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CÂMARA. Discussão sobre projeto de diversidade em escolas municipais vira um debate religião x ciência

“Não me venham impor em nossas escolas coisa contrária à família. Esse vereador vai sempre se levantar contra”, disse Vargas. Já Cida lembrou do mundo real: “só quem lida com eles sabe o preconceito e o bullying que sofrem, e como são excluídos da sociedade”

Por MAIQUEL ROSAURO (com fotos Allysson Marafiga/AICV), da Equipe do Site

Misturar política e religião sempre causa controvérsia, e não foi diferente nesta quinta-feira (3), na Câmara de Vereadores de Santa Maria. Alexandre Vargas (Republicanos), que é obreiro da Igreja Universal, antecipou a discussão do projeto de lei de Luci Duartes – Tia da Moto (PDT) que permite a implantação do Programa Diversidade na Escola e fez duras críticas com base em sua ideologia cristã neopentecostal. O contraponto ao parlamentar veio calçado na ciência.

O projeto de Luci busca incluir a comunidade LGBTQiA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais ou transgêneros, queer, intersexuais, assexuais e +) na vivência escolar das instituições de ensino do Município. Entre os objetivos estão resgatar os jovens e adultos da comunidade LGBTQiA+ que abandonaram os estudos; preparar e capacitá-los para a vida profissional; e capacitar docentes e discentes para o acolhimento nas escolas. As instituições poderão aplicar o programa a partir de parcerias, convênios, palestras, cursos e oficinas sobre o tema.

A proposta tramitou em Plenário em primeira discussão e será votado na próxima terça (8). Embora uma emenda protocolada por Luci determine que o programa poderá ser realizado durante o ano letivo (ou seja, instituição decidirá se coloca em prática ou não), Alexandre Vargas repetiu por inúmeras vezes que “Não quero que meus filhos tenham uma coisa diferente do que eu como cristão penso de família”, disse o vereador.

Suas críticas concentraram-se, sobretudo, na Justificativa do projeto. Ele destacou que o texto traz apenas dados de evasão no Estado e não em Santa Maria.

“Se não temos dados estatísticos, não temos como saber se existe evasão escolar. A justificativa é em relação ao Estado”, criticou.

O vereador disse que o projeto nem deveria ter passado pela Procuradoria Jurídica da Casa e questionou o fato de os professores municipais terem sido consultados se desejam ou não ser capacitados sobre o tema. Ele ainda ressaltou que respeita tanto Luci quanto o público que será atingido pelo projeto.

“Não temos nada contra essas pessoas, absolutamente nada, cada um faz o que quer de sua vida”, disse Vargas.

Ao sair da tribuna, ele foi bastante aplaudido, sobretudo, pelo público nas galerias da Casa. Entre os presentes, estava, por exemplo, o pastor e superintendente municipal da Defesa Civil, Adão Lemos (PSDB).

Contraponto

Pouco depois, utilizando o espaço de liderança do PP, a vereadora Cida Brizola (PP) discursou sobre o assunto na tribuna. A progressista disse que possui experiência de 40 anos tratando do tema na vida pública, em sua atuação como médica (é especialista em ginecologia obstetrícia) e professora de séries iniciais (Magistério).

Ela começou seu discurso relatando o caso de uma menina de 10 anos que foi violentada por um pastor e que denunciou o caso para os pais porque estava empoderada, sugerindo que o ensino sobre sexualidade nas escolas pode ir além do objetivo do projeto de Luci.

“Nem precisava professora (referindo-se a Luci) o projeto, pois mostra a incompetência do nosso serviço público nacional e talvez mundial para preparar as escolas e universidades deste enfretamento na sociedade, que é a evasão escolar de uma criança por bullying, por ser chamado de mariquinha. Isso é crime uma escola não tomar uma posição”, disse Cida.

A vereadora ressaltou que foi preciso surgir a Aids para se conseguir falar sobre sexualidade e uso da camisinha nas escolas, argumentando que não dar atenção à comunidade LGBTQi+ acaba prejudicando esse público.

“Isso é uma sociedade punitiva. A punição é a criança na escola quando tem a tendência e nem sabe o que é ser chamado de mariquinha. Ela desaparece, não quer mais ir à escola e roda (de ano)”, afirmou Cida.

Apoio

O vereador Valdir Oliveira (PT), no uso da tribuna, fez um breve comentário sobre o tema e parabenizou Cida.

“Muita gente sofre com isso e não podemos tratar de forma simplista. Vamos tratar disso na terça, mas quero reforçar, o que a senhora disse, eu também gostaria de ter falado”, afirmou Valdir.

Projeto satânico

Alexandre Vargas publicou seu discurso na íntegra em sua fanpage. A publicação rendeu dezenas de comentários do tipo “Eu repúdio esse projeto satânico”, “Cheguei até a elogiar o trabalho que essa senhora, Tia Luci da Moto, fazia como professora, mas agora ela está mostrando quem é realmente: lobo sob a pele de cordeiro” e “Com certeza não podemos impor regras diferentes as da ordem familiar!”.

Preconceituoso

Por sua vez, Luci Duartes, sem citar o nome de Alexandre Vargas, aponta que o parlamentar é preconceituoso, oportunista e ainda o acusa de distorcer os fatos:

 

Saiba mais

Clique AQUI e confira a íntegra do projeto que será votado na próxima terça (8).

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3 Comentários

  1. Cortina de fumaça. Jogando o jogo dos vermelhinhos. Falta de capacidade para discutir problemas muito mais prementes da aldeia. Solução? Não votar em nenhum dos (as) envolvidos(as).

  2. Gravações vindas das igrejas podem revelar que determinado representante do povo tem disseminado ódio?

    NOTA DO EDITOR: e quem falou em Igreja??? Leia de novo a matéria, por favor. O repórter explicou isso bem direitinho, inclusive onde as mensagens endereçadas à vereadora foram publicadas.

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