ARTIGO. Ricardo Ritzel e um guerreiro que honra a história do Rio Grande: José Antonio Flores da Cunha

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O advogado José Antonio Flores da Cunha, nascido em Santana do Livramento, começou a sua trajetória política como deputado estadual

Flores da Cunha, o ultimo caudilho

Por RICARDO RITZEL (*)

Condor chucro do Rio Grande

Que ao sol da campanha esvoaça,

Velho palanque da raça

Do mais crioulo falquejo,

Nobre cavaleiro andejo

De mil cruzados de glória

No parapeito da História

Hoje aprumado eu te vejo.

 

Herdeiro de Canabarro,

De Souza Neto e de Osório,

Legenda de um território

Que foi berço de condores,

Monarca entre os peleadores

Da velha cavalaria,

Trinta e cinco retinia

Na espada do velho Flores.

(Trecho de “O Último Caudilho”, de Jayme Caetano Braun)

Tudo sobre José Antônio Flores da Cunha é superlativo, é exagerado, é dramático. Inclusive a tentativa de apaga-lo da história rio-grandense.

Não conseguiram!

O “velho” Flores viveu até o último dos seus dias com a admiração dos amigos e o respeito sincero dos inimigos.

E quando entrou definitivamente para história, foi como um homem do campo extremamente culto, um advogado atilado que conquistou no campo de batalha a divisa de general, o melhor governador do Rio Grande do Sul de todos os tempos e um dos mais brilhantes tribunos brasileiros.

Um personagem extremamente humano, com muitas qualidades, mas também com inúmeros erros, que surpreendentemente, como político, reconhecia. Um guerreiro implacável que buscou pela vida toda a paz. Um personagem dividido na exata proporção entre o homem e o mito, entre o ser humano e a lenda. Enfim, ele é o arquétipo do gaúcho, é o último general da lendária cavalaria rio-grandense, o último caudilho a la gaúcha.

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O coronel Flores da Cunha de luto pela morte em combate de seu irmão caçula. Guilherme Flores da Cunha, no Rio Ibirapuitan, no Alegrete

José Antonio Flores da Cunha nasceu no dia 5 de março de 1880 na fazenda dos pais, em Santana do Livramento. Passou sua primeira infância, literalmente, montado em um cavalo. Foi um guri “arteiro” na potencia máxima, além de irrequieto e brincalhão. Superativo, diriam os médicos de hoje.

Alfabetizado pela mãe, Dona Evarista Flores da Cunha, desde cedo também demonstrou ter um gosto fora do comum pela leitura e uma aguçada inteligência. Ainda adolescente, leu em francês todos os grandes clássicos da literatura e tornou-se um grande conhecedor das obras de Balzac, Dumas e Zola.

Tanto que a língua francesa se tornou uma de suas grandes paixões (assim como as mulheres vindas desse país que trabalhavam nos cabarés de Livramento e Rivera), não perdendo uma só oportunidade em toda sua vida para declamar poemas de Rimbaud e Verlaine. E sem nenhum sotaque.

Porém, não foi um aluno brilhante. Longe disto, já que suas notas sempre estiveram naquela linha tênue da aprovação. E, quando seu pai, Dom Miguel Luiz da Cunha, o colocou na Escola de Engenharia de Porto Alegre, não sentiu nenhum atrativo pelo currículo e, desestimulado, logo desistiu do curso para desgosto extremo da família.

Como consequência, Dom Miguel o fez voltar para a fazenda paterna e trabalhar nas mesmas condições de seus empregados. Começou, então, um protesto silencioso de ir para lida campeira usando fraque e cartola. Depois de algum tempo, o pai cedeu à vontade do filho de estudar Direito em São Paulo.  Cursou os quatro primeiros anos na capital paulista e, o último, no Rio de Janeiro, onde se graduou em 1903.

Quando todos esperavam que o recém-formado voltasse ao sul para iniciar sua vida profissional, foi empossado delegado de polícia em um bairro carioca. Fez um ótimo trabalho e ganhou muitos admiradores, mas só ficou por um ano no cargo. A saudade o trouxe de volta. Apaixonado por uma jovem santanense, Irene Guerra, voltou, casou e iniciou pela fronteira oeste uma trajetória de sucesso como advogado.

Foi por pouco tempo também. Em 1910, o então todo poderoso da República, o senador gaúcho Pinheiro Machado, o levou de volta para ser chefe de Polícia do Distrito Federal. Novamente cumpriu suas funções com distinção, porém entrou em atrito com tradicionais políticos do Rio de Janeiro envolvidos com a banda podre da polícia.

