos antes de me aposentar, depois de 31 anos de ensino superior (e dez anos anteriores, em escola do ensino fundamental), eu me convencia de que nunca iria abandonar a minha atividade de professor. Isso porque tinha, e ainda tenho, prazer em ensinar. Ao longo da minha formação – e ainda estou aprendendo – desenvolvi o gosto de, ao adquirir um conhecimento novo, compartilhar com quem não teve a possibilidade de acessar a mesma fonte que eu.

E isso vai-se tornando mais complexo na atualidade, em que um enorme contingente de jovens não lê mais, limita-se a consultar o Google, ou a aceitar a informação como lhe chega, sem confirmação, sem questionamento. Os adultos também o fazem, mas me preocupa em especial a geração que deve ocupar os postos de comando no próximo período.

Com que ferramentas científicas, filosóficas ou culturais? Quem lhes vai influenciar de modo positivo a buscar dados para formatar o seu próprio conhecimento, base de sua argumentação, de sua capacidade expressiva, enfim, de sua visão de mundo?

Agora leio uma informação que os jovens não têm sido atraídos para a profissão. E não falo mais da influência da família. Falo das condições conjunturais, em que se percebe uma quase total ausência de políticas consistentes para dar aos profissionais o mínimo para um projeto de nação: ensinar as novas gerações.

Em especial os cursos de Licenciatura, que formam professores para as diferentes áreas, apresentam baixa procura nos processos seletivos, e uma alta taxa de evasão. De tal modo, que a rede privada já descontinuou oferta de inúmeros cursos de Humanidades.

Para agravar o quadro, considerando que 80% das profissões hoje existentes vão desaparecer nas próximas décadas, o ensino superior vai entrando em uma crise de identidade aguda: ensinar o quê? Formar para quê? Com que ferramentas, se o futuro ainda está em aberto quanto ao que é necessário saber para enfrentá-lo?

E no entanto, é preciso pensar a educação como não se tem pensado nos últimos anos. O Plano Nacional de Educação não cumprirá sua meta de universalizar o ensino superior nesta década que se vai perdendo. E não há um projeto consistente de valorização da ciência e da tecnologia no país – pelo contrário.

No ensino básico, uma catástrofe se anuncia: o Fundeb, que perde a sua validade legal este ano, não tem recebido do governo, do MEC, a devida atenção, o que levará a um colapso da educação de crianças e adolescentes, ano que vem, pois as prefeituras não têm como bancar um ensino de qualidade sem o aporte daqueles recursos.

Tudo o que temos no setor educacional no país, hoje, é fruto de uma abnegação, de um esforço sobre-humano, de professores com salários parcelados, em escolas mal equipadas e em um ambiente escolar em crise.

Ainda acredito na educação, continuo a exercer a minha profissão, mas que seja planejada com políticas consistentes para estimular o prazer de trabalhar, de ensinar, e não seja feita sobre o sacrifício de educadores, como se o combate à ignorância fosse uma guerra, na qual ganha quem contabiliza menos baixas.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra essa crônica é originária do site The Eagle View (AQUI), que credita a autoria à Florida Univrsity.

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6 Comentários

  1. Ensino público não está em crise só no Brasil. Existe um documentário de 10 anos atrás, Waiting for Superman, que trata do assunto nos EUA.
    Universalizar o ensino superior é uma meta furada. Primeiro porque nunca existiu dinheiro para isto (pré-sal é cascata). Segundo porque universalizar algo que não funciona direito é jogar dinheiro fora. Teria que sair uma reforma universitária antes, algo que também não vai acontecer.
    Fundeb é o bicho papão que os vermelhinhos usam para ‘desgastar’ o governo. Vai ser aprovado em um ou dois dias, na última hora, ‘ampliado’, com jabutis e a ‘comissão’ do Centrão.
    Enfim, quem diz que a profissão de professor não vai ser extinta ou modificar com o passar do tempo? Inteligência artificial poderia dar atenção personalizada para os alunos. Quem sabe? Neste ponto a ideologia fala em ‘humanismo’. Alás, cursos de ‘Humanidades’ foram desfigurados há muito tempo. Em muitos lugares a tradição greco-romana foi substituída por marxismo, escola de Frankfurt, etc. Resultado foi a formação de legiões de ‘tapados’.

  2. ‘ Quem lhes vai influenciar de modo positivo ‘. Positivo para quem? O caminho do inferno é pavimentado com boas intenções. Sem preocupação, geração atual tem predileção pelo audiovisual. Irão aprender como todas as anteriores, ‘levando na cabeça’.
    Período é de transição, não se sabe o que o futuro reserva. Sempre foi assim, alguns ideologicamente ignoram o fato. Incerteza não é problema, inércia é. Como outros países estão enfrentando? Disponibilização de formação em massa via internet. Ênfase no básico (que não muda). Ênfase na habilidade de adaptação, formação continuada. Conscientização de que uma profissão única na vida inteira não será mais possível. Mas não com o que se apavorar. Brasil é atrasado, profissões irão durar muito tempo por aqui.

  3. Leitura nunca foi o forte dos tupiniquins. Mesmo quando só existia um ou dois canais de televisão e não havia internet. Alás, há que se distinguir os leitores, alguns o faziam por passatempo e não para ‘enriquecimento cultural’. Antes que me esqueça, Machado de Assis é muito chato. Não vou ler ‘Ulissio’ de James Joyce para bancar o intelectual. Talvez releia Grande Sertão Veredas. O que leva a outro tipo de leitor, o que faz para preencher um requisito. Geralmente ENEM/vestibular. Fazer algo obrigado geralmente não traz bons frutos. Como diz a lenda: ‘camarada Stalin, é possível levar o cavalo até a água, não é possível obriga-lo a beber’; ‘tovarish, não é possível faze ele ficar com sede? Guarda! Leve Pyotr para um passeio e diga para o fotógrafo apaga-lo do daguerreótipo’.

  4. Relação pais-professores-alunos. Dizem que os pais terceirizam a criação dos filhos e, para compensar emocionalmente a omissão, em caso de conflito tomam as dores dos filhos. Afirmação sem muita base para não dizer sem base nenhuma. Casos extremos são noticiados pela imprensa. Só que os veículos de comunicação consideram noticia quando uma pessoa morde o cachorro e não o contrário. Entre o absurdo e o funcionamento adequado existem 65536 tons de cinza.
    Também não é possível canonizar uma profissão. Como em qualquer outra existem maus profissionais. Gente com falta de conhecimento, que não tem as habilidades necessárias, com deficiência na formação. Conclusão óbvia: não deveriam estar onde estão.

  5. Velho problema da indução. ‘Pego dois ônibus para ir, pego dois ônibus para voltar. Logo sei como é o sistema de transporte de Santa Maria’. Obvio que não. Criatura só conhece as linhas que utiliza. Para ter experiência como usuário teria que andar em todas as linhas em todos os horários. Ou entrevistar passageiros. Ao fim e ao cabo juntaria todas as opiniões subjetivas (sujeitas a chuvas, trovoadas, maus humores e circunstancias pessoais não relacionadas com o objeto da pesquisa) numa estatística que daria um ‘retrato’ do problema.
    Deixando de lado as digressões epistemológicas, outro problema, o idealismo alemão. Melhor deixar a patota do Hegel de lado.

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