COLUNA. José Mauro Batista e a Santa Maria que queremos e que ainda “precisa entrar no século XXI”

COLUNA. José Mauro Batista e a Santa Maria que queremos e que ainda “precisa entrar no século XXI”

COLUNA. José Mauro Batista e a Santa Maria que queremos e que ainda “precisa entrar no século XXI” - 8805fa90-josé-mauro-colunaSanta Maria precisa entrar no século XXI

Por JOSÉ MAURO BATISTA (*)

O que Santa Maria foi, é, quer ser e o que poderá ser? Creio que estas perguntas-chave devem nortear todo e qualquer debate sobre o presente e o futuro da cidade no século XXI. Neste artigo, analiso cenários e proponho uma profunda reflexão a respeito do que virá logo ali na frente.

Como não há soluções prontas, desafio os santa-marienses a pensar sobre modelos possíveis de cidade. Ao longo de três décadas acompanho incansáveis debates e iniciativas de entidades e instituições locais com o objetivo de transformar Santa Maria. Algumas talvez tenham dado certo, enquanto outras pereceram ou nem saíram das mentes de seus proponentes e das rodadas de discussão.

Tenho um pé atrás com autores de best-seller, mas um que respeito, com base em seu prestígio internacional, é o israelense Yuval Noah Harari, ph.D. em História pela Universidade de Oxford e, atualmente, professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua obra mais conhecida é “Sapiens: uma breve história da humanidade”, em que ele se debruça sobre a trajetória do homem.

Mas outro livro de Harari – “21 lições para o século 21” -, lançado em 2018 no Brasil pela Companhia das Letras, faz complexos questionamentos sobre o futuro da humanidade a partir de perspectivas de determinados usos da Inteligência Artificial (IA) e da biotecnologia, e da ameaça nuclear e de um colapso ecológico. Pois creio que as cidades do mundo todo devem entrar nesse debate. O que está em jogo é a própria continuidade da nossa espécie a longo prazo, embora alguns efeitos extremamente perturbadores possam ocorrer bem antes do que imaginamos.

Harari sugere que os Estados-nação foram, de certa forma, suplantados pela globalização e não têm as melhores respostas para os desafios do século XXI. Assim, diferentemente de outras épocas, o nacionalismo, apesar do fascínio que ainda gera em muitos, está longe de ser o melhor caminho.

Trazendo esse debate para nossa “aldeia”, guardadas as devidas proporções, significa entender que Santa Maria faz parte de um mundo conectado em redes complexas de relações. Também significa compreender que todos os habitantes do Planeta vivem sob as mesmas ameaças. Desta forma, o bairrismo, tão defendido por algumas lideranças, estaria igualmente superado.

Questões levantadas por Harari sobre desafios globais cabem muito na Boca do Monte e em qualquer lugar, desde que traduzidas para o espaço local. Vamos começar, então, pela política. Queremos prefeitos condôminos ou visionários? É possível administrar um condomínio com poucos recursos? E um município de quase 300 mil habitantes? Queremos uma Câmara de Vereadores que promova acaloradas discussões para além de pautas comportamentais (sem dúvida, importantes) ou queremos manter o atual modelo de Legislativo prestador de homenagens e com farta produção de projetos de nome de rua e datas comemorativas? Nesses casos, é o cidadão quem vai decidir.

Mas vamos além. Queremos uma universidade federal limitada às fronteiras regionais ou uma instituição acadêmica que produza ciência para o Brasil e para o mundo contemplando questões locais? O que queremos para a Educação de base (do pré ao ensino médio)?

Vamos continuar sonhando com uma industrialização tardia e convencional (se é que ainda exista quem pense esse paradigma) ou vamos apostar em empreendimentos tecnológicos de ponta? Continuaremos dependendo do funcionalismo público? E se eles seguirem o caminho dos caixas de banco e empacotadores de supermercado, que reduziram significativamente seu espaço nos últimos anos? Continuaremos dependendo dos soldos dos militares?

E as questões ecológicas, do trânsito e de infraestrutura? Há pontos críticos ainda não solucionados como as áreas ocupadas irregularmente, onde centenas de pessoas vivem em condições precárias. Da maneira como a cidade foi desenhada ao longo do tempo, parece não haver solução para alguns gargalos, o que exigirá que pensemos em outros modelos de transporte, moradia, etc.

