A desilusão amorosa de Gudin e Campos – por Giorgio Forgiarini
Por aqui, escreve o articulista, “o liberalismo sempre foi aplicado pela metade”

O Brasil já teve liberais autênticos. Roberto Campos era um deles. Estou longe de calçar suas sandálias ideológicas (usando expressões dele próprio), mas não posso deixar de reconhecer coerência em sua linha de raciocínio. Outros antagonistas também o fizeram, como Maria da Conceição Tavares, economista marxista e ex-deputada federal que, entre uma rusga e outra, não deixava de mencionar a honestidade intelectual daquele que recebeu a alcunha de “Bob Fields” pela filiação com a Escola de Chicago.
Uma das frases mais icônicas atribuídas a Roberto Campos, na verdade, não era dele. Foi emprestada de Eugênio Gudin, outro liberal brasileiro de estirpe, de quem Campos havia sido aluno: “Das amantes que tive, o Brasil foi a que mais amei e a que mais me enganou”. Ao proferir tais palavras, Roberto Campos, como Gudin, não batia na esquerda brasileira.
Nunca nutriu qualquer sentimento de amor por esquerdistas, tampouco poderia se dizer traído por eles. Campos se referia aos “liberais” brasileiros, que o ombreavam na oposição à figura do Estado, não por convicção, mas por quererem tomá-lo para si, seguindo a lógica do “quem desdenha quer comprar”.
Nos últimos dias, em função das situações embaraçosas envolvendo Brasil e Estados Unidos, não foram poucos os políticos e empresários “liberais” (?!?!) advogando apoio financeiro às empresas afetadas pelo tarifaço norte-americano. Ocorre o mesmo quando acontece alguma seca, enchente, etc, mas só quando atinge empresários ricos.
São estas situações em que os discursos por austeridade, gritos contra um suposto inchaço do Estado e os berros pela contenção de gastos públicos são deixados de lado. “Não podemos deixar a economia morrer”, dirão. Não, não acho que estão errados ao dizer isso. Só acho que são incoerentes.
“Se não tem condições de sobreviver por si, deixe-se morrer”. É o que diria Joseph Schumpeter, economista austríaco de verve liberal, célebre pela teoria da “destruição criativa”. Para ele o Estado não deve se envolver na economia, mesmo em tempos de crise. O processo de inovação depende justamente da morte de empreendimentos obsoletos.
Mas aqui, no Brasil, o liberalismo sempre foi aplicado pela metade. O discurso de austeridade nunca deixou de ser dirigido apenas aos mais pobres. São eles com suas aposentadorias pífias e salários miseráveis que provocam prejuízo ao Estado e comprometem o equilíbrio fiscal. São eles os perdulários.
Para si, os liberais brasileiros não querem saber de Estado mínimo. Querem Plano Safra, financiamento do BNDES, da Caixa e do Banco do Brasil, tudo subsidiado e com possibilidade de renegociação, caso deem com os burros n´água (por culpa sua ou não). Mais do que isso, querem universidade federal (livre dessa coisa de diversidade), atendimento no SUS de procedimentos que o plano de saúde não cobre, estágio remunerado em repartição pública para o filho, etc, etc, etc.
Mas principalmente, o que os liberais mais querem é cargo em comissão, não apenas para lhes render uns trocos no fim do mês, mas também, e principalmente, para, de dentro do serviço público, boicotá-lo e, então, convencer a sociedade como um todo de que, não, o serviço público não presta.
Sou capaz de afirmar: Existem mais liberais ocupando cargos em comissão, do que socialistas com Iphone.
Esses são os que se dizem liberais no Brasil. Assim se dizem para ganhar voto, prestígio, afago de empresário ou por outra razão qualquer, mas não por efetivamente serem liberais. Eis o motivo da decepção de Gudin e Campos. Porém, como diz o brocardo popular, só se desilude quem se ilude. E essa turma aí, meus amigos, nunca me iludiu.
(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.





Resumo da opera. Brasil é o que é. Ficar catando explicações alienigenas criadas para outras situações e tentar ‘encaixar’ na realidade tupiniquim não resolve.
‘Assim se dizem para ganhar voto, prestígio, afago de empresário ou por outra razão qualquer, mas não por efetivamente serem liberais.’ Lembra outro autor, Faoro e o patrimonialismo. Teoria mais adequada.
‘Esses são os que se dizem liberais no Brasil.’ Esses são os que se deseja colocar o rotulo de ‘liberais’ para desqualificar. Mas uma coisa não se pode negar: só se intitula liberal mesmo a classe média alta bunda mole que está com a vida ganha. Mas também existem alguns nesta turma que se dizem ‘sociais democratas’, bom lembrar. Ou ‘novos’. Pior, alguns que são ‘socialistas de iPhone’. Afinal, são comunas mas não fizeram voto de pobreza.
‘[…] o que os liberais mais querem é cargo em comissão, não apenas para lhes render uns trocos no fim do mês, mas também, e principalmente, para, de dentro do serviço público, boicotá-lo e, então, convencer a sociedade como um todo de que, não, o serviço público não presta.’ Teoria da conspiração. Percepção da qualidade do serviço publico é formada na ponta, onde existe contato entre população e servidores. Sempre tem uma fila, inumeras vezes ‘falta um carimbo’, ‘tem que pegar um boleto para pagar uma taxa e voltar outro dia’. Nenhum(a) professor(a) universitario(a) é ‘matão’. Pode alguem argumentar que são minoria, mas o corporativismo impede a correção. Alas, tem muita gente que defende o funcionalismo sem se dar por conta que a população geral não sabe nem que ela existe.