Entrou também em luta aberta com alguns setores da imprensa ligados a esses políticos que o acusavam de tudo que podiam, sendo verdade ou não. Algumas eram. Chegou até mesmo desafiar para um duelo o editor de um desses jornais que, ao tomar conhecimento do passado de Flores no Rio Grande do Sul e seu costume de não sair de casa sem seu 38 niquelado e uma adaga de prata, viajou a passeio para Europa sem data para voltar.

Assim, desgostoso com a situação, novamente voltou para sua Santana do Livramento para reiniciar a carreira de advogado. Teve mais êxito ainda.

Em Alegrete e Uruguaiana, seu sócio era Osvaldo Aranha. Em São Borja, dividia o escritório com Getúlio Vargas. Ganhou muito dinheiro cobrando altos valores de quem podia e trabalhando graciosamente para quem não tinha.

Sua especialidade era o Tribunal do Júri. E sempre na defesa. Começou aí a fama de talentoso orador. Arrebatador, para ser exato. A eloquência de seus discursos dominava com tal intensidade os jurados e a plateia que a absolvição unânime de seus clientes foi uma constante.

Foi também nesta mesma época que iniciou sua trajetória política. E como vinha de tradicional família republicana (para não dizer fanática e militante), debuta nesta vida já como deputado estadual, em Porto Alegre. Depois, com ajuda de Pinheiro Machado, volta ao Rio de Janeiro como deputado federal eleito pelo Ceará, mesmo sem nunca ter ido aquele estado. Prática comum naquela época.

Terminado o mandato, em 1916, é nomeado intendente de Uruguaiana por Borges de Medeiros devido a problemas na liderança republicana daquela cidade. Lá, demonstra sua capacidade gestora da coisa pública recebendo um município praticamente falido e, em menos de quatro anos, o tornando moderno, arborizado, cheio de escolas, com segurança, repleto de obras essenciais e, ainda, superavitário.

Antes da eleição seguinte, ganha o título de “Cidadão Honorário” de Uruguaiana. É reeleito em uma votação consagradora. Seu lema, seguido a risca, era gastar somente o que arrecadava.

E é exatamente nesse período que Borges de Medeiros se reelege pela quinta vez presidente do Rio Grande do Sul em uma escancarada fraude eleitoral executada por Getulio Vargas. Foi a gota d’água que transbordou a paciência dos maragatos com os mais de 30 anos de ditadura positivista no Rio Grande do Sul. Foi também o encontro de Flores com seu destino de guerreiro.

Na verdade, Flores venceu a revolução de 1923 bem antes do primeiro tiro. Informado que o conflito era inevitável e que Honório Lemes e Assis Brasil planejavam ocupar a “manu militari” Uruguaiana, prendê-lo junto com todo seu alto staff e fazer daquela cidade uma espécie de capital maragata, ele foi a Porto Alegre e convenceu um reticente Borges de Medeiros a comprar armas modernas e farta munição para Brigada Militar.

Com um cheque ao portador de 75 contos de réis do Banco Holandês de Buenos Aires, Flores partiu para Argentina em completo sigilo, dividindo o destino e a missão somente com Osvaldo Aranha e alguns empregados de absoluta confiança. Até mesmo Dona Irene, sua esposa, não tinha conhecimento de seus planos.

Saiu de Uruguaiana a cavalo em plena madrugada e tomou a  direção da Barra do Quarai, lá transpôs o Rio Uruguai em uma chalana de um pescador local até a cidade argentina de Monte Caseros e, dali, pegou o trem que fazia a linha Assunción – Buenos Aires.

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O armamento “importado” por Flores, numa peripécia por Buenos Aires, venceu os milhares de lanceiros mal armados de Honório

Na capital argentina entrou em contato com um grupo de negociantes de armas que tinha como membros um ex-presidente paraguaio, um senador vitalício argentino e um deputado correntino, além de outros menos cotados do submundo portenho. Depois de uma semana de negociações, pagou a carga em Buenos Aires e foi recebê-la em Meca, na Província de Corrientes.