Afora isso, há outras perguntas aguardando resposta: já fomos, de fato, a Cidade Cultura, ou inventamos esse conceito e nos iludimos com ele? Queremos uma cidade realmente integrada com a região para além de uma visão meramente turística? Nesse sentido, vale lembrar que São Martinho da Serra é sede de um observatório espacial.

Por fim, creio que as lideranças políticas da cidade, incluindo aí os deputados, estão cientes dessa agenda. Sem abandonar o foco em questões de curto e médio prazos, Santa Maria precisa ser pensada num contexto mais amplo e, no mínimo, 50 anos para a frente. Ou se faz isso agora ou vamos criar sérias dificuldades para os santa-marienses que irão viver num futuro não muito distante. Não que Santa Maria vá desaparecer do mapa, mas, certamente, ficará refém das mudanças que virão.

(*) José Mauro Batista é jornalista. Até recentemente, editor de Região do Diário de Santa Maria. Antes foi repórter e editor do jornal A Razão. Escreve no site semanalmente, aos domingos.

Observação do editor: a foto de Santa Maria, a partir da zona norte, é de João Vilnei, do arquivo da Assessoria de Imprensa da Prefeitura.

 



9 comentários

  1. Michael Almeida di Giacomo

    Bom dia !
    Mais uma ótima reflexão do Zé Mauro.
    O importante é propor o debate, mesmo que alguns ainda continuem surdos e outros mudos.
    Se me permite, uma breve contribuição.
    Esse novo modelo de sociedade, voltada para os problemas estruturais que o século XXI nos apresenta, ainda vai levar mais de uma ( ou umas ) geração para “cair” na real.
    A premissa é fácil de ser comprovada quando você ainda escuta candidatos a prefeito com o seguinte discurso: ” Temos que criar condições para que os jovens de Santa Maria fiquem na cidade. Não tenham que ir procurar emprego em outros lugares. Santa Maria não pode ser somente uma cidade formadora de profissionais que ficam um tempo aqui e depois vão embora”. Toda eleição tem esse mantra, que já virou “perfumaria”.
    Esse tipo de pensamento somente denota uma liderança política desatualizada e que não compreende que no século XXI essas fronteiras não existem mais. Aliás, há um bom tempo.
    A cidade pode ser pensada sob um contexto amplo. A pauta não deve ser como criar condições para que esses jovens fiquem na cidade (para ficar nesse tema, que pode ser tranquilamente ajustado a outros), mas, como a cidade pode absorver todas as novas formas de geração de oportunidades, a fim de contemplar um coletivo social que é diverso intelectualmente, culturalmente e que, em boa parte das vezes, não está localizado geograficamente na cidade e sim no mundo.
    São essas as nuances de Santa Maria e das grandes cidades do país.
    Esse é o século XXI, onde o anacronismo não tem espaço. A geração Millennials irá “atropelar” o pensamento analógico.
    Um abraço !

  2. O Brando

    ‘Quer ser’ é algo que se ouve muito por aí. Implicitamente é dito que a cidade pode ser qualquer coisa que quiser, o que está muito longe da verdade. Anos atrás fizeram o plano estratégico de desenvolvimento da aldeia. Reuniram um monte de gente e fizeram uma lista de desejos. Não é algo exclusivo da urb, não verifiquei as metas da Agenda 2020, mas se tivesse que apostar no escuro colocaria no ‘parcialmente cumpridas’. Com muito ‘otimismo’ e pouca noção, óbvio.
    Antigamente as pessoas faziam coisas importantes e com isto ganhavam notoriedade. A partir dai viravam referencia para a sociedade, eram objeto de consulta nos assuntos importantes. Atualmente as pessoas ficam famosas sem ter feito nada de concreto, simplesmente porque caíram no gosto da massa ou porque a mídia assim resolveu. Porque são famosas viram referencia. Uma atriz (ou ator), jogadores de futebol, escritores. Alguns com formação mínima, experiência nenhuma além do campo de atuação. O que poderia dar errado?

  3. O Brando

    Umberto Eco é famoso pela afirmação das ‘legiões de idiotas’. Um acadêmico que passou a vida no meio dos livros. Não é anti-intelectualismo e nem anti-ciência (há os que não entendem, há que se explicar com detalhes). Existe um vídeo no Youtube de Noam Chomsky. Comenta o trabalho de John Rawls de quem era amigo pessoal. Teoria da Justiça. Afirma que é um trabalho muito bom vigoroso, etc. Mas (e dai tudo que vem antes não importa) é completamente desgarrado da realidade. Não leva em conta economia, a dinâmica social, etc. É um dos problemas também do judiciário brasileiro, parte pelo menos (a outra é pura picaretagem).
    Divago. Mimimi serve para dizer de forma mais prolixa que Harari não é referencia e que Santa Maria tem que parar de sonhar e ouvir estrelas. Santa Maria tem que se olhar no espelho.