‘[…] estágio remunerado em repartição pública para o filho,[…]’. Para quê? Aprender a não trabalhar? Ou é papo de burocrata, estágio no MP ou no judiciario?
‘[…] atendimento no SUS de procedimentos que o plano de saúde não cobre,[…]’. Se o SUS funcionasse como propagandeiam não seria necessario plano de saude. Obvio.
‘[…] querem universidade federal (livre dessa coisa de diversidade),[…]’. Não sei se continua assim. Diploma não é mais garantia de emprego. https://www.youtube.com/watch?v=qI8wuFLzgDw
‘Querem Plano Safra, financiamento do BNDES, da Caixa e do Banco do Brasil, tudo subsidiado e com possibilidade de renegociação, caso deem com os burros n´água (por culpa sua ou não).’ Qual a alternativa? Todo pais subsidia agricultura, inclusive os ianques. BNDES ainda na epoca dos milicos foi um dos fatores que possibilitaram a industria em Caxias e no nordeste de SC. Só mencionando os casos mais proximos.
Perdularios. Governo joga dinheiro em bobagens para estimular o consumo e criar voo de galinha. Os ‘pobres’ são só escudos eleitoreiros. Não deram um milhõa para construir o museu do ET de Varginha? Reportagem da Exame de 2025: Trem Bala ligando RJ a SP viajara a 320 km/h, deslocamento de 105 minutos e a passagem custara 500 pila. E para os ‘pobres’? Quantos predios ainda construirao na UFSM só para o/a ocupante da reitoria pendurar a placa? Mesmo sabendo que a demanda vai diminuir devido a curva demografica?
‘São eles com suas aposentadorias pífias e salários miseráveis que provocam prejuízo ao Estado e comprometem o equilíbrio fiscal. São eles os perdulários.’ Problema não é a miséria que ganham, é o numero de beneficiados. Se todo cidadão e cidadão tupiniquins me derem 50 centavos eu coloco 105 milhões no banco. Alem disto existe a piramide demografica, menos gente trabalhando e mais gente aposentada. Com despesas medicas crescentes. Não é ‘so imprimir dinheiro e distribuir’.
‘É o que diria Joseph Schumpeter,[…]’. Que morreu em 1950. Era outro planeta.
‘Mas aqui, no Brasil, o liberalismo sempre foi aplicado pela metade.’ Não é exclusividade tupiniquim. Exemplo mais gritante é o Banco Central. Regula o sistema financeiro. Por que não deixar o ‘mercado’ fazer isto? Nem na Ianquelandia, ele tem o FED. Reino Unido tem o Banco da Inglaterra. Suiça tem o Banco Nacional Suiço. Singapura tem a Autoridade Monetaria de Singapura. Milei falou em fechar o Banco Central argentino.
‘Ocorre o mesmo quando acontece alguma seca, enchente, etc, mas só quando atinge empresários ricos.’ Conversa. Sebrae. Micro e pequenas empresas são 27% do PIB e empregam mais dos 50% dos trabalhadores com carteira assinada. Por isto que é arriscado aumentar o salario minimo no canetaço artificialmente. Uma dona de loja pequena/media vai ter que vender quanto mais para cobrir o custo? Ou é mais facil demitir?
‘[…] os políticos e empresários “liberais” (?!?!) advogando apoio financeiro às empresas afetadas pelo tarifaço norte-americano.’ Primeiro: eles se identificam como liberais? Ou só criticam a hipertrofiada interferencia de um governo de esquerda na economia? Segundo: qual a alternativa? Deixar quebrar? Batendo na estatistica do desemprego e na atividade economica?
“quem desdenha quer comprar”. Chavão que saiu do ambito comercial para virar desqualificação.
‘Nunca nutriu qualquer sentimento de amor por esquerdistas, tampouco poderia se dizer traído por eles.’ São anacronicos, defendem soluções que comprovadamente não funcionam para problemas que persistem.
Carlos Lacerda dizia que ninguém era mais liberal do que Roberto Campos fora do governo e ninguém era mais intervencionista quando estava dentro do governo. Se não me engano é mencionado no livro Depoimento.
Não tem problema. Delfim Neto não foi liberal o suficiente. FHC não foi liberal o suficiente. Eduardo Leite não foi liberal o suficiente. Sempre que políticas liberais fracassam o reclame dos liberais é sempre o mesmo: “não houve o liberalismo o suficiente”.
Falacia do espantalho. A questão é se Bob Fields era ‘liberal’ ou não. Critica de Lacerda diz respeito ao Plano Decenal do qual foi um dos autores. Diz respeito ao desenvolvimentismo dos milicos. Alas, Lacerda dizia ‘como é que sabe o preço do feijão daqui 5 anos?’. Critica era injusta porque Bob Fields fazia o que os ‘patrões’ mandavam ou permitiam, não tudo que desejava. Se perguntar a alguém que manje de historia vai ter confirmação.
‘O Brasil já teve liberais autênticos. Roberto Campos era um deles. Estou longe de calçar suas sandálias ideológicas […]’. Sim, o autor está no mesmo nivel intelectual que Bob Fields, é só perguntar em BSB e todos sabem quem é.
Independente de concordar com o autor, ou com Bob Fields, fico envaidecido!
Que é isto, nunca ninguém associou a palavra ‘vaidade’ com o colunista. Até porque é pecado capital.