Dali, com todo o armamento em caixas de madeiras, se desloca via ferroviária até Paso de Los Libres, onde “compra” por 1.000 pesos um agente alfandegário para não revistar a carga.  Logo após, com a ajuda de Osvaldo Aranha (que o esperava nervoso há vários dias), transpôs novamente o rio Uruguai em duas lanchas a motor com 400 modernos fuzis Mauser, 400 baionetas sabres e 120 mil caixas de confiáveis cartuchos calibre 7.65.

Algumas poucas semanas após este “contrabando oficial”, Honório sai da Serra do Caverá, invade com facilidade Alegrete e, após as solenidades maragatas de praxe, reúne uma coluna revolucionária de mais de 2 mil homens (com tropas de cobertura ao sul, em Quaraí, e na retaguarda, em Rosário do Sul), e toma o rumo de Uruguaiana para ocupa-la militarmente. E com certa facilidade, acreditavam os rebeldes.

Só acreditavam, pois a realidade foi bem distinta.  Flores cavou trincheiras, colocou atiradores de elite em locais estratégicos e, entre 2 e 5 de abril de 1923, montou uma eficiente linha de resistência aos invasores contando apenas com a polícia municipal, amigos de Itaqui comandados por Osvaldo Aranha, 40 praças do 2ª Regimento de Cavalaria da Brigada Militar e alguns membros da “mocidade e cidadãos de bem” daquela cidade da fronteira. Honório, depois de três dias de cerco, recuou.

Não há dúvida alguma que o armamento “importado” foi o fator da surpreendente vitória da pequena força legalista sobre os milhares de lanceiros mal armados de Honório.

Como consequência, Flores ganha o posto de tenente-coronel e o comando da Brigada do Oeste. A ordem de Porto Alegre era perseguir e trucidar a coluna revolucionária de Honório Lemes, já conhecido como o Leão do Caverá.

Surpreendentemente (como quase tudo na vida de Flores da Cunha), a primeira ordem do novo chefe da Brigada do Oeste é proibir expressamente a degola e, conforme suas próprias palavras, “imponho, como norma intransigível de honra, o respeito pelo prisioneiro de guerra”.

Uma tropa boquiaberta, desde o mais raso dos soldados até seu comandante do Estado-Maior, Osvaldo Aranha, assimilou os novos tempos e obedeceu. As exceções na Revolução de 23 foram poucas, presas e enviadas para Justiça para serem processadas por homicídio.

Ao mesmo tempo e sem ter conhecimento das ordens de seu maior rival, Honório Lemes emite a mesma determinação para a tropa maragata. Só que, quem a infligisse no lado revolucionário, seria fuzilado. E assim foi feito.

Os dois, Flores e Honório, cada um de seu lado e por suas próprias razões, acabaram com um dos mais arraigados e bárbaros costumes das guerras sulinas: não fazer prisioneiros.

Nas refregas de 1924, 25 e 26 não há relatos de degolas no Rio Grande do Sul.

E assim, e com estas regras, começou a perseguição implacável de Flores da Cunha e sua Brigada do Oeste sobre a coluna rebelde de Honório Lemes pelos campos da fronteira oeste e campanha do Rio Grande do Sul: Alegrete, Caverá, São Gabriel, Inhanduí e Capão do Angico, até chegar, de novo, no Rio Ibirapuitan.

E, de novo, Flores surpreende a todos, já que era um autêntico novato na arte da guerra. Tanto que o historiador Ferreira Filho assim descreve os novos líderes da Brigada do Oeste: “O coronel da Brigada Militar e veterano de 93, Claudino Pereira, escreveu em seu relatório que, naquele início de revolução, só havia duas novidades no lado legalista, dois homens impossíveis: Flores e Osvaldo”.

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Nepomuceno Saraiva, coronel Flores da Cunha e o tenente Cunha na Gare de Santa Maria

E completa com suas próprias deduções: “Osvaldo e Flores tinham temperamentos afins. O primeiro, com alguma noção básica; o segundo, confessadamente um cru em matéria militar. Tinham, no entanto, o mesmo instinto de guerrear, que se caracterizava pela ofensiva outrange, com predileção pelas outroras lendárias cargas de cavalaria…”.

Outrange é a palavra francesa para a todo transe, a mais não poder, com todo o entusiasmo.

E é lá, exatamente sobre a ponte do rio Ibirapuitan, no Alegrete, que se dá o combate mais sanguinário, a refrega a todo transe da Revolução de 23. E é lá também que Flores se revela um verdadeiro integrante da lendária cavalaria rio-grandense ao, na hora da luta, ir à frente de seus comandados mostrando como vencer uma luta e, mesmo presenciando a morte de um irmão (Guilherme Flores da Cunha) com um tiro na testa, manter pelo exemplo sua ordem de respeito ao inimigo.