  4. O Brando

    Harari escreveu um estudo antropológico superficial sobre a humanidade. Gostoso de ler é verdade. Viés liberal, centro-esquerda do hemisfério norte. Autor não tem formação em biologia, tecnologia, economia, etc. Opina (apelo a autoridade) com base em informações superficiais de terceiros. Não conhece as possibilidades, não tem como conhecer os efeitos. Escreveu antes da pandemia ainda por cima.
    Aquecimento global, por exemplo, é uma realidade. Teremos que lidar com os efeitos. Não falam isto para não criar pânico. Não é dizer que podemos continuar destruindo a natureza ou poluindo e, vamos combinar, escrever limitando as interpretações para evitar a desqualificação dos cabeças de bagre é muito chato.
    Para quem não acredita. Energia do mundo é dividida assim: 35% petróleo, 25% carvão e 25% gás natural. Só um imbecil completo poderia afirmar que é fácil e rápido mudar estes números. Coisa de gente que passa a vida esfregando a barriga numa mesa.
    Extinção em massa? Sim. A sexta. Estamos incluídos. Visão otimista, pode acontecer outra pandemia, um meteoro, ejeção de massa coronal gigante, explosão de um super vulcão. Muito mais preocupante do que a possível guerra nuclear.

  5. O Brando

    Acordo de Paris tem um programa de transferência de renda. Países que emitem mais pagam os que emitem menos. Canada saltou fora, teria que desembolsar uns 12 bilhões de dólares por ano. França é cara de pau, 75% da energia elétrica vem da energia nuclear, provavelmente teriam dinheiro a receber. Armadilha? Países ’em desenvolvimento’ não podem aumentar emissões, logo não podem aumentar o consumo de energia (reservatórios tupiniquins por sinal estão baixos, termoelétricas irão funcionar; se não chove hidros não funcionam). Amazônia é 50% do território nacional, não tem como controlar tudo (podem continuar com a luta politica estéril). Cerrado são outros 25%.

  6. O Brando

    Universidade e ensino básico/médio não são decididos aqui. UFSM tem cursos bons, mas a distancia para os melhores do planeta é gigantesca. Não está proibido de algum desgarrado ir trabalhar na NASA ou alguém das relações internacionais ir parar no Itamaraty (se acontecer será prova cabal de ‘como somos bons’), mas para a grande maioria seria mais fácil alcançar a fama tentando escalar o Everest. É a sina da aldeia, gente ignorante vangloriando-se de coisas toscas que não entendem.
    O bairrismo ‘está superado’, mas São Martinho ‘é sede de um observatório espacial’. A instalação esta para os observatórios espaciais assim como o Cerro Azul esta para o futebol. Já rendeu noticia, ‘esta no mapa mundial’. É o ufanismo hiperbólico sem noção da aldeia. Por conta de ‘melhorar a autoestima’ não reconhecem a mediocridade e ainda por cima se vangloriam. Coisas do tempo em que não era possível comparar com outros lugares via internet. População ignorante assiste passivamente. Se é o melhor do mundo não precisa melhorar, óbvio. Um tremendo tiro no pé.
    Prognostico? Vai ficar exatamente como está. Um Casarão com edis na base do que a casa tem para oferecer. Cidade em decadência visível, talvez acelerada pela pandemia. Gente que só sabe debater propondo mais debate. Muito grito e pouca lã. Muito trololó, propaganda e muito pouca ação.

  7. Diorge Alceno Konrad

    Muito bom, José Mauro! Os grandes administradores devem pensar o futuro e não apenas as medidas importantes, mas paliativas, do presente!

  8. PS

    Perfeito o texto, Mauro. Alguém tem que colocar em debate esse assunto. Faz muito tempo que Santa Maria é uma cidade que parou no tempo. Não consegue ter crescimento, desenvolvimento para a população. Sim somos uma cidade que apenas forma universitários e nada mais.
    Sobre título de cidade cultura, é totalmente engana o morador da cidade. Infelizmente políticos só falam mas não apresentam projeto de crescimento e colocam em prática.

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