Conta a história que Honório tomou o lado leste da ponte e colocou sua gente em uma posição considerada inexpugnável, tanto pelos oficiais do exército que assistiam a movimentação, como também pelo próprio Estado-Maior da Brigada do Oeste,

Mas o que toda população alegretense que se deslocou curiosa para o local viu foi Flores subir em seu cavalo, levantar sua espada e gritar: “quem tem vergonha que me acompanhe”, já cravando as esporas na montaria e invadindo a ponte em uma súbita e poderosa carga. Com o exemplo, não ficou um soldado na margem oeste do rio, todos transformados em guerreiros destemidos e com um poder de fogo absolutamente extraordinário. Como se estivessem em um transe.

Tão logo chegaram ao outro lado, com balas zunindo de todos e por todos os lados, Guilherme Flores da Cunha cai já morto de seu cavalo. Flores apeia e fica alguns momentos chorando copiosamente  abraçado ao corpo do irmão caçula. Mas logo se levanta e parte novamente para luta, que neste momento já havia se transformado em um legítimo entrevero de lâminas ensanguentadas e balaços a queima roupa.

No auge da peleia, quando Osvaldo Aranha avisa que fora ferido e iria cair do cavalo, Flores da Cunha encosta seu tordilho na montaria do amigo e brada em alto e bom som: “não cai nada! Já estou ferido há um bom tempo e não disse nada, não caí. Não caí nada!”. Osvaldo não caiu e seguiu firme na refrega.

E assim, durante mais de três horas, o combate foi se desenrolando de forma brutal até que, em determinado momento, uma debandada entre as forças revolucionárias esvaziou o campo de batalha, já tomado de corpos mutilados e feridos dos dois lados. Muitos gritando desesperadamente de dor.

Foi neste momento que oficiais legalistas pediram para Flores comandar uma perseguição aos fugitivos, agora vulneráveis, completamente exaustos, praticamente sem munição, ainda, em campo aberto.

Flores nega, alegando que estava ferido. Com a insistência dos oficiais em passar o comando para o coronel Januário Guedes para perseguir os rebeldes, Flores respondeu ainda mais energicamente, “Conheço o Guedes muito bem. O que vocês me pedem não é guerra, é assassinato!”. E ninguém foi atrás dos revolucionários em fuga.

O tenente maragato, Antero Marques, que fazia parte do Estado Maior do general Honório Lemes, quando tomou conhecimento de como foram tratados os companheiros maragatos que ficaram para trás e a reação do comandante inimigo no Ibirapuitan, desta maneira escreveu no diário que deixou sobre o conflito de 23.

– “Foi um dos pontos mais altos da vida de Flores da Cunha, que, mesmo tendo um irmão morto nos braços, não permitiu a chacina dos adversários em fuga. Lá ele demonstrou ser o nosso inimigo mais perigoso, mas também um homem de muito valor”, definiu Marques, com admiração.

A partir daquele dia, começaram a lhe chamar de o Tigre do Ibirapuitan.

Segue o artigo. A segunda e última parte será publicada no próximo dia 15 de agosto.

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Porto Alegre – 1959. O velho general José Antonio Flores da Cunha, seis meses antes de sua morte, aos 79 anos de uma bem vivida vida

Clique abaixo e escute trecho da entrevista feita pela Radio da UFRGS com o general José Antonio Flores da Cunha, em 26 de maio de 1959, seis meses antes de sua morte.

(*) RICARDO RITZEL é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 – Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

Observação do editor: as fotos que ilustram esse artigo, de cima para baixo, são do Arquivo da Assembleia Legislativa, do Museu Estaleiro Martimiano Benites, de Uruguiana (3) e do Museu Júlio de Castilhos, de Porto Alegre.

 



2 comentários

  1. O Brando

    Frances e latim eram currículo comum naquela época. Brasil é um pais engraçada, a educação sofre ‘modernizaçoes’ para melhorar e só piora.
    Não fosse Getúlio Flores da Cunha e Osvaldo Aranha tinham chances de desempenhar papeis mais elevados na politica nacional. O último ainda teve a ONU para mostrar capacidade.
    O neto Flavio Flores da Cunha Bierrenbach foi ministro do STM, ainda é vivo em SP, tem 80 anos.

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